O CAIR DA NOITE

Tradução de um texto de Anne Boyer publicado no volume XII, n. 1, da revista Lapham Quarterly.

Talvez o dia se torne noite quando os letreiros da cidade acendem. O que durante o dia eram palavras completas, como LINWOOD SUPER FOODS, se tornam, com a iluminação, meras e desprovidas OD FO. Em cima das janelas do ALGREENS estão DR E RU, CHINA MARKET vira apenas CHINA, FLACOS AUTO vira FLAC TO. O anoitecer nesta cidade — o tipo de cidade onde os negócios não tem dinheiro para consertar seus letreiros, não se importam com isso ou apenas ainda não o fizeram — pode ser definido como “o momento em que algumas das letras das nossas palavras desaparecem”. Algumas palavras, no entanto, permanecem claras e com todas as letras na semi-escuridão fresca. TENSION ENVELOPES, por exemplo, nunca queima.

Talvez a noite comece quando o cinza-verde do entardecer encontra os sensores dentro dos painéis dos carros. Sensores de luz não têm sutileza. Toda ausência de brilho para eles é, como Mary Shelley uma vez descreveu um eclipse, “noite, de repente, sem raios, inteira”. Os faróis ligam sem aviso, encontram uns aos outros nas ruas, ainda meio desnecessários exceto para anunciar a provável chegada da noite. Carros formam filas nos agora iluminados letreiros dos drive-throughs. Funcionários dos restaurantes de fast-food — mulheres idosas, adolescentes, mães de crianças pequenas, pessoas recém-saídas da prisão — estão no fim de seus turnos da tarde ou no início de seus turnos da noite. Eles ficam de pé nas janelas agressivamente iluminadas e curvam-se na direção do entardecer para entregar tacos ou batatas médias.

As vozes desses trabalhadores quase chegam às calçadas enquanto a escuridão cai. O ar esfria, e os motoristas abrem as janelas para que as músicas sendo escutadas possam flutuar atrás deles como os rastros de um perfume caro. Nos cruzamentos, há uma competição, música contra música, ou às vezes, se estão todos ouvindo a mesma estação, música em uníssono com olhares satisfeitos de um carro para o outro. O ronco das motocicletas é mais orgulhoso à noite. Talvez a noite comece quando o som se torna mais vívido do que a visão.

Winter Scene in Moonlight, de Henry Farrer, 1869.

Helicópteros — polícia, ambulância, jornais locais — circulam mais sobre nossas cabeças, fazem mais barulho, tornam-se mais arrogantes, ameaçadores e altos. Eles, junto com todas as sirenes, alertam o resto da cidade que, apesar das aparentes permissões da chegada da noite, o aparato social continua intacto e vigilante. Helicópteros estão para a noite assim como cortadores de grama e sopradores de folhas estão para as manhãs de domingo. Existem para arruinar tudo que é livre.

Doutor”, diz Nora Flood, a protagonista de No Bosque da Noite, de Djuna Barnes, “vim até aqui para que você me diga tudo que sabe sobre a noite”. Nesse romance, a noite atinge seu irrefutável auge. Não há dúvida de que a noite é noite quando são três da manhã na Paris de 1920: “As noites francesas são procuradas por todas as nações ao redor do mundo”. Paris na hora sombria é o apogeu da noite, não é como o entardecer numa cidade bruta do meio-oeste americano. Os Estados Unidos são um lugar onde, diz o doutor, “a noite é uma pele puxada sobre o cabeça do dia”. Nora está tensa, traída pela mulher que ama. O doutor, Matthew O’Connor, tem dormido completamente maquiado e com uma longa camisola, uma expressão apropriada, Nora acha, da sua natureza religiosa e também do “grave dilema de sua alquimia”. O doutor então pergunta a Nora, com alguma ironia, se ela já pensou sobre a noite. “Pensar sobre algo que você desconhece totalmente”, diz ela, “não adianta nada”.

O fato de Nora dizer que não sabe nada sobre a noite é apropriado à noite. Os mistérios da noite são definitivos. Certezas são o que acontece quando o sol nasce. Saber o que a noite significa é saber o que descarta ser conhecido para dar preferência ao que pode ser vagamente lembrado. Giacomo Leopardi, o prolífico poeta italiano, em seu Zibaldone, diz que é o mistério que dá à noite sua natureza poética. “Notte”, ele escreve sobre a palavra noite, “confunde os objetos para que a mente só consiga conceber uma imagem vaga, indistinta, incompleta, tanto da noite como de qualquer coisa que ela contenha”. Conhecer a noite é muito parecido com conhecer a poesia, e conhecer a poesia requer o que Keats chamou de “capacidade negativa”, a capacidade de “estar em incertezas, mistérios, dúvidas, sem qualquer vontade irritante de ir atrás de fatos e razões”. Conhecer a noite é ter a clareza de que algumas coisas estão e devem estar e sempre estarão escondidas, porque a noite tem estado, ou é, ou deveria ser, a hora dos amantes, dos revolucionários e de outros conspiradores. O mundo da noite é aquilo que deveria ser, ou uma vez sempre foi, velado.

Faz sentido, então, a noite ser uma pré-condição para as bruxas. A primeira acusação contra qualquer bruxa suspeita é quase sempre que ela sai à noite. Na Itália do século 16, as bruxas boas — as benandanti — juntavam-se toda quinta-feira para batalhas à meia-noite contra as bruxas más, armadas, de acordo com o historiador Carlo Ginzburg, apenas com ramos de funcho. Outras bruxas apenas passeavam, procurando na fantasmagoria da noite boatos ou alguma pequena confusão. As bruxas eram as flaneurs do céu noturno. Como Silvia Federici ilustra em O Calibã e a Bruxa, a regulação da noite e a caça às bruxas e às trabalhadoras sexuais — as outras mulheres culpadas por andarem à noite — foram todas parte da mesma operação histórica que tentou domar os corpos do proletariado ao estender seus dias na direção da noite. “Mágica”, escreve Federici, “parecia uma forma de se recusar a trabalhar”. Para que o capitalismo industrial pudesse tomar forma, a noite — e as liberdades que os pobres e os oprimidos encontravam nela — tinha que ser conquistada primeiro.

A noite já foi uma entidade óbvia e autocontida, mas as lutas no limite da noite e do dia tem acontecido por séculos por causa dessas incursões. O trabalho em turnos foi uma maneira de usurpar a regra do sol. Uma das coisas que o Dr O’Connor de No Bosque da Noite sabe é que “as noites de um período não são as noites de outro período. Nem as noites de uma cidade são as noites de outra cidade”. A noite nunca é uma experiência geral ou universal. As noites da minha cidade e da minha época não são como as suas.

Karl Marx, que escreveu um livro obcecado pela noite (O Capital, volume um), menciona brevemente um juiz inglês que precisa deliberar sobre uma definição de noite com “sagacidade talmúdica”. Tentando impor uma lei trabalhista que nominalmente proíba trabalhos noturnos para crianças, o juiz dá de cara com o problema de que a definição legislativa de noite difere do que todos acreditam ser a noite. Em Judgment of Mr. J.H. Otway, Belfast. Hilary Sessions, County Antrim, 1860, a decisão do juiz é contorcionista. Não é difícil perceber porque Marx achou aquilo engraçado. O juiz John Hastings Otway começa dizendo que a noite pode ser definida, em seu sentido etimológico, como uma palavra com “derivação germânica, que significa o período marcado pelo declínio do sol atrás do horizonte, distinguindo-se do dia, e, opondo-se a ele, é o período da escuridão, ou para alguns propósitos, do entardecer”. Otway continua citando John Milton, que alegadamente cita Deus: “Luz o dia, e escuridão a noite”.

O tom da decisão de Otway é quase pudico, mas o sentido está ali. A mesma legislação que declarava proteger a noite era uma contribuinte legal para sua ruína. O capitalismo industrial e suas novas leis estenderam o dia — através de sua versão enxertada chamada “jornada de trabalho” — para além da escuridão e para dentro dela, das 5:30 às 21:30, uma extensão que anteriormente constituía o dia (se o dia significa “luz”) apenas no auge do verão. O direito comum, mencionado por Otway em seguida, não deu as costas às leis da natureza ou da poesia quando se tratava da noite. O entendimento de noite no direito comum, que a relaciona com crimes como roubo, também se refere a uma condição de luz, não à posição dos ponteiros do relógio.

Midnight at the Bowery Mission Bread Line, por Lewis Hine, 1906.

Marx detestava como a jornada de trabalho violava o que uma vez foi a noite. Ele escreveu que os capitalistas fariam de tudo para que os proletários trabalhassem todas as horas possíveis, que “o prolongamento da jornada de trabalho para além dos limites do dia natural até a noite só funciona como paliativo, saciando apenas brevemente a sede vampiresca pelo sangue dos trabalhadores”.

Se esses vampiros pudessem inventar horas extras no dia, eles tentariam, sempre buscando condensar a produtividade e ampliar as intrusões noturnas, do mesmo jeito que hoje as pessoas se sentem obrigadas a responder seus emails de trabalho a uma da manhã. Quando eles tentam nos dizer que a noite é dia, escreve Marx, “o capital celebra suas orgias”.

A noite e o dia já foram uma fonte universal de contraste. É claro como a noite e o dia. A noite, também, é uma das nossas fontes primárias de toda analogia, tão fundamental para compararmos e organizarmos nossas percepções do mundo que a noite está para o dia assim como o dia e a noite estão um para o outro. A própria rotação da Terra nos dá um primeiro e incontestável exemplo de como distinguir uma coisa da outra. Logo, a intromissão da jornada de trabalho na noite foi uma afronta não só contra a “natureza”, Deus, Milton e os trabalhadores: também foi uma afronta ao senso comum. Já que essas são as duas coisas mais distintas do mundo, ninguém pode nos dizer que a noite é o dia; no entanto, eles disseram.

Não é só o relógio e o capital que tentam nos dizer que o mundo virou de cabeça pra baixo. A luz elétrica também, apesar de nunca criar uma forma convincente de luz do dia: as glândulas pineais são os detectores de mentira do corpo que se recusam a acreditar que as lâmpadas fluorescentes de um Walmart são o sol. Pessoas que trabalham à noite ficam mais doentes, mais depressivas, morrem mais cedo e mais estressadas. A revolução industrial, no entanto, não foi o começo do trabalho noturno. Empregadas, mães, os que cuidam dos doentes e enfermos sempre tiveram seu sono interrompido pela chamada de outros. Alguns ofícios, como assar pães ou recolher o lixo das ruas, são realizados majoritariamente à noite ou nas últimas horas dela. O capitalismo não poderia inventar o trabalho noturno, mas inventou o insulto que é tentar nos dizer que a noite não é a noite.

O dia não cai: a noite, sim. A luz é escorregadia e fluida, a escuridão é pesada e pode ficar ainda mais pesada. Tudo que sabemos sobre a noite inspira classificações mas desafia a dissecação, porque a noite, apesar da sua densidade, não carrega nenhum corpo. A noite não tem anatomia, só inventário. A noite contém. Talvez o maior de todos os criadores de listas, Walt Whitman, escreveu um poema, “The Sleepers” [Os Adormecidos], sobre os conteúdos da noite. Em 1856, ele o chamou de “Night Poem” [Poema da Noite], depois o chamou de “Sleep-Chasings” [Procurando o Sono], sem chegar a um título definitivo até 1871. Neste poema, o sono é uma democracia compartilhada pelas categorias sociais, seus detalhes acrescidos pelo poeta-flaneur que rasteja por ele, observando pessoas adormecidas nas camas:

The consumptive, the erysipalite, the idiot,
he that is wrong’d,
The antipodes, and every one between
this and them in the dark,
I swear they are averaged now — one is no
better than the other.

O sono redime a espécie — todos, ele diz, são “bonitos” agora. No sono, o prisioneiro é libertado da prisão, o escravo é livre, os doentes são curados. O mundo inteiro dá as mãos. O sono é a utopia da noite, mas o poema não comenta sobre o que acontece quando o sono não vem.

“O sono”, como diz o Dr. O’Connor em O Bosque da Noite, “nos demanda uma imunidade culpada”. Os crimes dos sonhos não podem ser criminais, e o que não vemos quando dormimos é o que nunca poderemos ser culpados por. A noite dos insones acontece em lugares escondidos, nas prisões brutalmente iluminadas, nos corredores de aviões cheios de estranhos que se reviram intima e inquietamente próximos, nas casas de repouso. A noite dura mais para os institucionalizados. Os hospitais são hostis ao sono: ar gelado cheio de bipes, corredores fluorescentes, telas que brilham, potenciais emergências pairando em cima de potenciais sonhadores, nascimentos e mortes e o sofrimento que acontece no ínterim. Enfermeiras e outros profissionais circulam no falso meio-dia das corredores hospitalares à meia-noite, falam baixinho quando entram nos quartos, despertando os que dormem mesmo assim. A noite da cidade entra na noite do hospital pela porta das UTIs onde pais abraçam seus filhos e outras pessoas abraçam seus membros machucados e suas cabeças pesadas, também esperando pela sua vez.

fora, a noite continua caindo. Nas casas e apartamentos, cortinas são fechadas e persianas plásticas horizontais são abaixadas por cordões brancos. Crianças, depois do jantar, são colocada na cama ou na frente das telas por mães exaustas que vão para a cama ou para a frente das telas. Cachorros param de latir. Trabalhadores fecham sua lojas ou fazem o balanço dos caixas. Foliões dão seus primeiros passos tímidos na direção da folia.

Soldado americano através de lentes de visão noturna, Província de Khost, Afeganistão, 2005. Fotografia de Moises Saman.

Pessoas param nas esquinas esperando por ônibus que agora são mais infrequentes. Os que esperam balançam as pernas ou baixam as cabeças, cansados ou impacientes ou ambos, querendo seguir seus rumos. Certa vez, alguém deixou uma cadeira de balanço em uma parada de ônibus lotada. Ela ficou lá por uma semana: arte feroz. Nesta cidade, até agora, 155 pessoas foram assassinadas, algumas levaram tiros no meio da rua, pelo menos um numa parada de ônibus, esperando no escuro quando os atiradores se inclinaram para fora do carro que passava no meio da noite. Quatorze dos assassinados foram mortos pela polícia. As placas de vidro que guardam os itinerários dos ônibus também foram perfuradas por balas. As coisas são consertadas em câmera lenta aqui, então as pessoas precisam esperar pelos ônibus perto de buracos de bala, presas nas lascas de tempo livre reservadas aos pobres. Para os sem-carro em uma cidade espalhada, a noite começa quando fica difícil se locomover. Dentro dos ônibus, beberrões itinerantes já começaram suas festas, semibeligerantes e amontoados ao fundo. Na frente, uma mãe de olhos cansados segura seu bebê de olhos cansados, um tentando não dormir, outro tentando não ficar acordado. “A própria constituição do entardecer”, diz o Dr. O’Connor, “é uma fabulosa reconstrução do medo”.

Os grilos nos estacionamentos começam a cantar como se nunca tivessem ouvido nada parecido antes. Esta cidade à noite é sempre como um plano de fundo de um filme noir que ninguém nunca pensa em filmar. Então um senhor pálido, de pantufas e roupão, pedala lentamente pela calçada na frente da loja de bebidas, segurando sacola plástica com uma carinha feliz. TENHA, se lia na sacola quando havia luz o suficiente para isso, UM BOM DIA. O primeiro tiro da noite ecoa, negligente e longe demais. Um homem com um colete refletivo dança no meio-fio balançando um pedaço de papelão TRABALHO POR COMIDA. É lua nova, então a Terra está no seu mais escuro. Só se vê duas ou três estrelas no céu.