Uma busca frustrada pelo vinho peruano

Por Gustavo Faraon

Voltei recentemente do Peru. Tinha uma expectativa enorme para, além de comer bem e conhecer um pouco do país, descobrir algo sobre a cena de vinhos locais.

As perspectivas eram as melhores. Afinal, a primeira vinificação feita na América do Sul se deu em Cusco, ainda no século XVI; Lima foi por longos anos a cidade mais importante da América imperial espanhola; e, além dos fatores históricos, o Peru ainda guarda grandes semelhanças climáticas e geográficas com seu vizinho Chile, o maior produtor de vinho do continente, e sua capital se transformou em um pólo gastronômico internacional, com alguns dos restaurantes e chefs mais respeitados do mundo. Não faltavam motivos, e parti com a certeza de encontrar muita, muita coisa interessante.

Eu não poderia estar mais enganado.

A primeira parada foi logo no Central, restaurante estrelado do chef do momento, Virgilio Martínez, que possui uma adega muitas vezes premiada. Além disso, o restaurante conta com os dois melhores sommeliers do Peru de acordo com uma competição realizada anualmente por uma rede local de supermercados, Joseph Ruiz e Diego Vásquez Luque, o que acreditei ser um bom presságio para o que estava por vir.

Adega do Central (foto: Gustavo Faraon)

Se o menu do Central é dedicado a explorar todas as nuances e ingredientes dos diversos sistemas ecológicos peruanos, o mesmo não pode ser dito dos vinhos escolhidos para a harmonização desses pratos. Das sete bebidas servidas, cinco eram vinhos, e destes apenas um era peruano. Para minha sorte, era o mais interessante que eu tomaria nas terras de Garcilaso de La Vega, Tupac Amaru e Teófilo Cubillas.

Quebrada de Ihuanco é provavelmente o único vinho no mundo feito a partir da uva Quebranta, usada para a produção do pisco. A mim foi servido um cálice da safra 2013. De cara, ele surpreende. Acastanhado, com aroma adocicado de um vinho de sobremesa, na boca ele envereda para um caminho insuspeitado. É super rústico, bem ácido, não tem nada de madeira, um corpo leve e um gosto que traz um amargor e um fundo de frutas maduras, mas sem grande persistência. É um vinho bem estranho, mas legal e provocativo, e foi bem com comida.

Fui descobrir depois que a vinificação natural é feita por José Moquillaza em San Juan de Ihuanco, na província de Cañete, nas bordas de Lima, um pouco mais ao norte da tradicional zona produtora de vinhos peruanos, o Vale de Ica. “Onde eu encontro outros vinhos como este?”, perguntei ao sommelier Diego Vásquez Luque. A resposta veio lacônica: “você não vai achar”.

Quebrada de Ihuanco, experimentado no Central (foto: Gustavo Faraon)

Mas então, o que eu ainda teria de interessante pra descobrir sobre os vinhos peruanos? O que ainda poderia provar? Luque pensou por um momento, e eu pude ver que ele estava surpreso com a minha insistência. Aquilo me desconcertou um pouco, porque na minha cabeça não fazia sentido que um monte de gente viajasse até ali para provar os ingredientes mais estranhos do Peru e ninguém manifestasse interesse pelos seus vinhos. A indicação extraída a muito custo foi o Tabernero Vittoria Syrah, que não provei por lá, mas do qual trouxe um exemplar na bagagem.

No dia seguinte, foi a vez de visitar o Astrid y Gastón, outro restaurante peruano bem badalado e metidão. Olhei a carta e vi três opções locais: Intipalka branco, Intipalka rosé, Intipalka tinto. Justamente o único vinho do país do qual já tinha ouvido falar, razoavelmente acessível no Brasil. Ainda não sabia, mas aquela cena se repetiria muitas vezes durante a viagem, e a onipresença do Intipalka — não raro a única opção local das cartas — ainda me incomodaria um tanto.

Enquanto seguia com o canto de olho o casal nórdico da mesa ao lado receber, em meio ao menu, duas taças do mesmo Quebrada de Ihuanco que eu tomara no dia anterior, resolvi acatar a recomendação do sommelier da casa e pedi o Intipalka Sauvignon Blanc 2017, do Valle de Ica. Um SB correto, super cítrico e ácido, que se encontra em absolutamente qualquer bodega, supermercado ou vendinha improvisada por 30 soles (aproximadamente 30 reais), mas que na casa de Gastón Acurio me saiu por dolorosos 127.

O que era estranhamento virou quase uma preocupação quando, naquela mesma noite, visitei uma loja especializada em vinhos no bairro de Barranco, em Lima. Nas prateleiras, um espaço ínfimo para a produção local, praticamente toda dedicada aos três grandes produtores: Intipalka, Tabernero e Tacama. Perguntei à proprietária sobre vinhos de Quebranta. Me disse que tal coisa não existia. “Quebranta é pra fazer pisco”.

Típica prateleira de vinhos peruanos (Foto: Gustavo faraon)

A julgar pelo que puder ver naquela loja — e que se replicaria em supermercados, pequenas vendinhas de bairro e em virtualmente todo lugar -, a produção peruana é direcionada às variedades de uvas de casca mais grossa, que parecem se ambientar melhor às características do Valle de Ica. Malbec, Tannat, Syrah e Petit Verdot, muitas vezes em corte, são as mais encontradas.

Destes, experimentei alguns vinhos que achei bem decepcionantes, como o Intipalka Syrah 2015, mas alguns outros me deixaram uma lembrança positiva, como o Tacama Selección Especial Petit Verdot Tannat 2013, que também acabou ganhando um lugarzinho na mala de volta.

Não raro, o que se vê em restaurantes é uma maior variedade de piscos (não só o tradicional, feito de Quebranta, mas experimentações com outras variedades) do que de vinhos. Mas tanto em Lima quando em Cusco, a onda mesmo são as cervejas artesanais locais, que vivem um momento de efervescência semelhante ao que ocorre no Brasil.

Já em Cusco, depois de um sem fim de tentativas frustradas para experimentar qualquer coisa diferente daquela verdadeira regência trina, resolvi tentar uma última cartada. Fui falar com a francesa Aude, proprietária de um bistrô no bairro de San Blás, sobre vinho. Na carta de seu próprio restaurante, para minha decepção, mais do mesmo. Quando questionei sobre os vinhos peruanos de pequenos produtores e outras coisas fora dos grandes industriais, ficou um pouco sem graça. Fez algumas comparações com o cenário francês e lamentou a pouca variedade. Perguntei o que ela achava, de verdade, dos vinhos peruanos que ela mesma oferecia. “Bebe-se”, ela disse.

Se não saí de lá com nenhuma grande revelação a respeito dos vinhos peruanos, consegui ao menos um endereço. Quase em frente ao mercado de Wanchaq, numa zona não exatamente turística, fica o distribuidor de bebidas que fornece vinhos e destilados para os principais restaurantes da cidade. Decidi dar uma chance à sorte e investir meus últimos minutos em solo cusquenho para visitá-los.

Ó a Quebranta aqui (Foto: Gustavo Faraon)

Naquela manhã de sábado, cheguei ao lugar antes que ele abrisse oficialmente. Ao me ver espiando pelas frestas da grade, uma das atendentes me deixou entrar pela porta lateral, com a loja ainda às escuras. Me dirigi à pequena seção de vinhos enquanto outra funcionária erguia a cortina de ferro, e com isso iluminava todo o espaço. Não fiquei surpreso ao ver ali somente umas poucas garrafas dos mesmos vinhos de sempre. Nem com uma vitrine repleta de bebidas tomando banho de sol. Nem quando a atendente me disse que não existiam vinhos de Quebranta. Quebranta era pra fazer pisco.