Prostituição é sobre dominação masculina

Precisamos parar urgentemente de falar de prostituição como se fosse ato sexual. Não é. Prostituição é sobre dominação masculina, trata do exercício de poder masculino sobre os corpos femininos. Toda a ideia de que é possível comercializar corpos de mulheres, estabelecer preços sobre cada parte a ser tocada ("consumida") ou sobre o que se pode fazer com cada pedaço do corpo , tudo isso parte da objetificação da mulher, da ideia de que nossos corpos podem ser desmembrados e a esses pedaços de carne atribuir valor de acordo com o prazer que podem dar aos homens.

É necessário um enfrentamento de questões simples, como por exemplo: por que a prostituição é historicamente uma atividade destinada às mulheres ou, no máximo, àqueles homens que assumem símbolos de feminilidade como parte de sua identidade? Por que os prostituintes* são em sua maioria pessoas do sexo masculino?
Nada disso é coincidência. A prostituição é uma ferramenta de exploração histórica intimamente ligada à submissão imposta às mulheres desde que o patriarcado as separou entre aquelas que serviriam para a procriação (esposas/mães) e aquelas destinadas apenas a dar prazer sexual aos homens (prostitutas). E quando eu falo patriarcado eu espero que vocês não imaginem um ser sem forma espalhando maldade, mas um sistema que se materializa na vida de todas as mulheres, onde os agentes responsáveis pelo estabelecimento e perpetuação desse sistema são aqueles que se beneficiam dessa exploração: membros da casta favorecida, os do sexo masculino.

Procurar e encontrar respostas para essas perguntas vai nos mostrar que não é possível um movimento de emancipação das mulheres sem que este tome como pauta fundamental e urgente a eliminação dessa exploração sexual, que não é compatível lutar pelas mulheres e ao mesmo tempo apoiar sua submissão. Nenhuma mulher será emancipada enquanto a dominação masculina e a submissão feminina** existirem. São dois lados complementares da estrutura patriarcal e para destruir essa estrutura precisamos atacar na base, eliminando todas as formas de exploração do sexo feminino. Todas, sem exceção.

*O termo prostituinte refere-se àquele que paga, difere do prostituidor, que é aquele que alicia para a prostituição, também chamado de proxeneta ou cafetão.

**Vou deixar aqui um trecho que me parece instigante sobre essas questões:

“A prostituição emerge da submissão do corpo das mulheres. Se não fosse assim, teriam homens na beira das estradas e mulheres comprando/pagando eles. Mas homens não podem ‘escolher’ se prostituir. Mulheres não têm uma sexualidade dominante e não foram criadas para verem homens como seus objetos sexuais. Prostituição é sobre os direitos e privilégios dos homens de dominação e objetificação sexual da mulher. Se existisse igualdade então mulheres não poderiam ‘escolher’ se prostituir porque não existiria prostituição.” (Sheila Jeffreys)

Texto postado originalmente aqui, em 27/01/2017.