Precisamos falar sobre maternidade real

É difícil escolher um tópico pra falar de maternidade, meu filho tem 9 anos e ao longo desse tempo vivi todo tipo de experiência ao lado dele. Lembro de detalhes, de sorrisos, de choros, de olhares, de quase tudo... Mas tem uma coisa que eu não lembro bem: não lembro de nada que eu tenha feito nos primeiros seis meses de vida do meu filho a não ser cuidar dele. Foram meses insanos, ele chorava o tempo todo, lembro de alguns flashes: troca a fralda, amamenta, coloca pra arrotar, dá banho, amamenta, coloca pra dormir, acordou, amamenta, troca a fralda, choro, choro, choro. Não lembro de ter tomado banho, embora eu saiba que tomei. Não lembro de ter penteado o cabelo, apesar de achar que em algum momento fiz isso. Não lembro de ter beijado na boca ou ter recebido carinho (eu recebi?). Não lembro de ter lido nenhum livro, escutado nenhuma música (qual era a música do momento?), comido nenhuma pizza. Lembro de ter feito sexo uma vez, lembro que não foi bom. Não lembro das conversas que eu tive, embora eu lembre que recebi visitas - pelo menos nos primeiros dois meses. Não lembro de ninguém ter perguntado se eu estava bem, lembro de responder incansavelmente que meu filho estava bem, bem alimentado, não, eu não sabia porque ele chorava tanto, sim, eu já tinha levado ele ao médico, sim já tinha levado em outro, não, não tinha nada de errado com ele. Mas não lembro de ter vivido nesses seis meses. Depois de seis meses eu voltei a trabalhar e estudar, sair de casa. Antes disso foi um vazio. Tenho fotos pra provar que meu filho estava bem, saudável e fofinho. Não mostro pra ninguém as fotos em que eu apareço - ou um espectro de mim. Foram os piores seis meses da minha vida. Eu amava meu filho com todo meu coração, mas passar 24h por dia atendendo as demandas dele era frustrante. E o pai dele estava ao meu lado o tempo todo, fazendo seu papel. Ainda assim, eu nunca me senti tão só, tão vazia, tão inútil. Depois de seis meses, meu filho já demonstrava traços da sua personalidade, já sorria, já brincava, já era uma pessoa pra me fazer companhia e tudo se tornou melhor, mais gratificante, com mais sentido. Mas por seis meses eu fazia aquilo, repetia aquelas ações, sem entender direito o porquê, sem lembrar como eu tinha chegado ali e sem saber como sair. Foram meses estranhos e solitários. Ainda bem que acabaram. Não me lembro como, mas acabaram.


Esse relato foi enviado por mim para a campanha #maternidadereal promovida pela Coletiva Feminista Radical Matinta, que divulgou ao longo da última semana na sua página no Facebook diversos relatos de mães, contando suas experiências e narrando suas histórias. Recomendo a leitura de todos (o meu está nesse link aqui). É urgente que o movimento feminista e a sociedade como um todo trate sobre a maternidade sem romantização, precisamos falar de maternidade compulsória, precisamos falar da solidão e da sobrecarga vivida pelas mães. Pra ontem.