O fórceps do armário

“ Fórceps: cir obst. instrumento cirúrgico de dois ramos articulados, para apreensão, compressão ou tração, esp. o que é empr. para a extração de fetos do útero; fórcipe, tenaz, pinça.

Outro dia, em uma conversa com alguns amigos LGBTs, estávamos falando sobre relacionamentos. E a partir de agora vou chamar cada um por letrinhas para ficar menos complicado de explicar, preservando cada um e suas identidades.

Pessoa X: “Sonho um dia ter um relacionamento e ninguém precisar esconder nada.”
Pessoa Y: “RT. Porém difícil.”
Pessoa Z: “RT, porém difícil. Pelo menos tô com alguém que entende isso (a dificuldade), e me apoia. Torna tudo menos doloroso.”
Pessoa Y: “RT também.”
Pessoa X: “Não seria um motivo pelo qual eu deixaria alguém, mas não dá pra negar que é frustrante às vezes (…).”

A pessoa X é bissexual assumida pra família e pros amigos. Enquanto que a pessoa com quem essa pessoa X estava não era totalmente (apenas aos amigos).

E aqui é a parte em que vamos usar o conceito de fórceps, instrumento cirúrgico utilizado pra retirar fetos à força do útero. Sempre que vejo alguém choramingando porque o/a namorado/a não se assumiu ainda e acha isso terrível pra si — principalmente porque não pode publicar o seu “amor” em 3937423 redes sociais — , me dá ânsia de vômito e penso nesse instrumento. Porque é assim que as coisas se mostram: alguém que não teve as mesmas dificuldades de sair do armário forçando outra a sair, porque precisa fazer a “representatividade” do seu amor.

Não estou falando das pessoas que são LGBTs, mas não saem do armário pros amigos porque têm vergonha de com quem está namorando, porque isso é execrável. Todos merecem dar amor e ser amados, e mostrar isso.

Mas dos oprimidos — sim, pois não basta sair do armário pra própria família, tem toda uma construção social que dita que todos sejamos héteros — que forçam seus relacionamentos a saírem do armário a qualquer custo porque precisam se mostrar e representar o seu amorzinho.

Não utilizem a palavra representatividade em vão. Ela acontece e vai acontecer quando LGBTs resistem à heteronormatividade, ao patriarcado e ao machismo, e ambos concordam em fazer isso sem qualquer pressão do outro. Ao forçar alguém a sair do armário, sem pensar nas consequências pra vida daquela pessoa, você NÃO está fazendo um favor. Aliás, é um desfavor mesmo.

Imaginem quantas pessoas LGBTs são ameaçadas em suas próprias casas a serem héteros e vem um mozi e força você a se mostrar. Só porque ele quer. Só porque ele já saiu do armário e foda-se, você tem que sair também, porque é libertador, ele diz.

Libertador pra quem?

Pra você que vai poder se promover em mais um lugar, ou pro teu amor que mal tem como se sustentar — tá fazendo a faculdade, estágio que paga 300 reais e esperando ser independente — e que provavelmente vai pra rua ao dizer “sou gay”, unicamente porque você quer?

Que ninguém se engane: forçar alguém a sair do armário não acontece unicamente quando falas pra outra pessoa sair também. É forçar um beijo na rua, quando aquela pessoa está desconfortável. É chorar depois de ter ido a um restaurante com a namorada, porque tá achando “um saco” não poder se beijar entre uma garfada ou outra. É fazer o famoso terrorismo psicológico pra pessoa se mostrar LGBT até pro cachorro da vizinha AGORA MESMO NOW IMEDIATAMENTE, ignorando qualquer consequência.

Nenhum LGBT deveria se esconder, nem seu amor e afetos... A gente sabe. Mas tudo ao seu tempo. Assim como já vemos a representatividade de casais que possuem apoio de verdade para mostrar seu amor e resistir, temos aqueles que ainda aguardam a oportunidade certa para fazer isso. Não é pecado. Não obrigue ninguém, se não vê as dificuldades daquela pessoa. Não seja mais um terror psicológico na vida daquela pessoa, que já é atormentada por uma sociedade inteira e ainda precisa escutar isso de quem ama.

Todos nós merecemos um amor. E pronto.

E vamos resistir e existir.