6 bons vinhos tintos brasileiros de R$ 50 (ou quase)

Porque o bebedor do Brasil merece uma vida menos dura. Por Rafael Spuldar

Não espere vinhos de ‘pedigree’: o foco desta lista é diversão. (US Department of Agriculture/Wikimedia Commons)

Tomar vinho no Brasil é uma empreitada dolorosa. As variações do câmbio e a carga pesada dos impostos borram a linha que separa os “baratos” dos “caros”. O vinho pagável de hoje pode ser o inviável de amanhã, enquanto o limite de preço de uma garrafa “baratex” vai subindo mês a mês, ano a ano.

Pensando nisso, tive a ideia de prestar um humilde serviço ao abnegado brasileiro tomador de vinho, puxando da memória (e do Vivino) seis bons tintos brasileiros de R$ 50,00, ou menos.

Todos os vinhos da lista são gaúchos, na maioria de vinícolas de média produção. Eles são relativamente fáceis de encontrar e, embora não sejam grandes exemplos de complexidade e pedigree, podem proporcionar boa diversão, acompanhados de comida ou bebidos sozinhos mesmo.

ReD Routhier e Darricarrère
· Preço sugerido: R$ 43

A vinícola fica em Rosário do Sul, na Campanha, e é um projeto de dois irmãos franceses criados no Uruguai, Pierre e Jean Daniel Darricarrère, unidos ao canadense Michel Routhier. O ReD, um blend leve e frutado de Cabernet Sauvignon e Merlot, é conhecido como “o vinho da Kombi”: o rótulo traz uma ilustração da perua que a família Darricarrère usou para rodar o litoral brasileiro nos anos 70. Esse espírito relax se reflete na bebida, bem focada na despretensão.

Eu acompanharia com: uns embutidos e um bate-papo com amigos.

Deles também tomei: dois Cabernets Sauvignons, o interessante Província de São Pedro, e o Salamanca do Jarau, aromático, carnudo, com presença.

A Kombi dos Darricarrère no Rio. (Divulgação)

Tannat Reserva Casa Venturini
· Preço sugerido: R$ 46

Procurando um vinho tinto brasileiro de bom custo-benefício? Vá nos Tannats gaúchos. Eles perdem dos hermanos uruguaios em estrutura e complexidade, mas ganham no preço e, por terem um pouco menos de corpo e mais acidez, acompanham bem outros pratos que não a carne gorda do churrasco. Este Venturini feito de uvas da Campanha — região próxima justamente ao Uruguai — desce fácil e é bem frutado, com um carvalho sutil. Vale muito.

Eu acompanharia com: uma linguiça assada, ou um spaghetti à Bolonhesa.

Cabernet Sauvignon Specialità Barcarola 2012
· Preço sugerido: R$ 46

A Barcarola fica no Vale Aurora, bem perto do Vale dos Vinhedos. A sua proposta é manter uma produção limitada, de vinhos sem envelhecimento em carvalho e feitos tanto de uvas típicas do norte da Itália, como a Teroldego e a Lagrein, quanto das “internacionais”, como a Merlot e este Cabernet Sauvignon, que conquista o bebedor pela maciez e pela longevidade: a safra 2012, por exemplo, mantém bastante aroma de fruta.

Eu acompanharia com: uma lasanha gorducha, com molho vermelho.

Deles também tomei: todos os tintos. O Lagrein e o Tannat se destacam com força. São vinhos com mais personalidade, mas nada pesados, com boa acidez e bem gastronômicos.

A simpática casa da Barcarola, no Vale dos Vinhedos, vale a visita. (Divulgação)

Do Lugar Cabernet Franc Dal Pizzol
· Preço sugerido: R$ 46

A Cabernet Franc é uma das cepas que melhor se adaptaram à Serra gaúcha. Desde os anos 70, ela rende vinhos leves, de batalha, e outros mais sérios (e caros). Este Dal Pizzol pertence à primeira turma: tem boa acidez, é fácil de beber e mostra até alguns aromas inesperados, como ervas medicinais. Mas também espere notas menos nobres, como — isso mesmo — cachorro molhado. Eu, pessoalmente, não me importo. Até gosto. Freud explica.

Eu acompanharia com: um galeto al primo canto, típico da Serra gaúcha.

Deles também tomei: a referência esquisita à região francesa pode assustar, mas o seu Gamay Beaujolais é superfresco e divertido. A Gamay é outra cepa trazida para a região nos anos 70, e que acabou suplantada pela Merlot e afins, mas parece estar recuperando espaço.

Um Do Lugar recém-consumido

Teroldego Reserva Don Guerino
· Preço sugerido: R$ 50

O crescimento da indústria do vinho na Serra gaúcha, a partir dos anos 80, fez com que uvas “internacionais”, como Merlot e Cabernet Sauvignon, mais conhecidas das massas bebedoras, tomassem a região de assalto. Mas as cepas tradicionais, levadas pelos colonos italianos, vêm ganhando seu público cativo. É o caso da Teroldego, típica do Trentino-Alto Ádige. Este Don Guerino é intenso, com notas de especiarias e framboesa. Belo negócio.

Eu acompanharia com: um churrasquinho de meio de semana.

Deles também tomei: da Moscato Giallo, uva branca também típica dos colonos italianos, é feito o Sinais. É fresco, com aromas florais e de frutas brancas. O preço tende a ser convidativo.

Sangiovese Valmarino 2015
· Preço sugerido: R$ 50

O berço perfeito da Sangiovese fica sem dúvida na Toscana, terra do Chianti e do Brunello. Já no Rio Grande do Sul, alguns produtores arriscam trabalhar essa uva fora do seu “habitat natural”, mas obtendo resultados dignos. Este Valmarino, feito com uvas de Pinto Bandeira, tem pouco corpo e é puxado nos aromas tostados e de baunilha, que vêm dos barris de carvalho (uma marca da casa), e de frutas vermelhas. Merece a conferida.

Eu acompanharia com: uma pizza calabresa.

Deles também tomei: Cabernets Francs com um carvalho bem saliente, mas muito agradáveis. Um deles é o Churchill, linha que também rende um espumante denso e interessante.

Rafael Spuldar é jornalista e bebedor de vinhos. Reside no Rio de Janeiro.