Será que essa tortura vale a pena?

Era sábado à tarde.
Tinha acabado de tomar meu café e decidi dar uma caminhada pelo bairro. Foram cerca de três quarteirões até chegar no lugar que eu jamais esqueceria pro resto da minha vida. Induzida pela baixa autoestima, entrei, sem pensar duas vezes.
Fui recebida prontamente por um rapaz que parecia muito gentil, apesar de seu humor um pouco ácido. Ele me guiou para o ambiente da parte de trás do lugar, e disse; isso aqui garota, vai fazer bem pra sua vida, vai te deixar mais feliz, mais completa. Era a promessa que eu queria ouvir. 
Rapidamente ele me deitou em uma cadeira onde o pescoço ficava um pouco inclinado, incomodando, e assim ele jogou um jato de água gelada na minha cabeça, por 15 min. Depois, puxou meus cabelos pros lados direto e esquerdo, e enrolou eles bem prensados, formando um nó robusto.

Fui mudada de ambiente novamente.

Me colocaram sentada em outra cadeira, e dessa vez, ele soltou o nó, me envolveu com uma capa preta grossa e que dava pra sentir a pele suando. Até então, não entendi direito o que estava acontecendo. Ele sorriu pra mim, disse que sabia o que estava fazendo, e pegou uma tesoura prata bem brilhante e pontiaguda. Meu estômago embrulhou. Se ainda existia uma borboleta nele, ela foi embora.

Chegaram mais duas mulheres, que pediram pra que eu esticasse minhas mãos e meus pés, e “relaxasse”. Tentem imaginar. Eu estava sentada em uma cadeira, com a cabeça inclinada, mãos e pés esticados. A sensação era de um animal, pronto para ser abatido, totalmente vulnerável e sem domínio do próprio corpo. As mulheres carregavam consigo espátulas e alicates bem afiados, junto com um líquido que ao passarem na minha mão/pé, ardia como limão em cima de uma ferida.

Eu estava completamente confusa. Todo mundo me tocava, cortava, puxava, a troco de que, mesmo?

Pensei; tudo bem. Eu topei entrar aqui e sair mais completa, mais feliz. Foi quando eles me disseram que eu estava pronta pra fase final, mas que essa poderia ser a mais dolorida. Entrei em pânico.

Me levaram para outro ambiente, onde se encontrava uma mulher sorridente; “Tudo bem, querida? O que vamos fazer hoje?”. Meus olhos estavam arregalados e acho que ela entendeu que eu não fazia a menor idea do que estava rolando. Assim ela pediu pra que eu tirasse toda a parte debaixo da roupa, ficando semi-nua, pra alguém que eu não tinha a menor afinidade. Ela me colocou deitada com as pernas esticadas em uma maca, bem parecida com aquelas de hospital, pegou um líquido pastoso e jogou entre as minhas virilhas. Aquilo queimava. Meus olhos encheram de lágrima. Dava pra sentir cada pedacinho da minha pele retraindo. Assim que o líquido pastoso secou, ela puxou ele com tudo, arrancando tudo que ali habitava. As lágrimas caíram.

Enfim, entendi o que estava acontecendo.

Todos que estavam em minha volta realmente acreditavam que esse processo de tortura renovava a auto confiança das mulheres, mas pra isso, precisava doer, arder e queimar.

Esse processo de tortura, não só era aceito por aqueles que o praticavam, mas era vangloriado por pessoas em minha volta, por toda a sociedade, e o único intuito dele pra mim, naquele momento, era não respeitar que meu corpo fosse exatamente do jeito que ele veio ao mundo.

Valorizar era não respeitar.

Isso é o que milhões de mulheres passam diariamente para ficar “bonita”. Isso é o que nos fazem pensar sobre o nosso próprio corpo. Que ele precisa ser mudado pra entrar nos “eixos”. Mas que eixos são esses?

Isso é uma ida ao salão de beleza.

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