O jardim de veredas que se bifurcam*

Arte de Barbara Kruger.

É claro que não existem verdades absolutas, essa é a melhor “verdade” que aprendi na universidade, mas o diálogo se torna difícil quando outras dimensões são ignoradas. Aviso de gatilho pois esse assunto é polêmico, principalmente por se tratar de um questionamento contemplativo relacionado a um modo de vida, um movimento político no qual acredito totalmente: o feminismo. Nunca tive e agora muito menos, problema algum em me afirmar feminista, inclusive é uma palavra que me define muito bem e que eu tenho orgulho de carregar, pois diz respeito não apenas a como eu gostaria de me relacionar com as pessoas a minha volta, como eu encaro as experiências abusivas que eu e outras irmãs vivenciaram, mas, também, ao mundo que eu imagino possível.

Mas, assim como qualquer movimento político e coletivo, o feminismo traz consigo inúmeros discursos de inúmeras individualidades, que muitas vezes, acabam por não levar em conta o outro e transformar a sua palavra, por sua vez, em opressora também. Isso é bem visível, por exemplo, nas vicissitudes do feminismo “branco”, que se diz único e universal, mas acaba esquecendo que existem outras demandas, outras vivências e outros sofrimentos que não está levando em conta em suas pautas, como a das mulheres negras. Outra, feministas radicais essencialistas que não consideram mulheres trans como parte do movimento, sendo esse assunto algo muito delicado pra mim pois me provoca um desconforto enorme. Acredito mais na vertente interseccional, que leva em conta recortes NECESSÁRIOS (pós-modernos, pode-se dizer, sim, não tenho medo dessa palavra) de etnia, classe, sexualidade, etc. Me interesso, mais especificamente, pela palavra “queer”, e acho que o feminismo tem muito a ganhar com o afrouxamento de certas noções essencialistas, abarcando uma maior fluidez do que significa ser uma mulher.

Além disso, entendo e acredito que o feminismo seja 100% de protagonismo feminino (esse “feminino” englobando todas as PESSOAS que se identificam enquanto mulheres), mas também não concordo totalmente com a exclusão completa dos homens ( de novo, uma categoria problemática), ou ainda, de considerá-los todos potenciais estupradores. Entendo de onde isso vem, também vivencio a cultura do estupro e me indigno e me descabelo todos os dias vendo quanta merda é perpetrada por homens contra mulheres (seres masculinos que não estou nem um pouco preocupados com uma vírgula dessa discussão), em casa, no trabalho, nas ruas, na mídia, nos meus filmes favoritos, you name it. Mas, apesar de também compartilhar da raiva e muitas vezes ser a favor de atitudes mais subversivas e que envolvam a catártica expressão da raiva (marcha das vadias, por exemplo), também não acho que uma exclusão completa dos homens do movimento seja a melhor saída. O compartilhamento do feminismo com os homens não envolve a entrega do protagonismo das mulheres, não envolve que eles falem mais ou expliquem como deveria ser o mundo pra nós, de nenhuma forma, mas acredito que compartilhar com aqueles que são nossos apoiadores e em quem confiamos, é algo muito recompensador. É claro que isso é algo que precisa ser feito com muito cuidado, e com certeza ao longo do caminho vamos encontrar alguns espécimens que nos chamarão de loucas, exageradas, mal-comidas. Mas aí, minha gente, o negócio é ter resiliência nesse jardim de veredas que se bifurcam.

*Capítulo do livro Ficções, do Jorge Luis Borges.