Vira lata

O amor é coisa rara

Não encontrei na conveniência…

O trouxe pra perto

a base de inconvenientes.

Brigas, lutas, loucura, doença

Busquei longe o que quer

que os trouxesse…

Afinal de contas que conta é essa

que tem custado libra de carne?

O que queres de mim?

Revirei muito lixo.

Joguei tanta coisa fora.

Lotei! Esvaziei…

Joguei tanto de mim

Levei tanto de ti.

Virei-me do avesso

atrás da tal chave

que me tirasse desse lugar

Cão sarnento a implorar caminho.

Gemi sozinha no cio

por noites assombradas

Estou cansada

Fadigada

Sufocada

Estou sempre atrás

de algo que não está

nem no fundo, nem na frente…

Está aqui, está em mim.

As portas estão fechadas

Não tem como entrar

Procuro obcecada pela chave

Estou presa por dentro

Sobrevivente a função…

Convoco outros a revirar

Lixo! Mais e mais lixo.

Cena deprimente…

Alguém assopra meu ouvido

diz que a chave está no carro

Mas onde?

Como poderia me trancar sem chave?

Não está trancado, nunca esteve

Se puxar a maçaneta a porta abre

Se quiser puxar ela abre…

A chave está onde sempre esteve

pronta para dar partida

pronta pra girar e seguir em frente.

Então porque não vou embora?

Não sei se consigo.

Se eu deixar de virar lata

Vou virar o quê?

Marcela Dornelas

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