Entrevista com o Lobisomem

Um título alternativo para este texto: “entrevista com o canibal”. Pois trata-se do meu encontro com Sir Anthony Hopkins. Ele mesmo.

Foi em Los Angeles, na ocasião do lançamento de “O Lobisomem”, em 2010. Alguns dias antes da junket, a maratona de entrevistas sobre um filme que está entrando em cartaz, os assessores de imprensa nos avisam quem, entre elenco e da equipe técnica,vai participar. Sir Anthony Hopkins estava escalado para a junket de “O Lobisomem”, mas por uma questão de tempo ele não conversaria com todos os jornalistas. Eu estava nesse grupo, o dos “dispensados” de entrevistar o astro. Ufa!

Explico. Sinceramente, tem gente que me deixa intimidada. Sir Anthony Hopkins era um deles. Afinal, é uma lenda ambulante do cinema… Como se comportaria diante de uma mera repórter de um país longíquo?

Em geral minha impressão é de quanto maior a grandeza, mais bacanas os atores são com a imprensa. Seja por saberem que precisam da nossa divulgação ou por que gostam de falar do ofício, Tom Cruise, Angelina Jolie, Matt Damon — para citar alguns — sempre renderam belas entrevistas. São simpáticos, generosos, gostam de conversar sobre o que dizem amar fazer. Enquanto isso, tem muita estrela em começo de carreira que é blasé demais, que só dá respostas monossilábicas…Por isso para tirar “a febre” e tentar prever o grau de animação de um entrevistado pesquiso artigos antigos, entrevistas em programas de TV. Faço meu tema de casa. Sempre funciona.

Enfim, fui bem animada entrevistar “só” o Benício Del Toro (o mocinho do filme), Emily Blunt (a mocinha) e, como estava fechando um especial sobre tecnologia no cinema, o supervisor de efeitos especiais Rick Baker, o mago que transformou Michael Jackson em um lobisomem no clássico vídeo “Thriller”.

Qual minha surpresa quando chego ao hotel (no coração de Beverly Hills) e descubro que iria, sim,entrevistar Anthony Hopkins. Minha primeira reação, estupidamente: “Não… Eu não preciso conversar com ele”. É, eu realmente disse isso.

Assim como eu, muitos dos jornalistas que estavam ali souberam nos 45 do segundo tempo que ficariam tête-à-tête com o canibal. E, como eu, muitos se sentiam como se estivessem prestes a virar o próximo banquete de Hannibal Lecter. E eu não havia pesquisado nadinha sobre o ator!

Passo uma mensagem pra Maia, minha irmã, no Brasil. “Apavorada. Hannibal vai comer meu cérebro.” (Foi o que ele fez com Ray Liotta em algum episódio da saga.) “Não te preocupa, ele não vai encontrar nada dentro da tua cabeça”, ela responde. Muy animador.

Vamos lá. Tento me concentrar nos olhos radiantes de Benicio del Toro — elogio “Che”, que havia visto algumas semanas antes, e por isso ganho um high five. Bato um papo encantador com o entusiasmado Rick Baker, com seus longos cabelos grisalhos, um visual detalhadamente despreocupado e hippie como só os gênios conseguem montar. Alguma hora mais tarde atravesso o corredor na direção do quarto transformado em mini-estúdio de TV onde Hopkins recebe a peregrinação de jornalistas.

Li num livro do jornalista norte-americano Larry King, que foi âncora da CNN, que a melhor maneira de quebrar o gelo é admitir que você está com medo. Funciona. Sempre começo meus papos com plateias como estudantes de jornalismo assim: “Vamos combinar que estou um pouco ansiosa de estar aqui, como vocês podem perceber”. O medinho se dissipa na hora! Quer a prova?

Pois depois de um gentil “Boa tarde, é um prazer conhecê-lo” vou logo avisando para Sir Anthony Hopkins que me sinto como num carrinho de montanha-russa antes da queda livre.

Eu: O senhor tem idéia do temor que provoca nos jornalistas que estão ali fora?

Ele: Acho que sim…

Talvez um pouco constrangido pela própria grandeza Sir Anthony Hopkins ri, simpático. E para me tranquilizar, me conta o que parecia uma anedota.

“Fomos jantar com um grupo de amigos novos da minha esposa que ela dizia serem muito animados. Durante toda a noite eles mal falaram, não tinham nada da graça que eu esperava. Minha esposa justificou: Como você queria que eles reagissem à sua presença? Você é Sir Anthony Hopkins!”

Para constar: depois de quebrado o gelo, a conversa foi bem prazerosa.

E, sim, sobrevivi para contar.

(Esse e outros relatos de bastidores de reportagens estão em “A Velhinha que Entrevistou George Clooney”, da Editora Catarse.)

Sir Anthony Hopkins por Gabriel Renner