O naturebismo entre a generalização e a ausência de espírito crítico
Por Rodrigo Krammes

A coluna de Alexandra Forbes na última revista São Paulo (para o inferno as caixas baixas e nome grudadinho) espantou momentaneamente minha preguiça de escrever sobre vinhos. Como ela trata de vinhos naturais, um tema que me interessa, vou alinhavar, não uma resposta, mas algumas considerações. Quem ainda não a leu pode fazê-lo aqui.
Resumindo: Forbes parte de uma experiência ruim (um Cacique Maravilla branco com aromas de piche e repolho) para imaginar uma patrulha de viés messiânico que já estaria pronta para defender o vinho das suas críticas alegando que é preciso ter um entendimento especial para julgar “naturebas”. Com alguns contra-argumentos, conclui que “as pessoas” esquecem o principal: “a maior virtude que um vinho pode ter é ser gostoso de beber”. Uma afirmação peremptória. Em certo momento, ela generaliza, sem ironia aparente, que “toda generalização é burra”, o que enfraquece um pouquinho seus argumentos.
Acho que, errando bastante, Forbes acaba raspando em uns temas que me incomodam na aldeia do vinho natural. Vou começar pelo que acho que está errado:
Em primeiro lugar, a argumentação em si. Todo o raciocínio da coluna se baseia na criação de um personagem: a “patrulha”. E o que pensam os “fãs de vinhos naturais” é pintado com tintas caricaturais: “quem tem poucas vinhas, ara a terra com burrico, colhe com as mãos e fermenta em ânforas é herói. Quem tem muitos alqueires, usa máquinas e adiciona sulfitos é mau”.
Ora, eu acho que dá para dizer com alguma certeza que eu e alguns amigos nos encaixamos na categoria de “fãs de vinhos naturais”, mas eu agradeceria muitíssimo se a colunista fizesse a gentileza de me incluir fora dessa visão infantil aí. Inclusive já tive a mesma experiência com o branquinho do Cacique Maravilla e não pretendo repeti-la (mentira, acabo repetindo, deve ser masoquismo). Acho que li em algum lugar que toda a generalização é burra.
Também avalio que, talvez por limitação de espaço, ela trata do assunto com ligeireza demais, o que acaba sendo mais ofensivo do que esclarecedor. A produção mais artesanal acaba sendo diminuída na figura do carinha do burrico. Acho que o tema é um pouco mais complicado e tem pelo menos duas dimensões: a de qualidade do produto (que me parece mais o interesse de Forbes) e outra, mais ética mesmo, apesar de a palavra parecer meio demasiada.
Do ponto de vista de qualidade, posso afirmar com absoluta certeza que os melhores vinhos que já tomei foram produzidos de maneira razoavelmente artesanal. Talvez sem o burrico e a ânfora (não sou um entusiasta dessa última, aliás), mas de propriedades relativamente pequenas, com equipe às vezes reduzida à própria família, colheita manual, etc. Óbvio que já bebi vinhos excelentes de megacorporações também (como qualquer Bordeaux de alta gama), mas, na maioria das vezes, a produção desses rótulos requer um investimento fabuloso para que se tenha um cuidado comparável ao dos bons produtores artesanais. É claro que a Concha y Toro é capaz de criar vinhos ótimos, mas o custo acompanha, né?
Acho que não estou sozinho nessa percepção. As próprias grandes marcas vêm, cada vez mais, se utilizando de um marketing de tom “artesanal” para vender algumas linhas de seus produtos. Deve ter mais gente que vê algo de bom nisso aí.
As corporações, inclusive, parecem ver com alguma preocupação essa produção. É só pensar no tapetão que infligiram ao Eduardo Zenker, e aí que eu acho que tem uma dimensão ética também. Com o auxílio de um perene anonimato, normalmente por meio do Ibravin, as grandes marcas nacionais agem como se eu, consumidor, fosse seu inimigo. Seus movimentos sempre querem diminuir o meu cardápio de opções, normalmente pela via do empecilho à importação. Só isso aí já é motivo para preferir os pequenos, na minha opinião.
E existe, obviamente, uma dimensão ética na produção orgânica/biodinâmica/natural. Pelo menos do ponto de vista do cultivo da terra, isso é óbvio. Nesse caso, acho que, se o consumidor tiver a prática sustentável como linha de corte, é muito difícil criticá-la, e não tem nada a ver com patrulha ou messianismo. Tem a ver com uma postura em relação ao meio ambiente ou à saúde.
Aliás, só de passagem: na minha experiência, muito mais impressionante que o “messianismo” dos naturebas é a reação enfurecida com que a ideia de vinhos orgânicos é recebida entre alguns conhecedores, muitas vezes titulares dessas instituições que ensinam a infelizes o que é bom e o que é ruim (nada a ver com Alexandra Forbes, nesse caso). O que já vi de caga-regra dizendo absurdos como “todo vinho orgânico é ruim” (Romanée-Conti, alguém?) supera largamente a quantidade de defesas entusiasmadas da naturebice. Como pode?
Agora, embora tenha me estendido demais sobre o que considero as fragilidades do pensamento da colunista, acho que ela arranha alguns alvos. Tem um trecho exemplar: “Perdi a conta de quantas vezes sommeliers me serviram, orgulhosos, vinhos naturais que pareciam iguais, embora viessem de países diferentes”. Eu também, Alexandra.
É claro que isso é verdade também em vinhos industriais, mas é que, no caso dos naturais, o problema me parece mais complicado.
A força que atrai muita gente aos naturais é o desejo (ilusão?) de que se beberá um líquido que, além de delicioso, reflita um determinado momento, um determinado lugar, uma determinada casta (ou combinação delas), tudo conduzido suavemente pela mão do homem. Ou seja, aquilo que a maioria das pessoas entende por terroir.
O problema é que muitas vezes, muitas mesmo, os vinhos naturais se filiam mais a uma nação natureba global do que a qualquer senso de lugar. Suas características comuns são tão marcantes que obliteram a uva, o local e a safra, preservando somente o “como foi feito”, que era exatamente o contrário do que se queria ao se intervir pouco na vinha e na adega. Como a própria Alexandra observa: aroma de sidra, pouco corpo e sabor ácido.
E aí chegamos aos exageros que, me parece, Alexandra Forbes identifica corretamente. Existe uma postura meio de seita difusa no ethos da turma, que dificulta que se fale claramente sobre esses assuntos e também cria a sua série de mitos.
Um desses mitos é o próprio Zenker, um cara de quem gosto e a quem admiro de verdade. Já tomei vinhos de fato incríveis dele, o Alma Penada e o Bruta Bestia, para ficar em dois exemplos, mas vários outros achei bem difíceis. Que seus vinhos possam ser excelentes ou se parecerem com água de bateria (nada contra, já aprendi muito tomando vinhos de que não gostei) é do jogo, afinal Zenker é antes de tudo um inquieto dedicado a todo tipo de experimentação. Só é lamentável que aqui e acolá eu acabe ouvindo, talvez no afã de encontrar AINDA MAIS coisas positivas a respeito dele, características que absolutamente não podem ser relacionadas ao que ele faz, como sua “incrível precisão” (sério, já ouvi isso aí). Ora, há algum problema em admitir que a precisão NÃO é parte das suas muitas qualidades?
O que parece existir, na prática, é um pudor desmesurado em fazer qualquer tipo de crítica a um produto, produtor ou membro que se filie à turma. Mesmo as mais amigáveis e cheias de boas intenções. Isso é, a meu ver, ruim. Não porque estejam tentando enganar alguém, mas porque isso dificulta o desenvolvimento do próprio meio.
Já pude testemunhar um produtor apresentando suas criações em uma degustação teste para pessoas próximas e não recebendo uma só crítica construtiva a respeito de seus vinhos, somente elogios (o pior é que o próprio produtor havia chamado atenção para um defeito, clássico e facilmente identificável, mas ninguém deu muita importância a isso). Tenho certeza que ele não saiu feliz de lá.
Em outra oportunidade, um grande amigo ganhou um grave silêncio coletivo como resposta ao susto manifestado com o preço de R$ 360 por um vinho que fora aberto com a normalidade de quem abre uma garrafa d’água. Se até reclamar do preço (uma verdadeira tradição para nós consumidores de vinho no Brasil) for tabu, logo mais só vou poder tomar os meus “naturebas” em silêncio.
E aí tem uma contradição específica da nação natureba brasileira. A volta a um vinho mais primordial representou, na Europa, uma reaproximação com uma relação mais direta com o seu consumo, mais alegre e com menos ostentação e regras. Daí proliferarem os vinhos “gluglus” e uma valorização de um modo mais paysan de se beber. Essa equação só fecha com preços acessíveis. Aqui, em São Paulo, isso é um problema. No ethos camponês dos habitantes da maior metrópole da América Latina, essa é uma obviedade que parece que não queremos encarar.
Rodrigo Krammes é jornalista e empresário. Tem nível 3 no WSET, mas prefere o diletantismo.
O tanino5 é um projeto diferente de conteúdo sobre vinho. Saiba mais.
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