Fui à Bottega del Vino e gastei R$ 100 (ou quase isso)

Por Rafael Spuldar

Focaccia de alecrim e sal grosso da Bottega del Vino + 01 taça de Rosso Piceno

O restaurante Bottega del Vino, fincado no coração do Leblon, já traz no nome um bom motivo para ser referência dos tomadores de vinho no Rio de Janeiro. Sua carta bate nos 300 rótulos, com cerca de duas dezenas deles disponíveis em taça. Além dos prazeres líquidos, a Bottega del Vino tem um respeitável menu de inspiração italiana - tão respeitável que o restaurante estreou em 2017 na lista BiB Gourmand (de “bons e baratos”) do Guia Michelin.

Mas será que a Bottega del Vino pode ser “boa e barata” para o cidadão comum - digamos, um jornalista desocupado como eu? Se o Leblon tem o metro quadrado mais caro do Brasil, onde pedir um café-da-manhã fora de casa pode render uma conta de três dígitos, como fica a vida do sujeito a fim de gastar seus suados mil-réis em uma noite de embriaguez regada a vinho?

Para tirar a prova, estive recentemente na Bottega del Vino com um desafio em mãos: gastar no máximo R$ 100,00 tomando a maior quantidade de vinhos possível, e comendo pelo menos um item do cardápio.

Com uma nota de cem no bolso, cheguei à Bottega del Vino por volta das 19h. O público tinha um perfil mais executivo, que, ao longo da noite, deu espaço a famílias e grupos de amigos na faixa dos 60–70 anos. O ambiente é classudo, mas clean. A decoração é discreta, com móveis de madeira pesada e uma iluminação quente. A trilha sonora é um som contemporâneo e confortável no estilo Antena 1/Alpha FM. Já os garçons são simpáticos, mas nada espaçosos.

Oito opções de tintos na Enomatic (os demais ficam no balde de gelo)

Deixando o ambiente um pouco de lado, me fixei na carta da Bottega del Vino. Ela confirmou o que já esperava: o meu desafio teria de ser cumprido tomando vinho em taça, já que a garrafa mais barata do restaurante sai na faixa de R$ 80. Fora isso, nenhum prato do menu custa menos de R$ 40, o que dificultaria um tanto o sucesso da minha empreitada.

Das opções de vinho em taça, oito eram tintos. Ainda havia cinco vinhos brancos, um rosé tranquilo, dois rosés espumantes, três vinhos do Porto, um Jerez fino e um moscatel de sobremesa.

Como a noite no Rio era amena, algo difícil de se obter, decidi reservar munição para os tintos. Sendo assim, pulei os espumantes e parti para escolher um branco de entrada. As opções:

  • Pieno Sud Terre Siciliane Bianco 2015 — Sicília, Itália (uva Inzolia, R$ 22, taça de 150ml)
  • Niel Joubert Chenin Blanc 2015 - Paarl, África do Sul (R$ 28, 150ml)
  • Niel Joubert Sauvignon Blanc 2015 - Paarl, África do Sul (R$ 28, 150ml)
  • Pizzato Chardonnay 2016 - Brasil (R$ 30, 150ml)
  • Ventisquero Grey Chardonnay 2015 - Chile (R$ 38, 150ml)

Por já conhecer os Chardonnays da Pizzato e do Ventisquero, e por ter tido más experiências recentes com Inzolia, apostei no Chenin Blanc de Niel Joubert. É um vinho fresco e mineral, com uma pera e uma lima marcantes. Uma boa entrada, que poderia tranquilamente ser o vinho principal de algum almoço leve em uma quente tarde de fim de semana no Rio. Curti.

O único branco da jornada

Antes de partir para o primeiro tinto, tentei escolher algo para comer. Dados os preços do menu, a alternativa foi o coperto (ou seja, o couvert), uma focaccia com alecrim e sal grosso, simples e bem-feita, mas batendo na trave para matar a minha fome. O preço: R$ 16.

Entre os tintos, regiões manjadas (Mendoza), outras nem tanto (Marche) e nomes conhecidos, como a espanhola Finca Valdemar e o garagiste original de Bordeaux, Jean-Luc Thunevin. O plantel completo era:

  • Vignamato Rosso Piceno Marche DOP 2015 — Marche, Itália (corte de Montepulciano e Sangiovese, R$ 13, 90ml)
  • Pieno Sud Terre Siciliane 2012 — Sicília, Itália (corte de Nero D’Avola e Frappato, R$ 13, 90ml)
  • Visconti dela Rocca Etichetta d’Oro Primitivo IGT 2012 — Puglia, Itália (R$ 17, 90ml)
  • Parras Evidência Tinto 2015 — Dão, Portugal (corte de Alfrocheiro e Touriga Nacional, R$ 14, 90ml)
  • Huarpe Lancatay Malbec 2015 — Mendoza, Argentina (R$ 17, 90ml)
  • Valdemar Finca del Marquesado Crianza 2014 — Rioja, Espanha (corte de Tempranillo, Garnacha e Graciano, R$ 22, 90ml)
  • Château Haut Castenet 2009 (Jean-Luc Thunevin) — Bordeaux, França (Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Malbec, R$ 22, 90ml)
  • Château Terrefort Lescalle 2012 — Bordeaux, França (corte de Merlot, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, R$ 23, 90ml)

Comecei com o Vignamato Rosso Piceno, que prometia ser delicado e menos intenso, ideal como primeiro tinto. Ele não decepcionou, mostrando frutas vermelhas agradáveis no aroma e ligeireza na boca. Vinho divertido, casou bem com o coperto que chegou junto com a taça.

Meu segundo tinto na Bottega del Vino - a terceira taça da jornada - foi o português Parras Evidência, que, pela descrição do menu, também prometia acidez e elegância. Foi isso que ele entregou, além de um inesperado aroma de azeitonas que ganhou meu apreço.

Por último, com a embriaguez já bem instalada no meu córtex cerebral, optei pelo Bordeaux do Thunevin. Estava curioso para ver se um tinto ordinaire de uma safra icônica como 2009 seguraria bem os oito anos de garrafa. No entanto, decepção: o vinho acabou antes que a carta da Bottega del Vino - disponível para os clientes em um tablet - pudesse ser atualizada.

Sendo assim, minha escolha final recaiu sobre o Crianza da Finca Valdemar. Era um vinho mais complexo que os outros, com boa acidez, notas de frutas vermelhas frescas e um tostado superbem integrado. Pena que o meu bolso não comportava mais comida, pois o vinho pedia.

Findo o Valdemar, veio a conta: R$ 104,16, com serviço incluso. Estourei a meta por pouco. Como a nota de cem no meu bolso não seria suficiente para resolver a parada, fui obrigado a sacar meu combalido cartão de crédito para completar o pagamento. Nada grave.

Um embriagado Spuldar e sua nota de cem

Resumo da noite: em termos de taça, a Bottega del Vino não traz grandes surpresas para o bebedor de vinho mais dedicado. Ainda assim, ela oferece rótulos e preços variados entre regiões conhecidas, estilos amigáveis e uma ou outra alternativa fora do usual. Na faixa de R$ 100, sobram opções - seja para tomar uma ou duas taças e pedir um prato, seja para sentar na rua, olhar o movimento e deixar o vinho rolar.

A conta
01 taça de 150ml de Niel Joubert Chenin Blanc 2015 = R$ 28,00
01 taça de 90ml de Vignamato Rosso Piceno Marche DOP 2015 = R$ 13,00
01 taça de 90ml de Parras Evidência Tinto 2015 = R$ 14,00
01 taça de Valdemar Finca del Marquesado Crianza 2014 = R$ 22,00
01 coperto = R$ 16
SUBTOTAL = R$ 93
+ 12% de taxa de serviço = 11,16
TOTAL = R$ 104,16

O restaurante
Bottega del Vino
Rua Dias Ferreira, 78 — Leblon — Rio de Janeiro
Telefone: (21) 2512–6526
Site: http://www.bottegadelvino.com.br

Rafael Spuldar é jornalista e bebedor de vinhos. Reside no Rio de Janeiro.