A depressão é sorrateira
Esses dias em meio a uma conversa casual, percebi como a depressão e a ansiedade são sorrateiras. Elas chegam de mansinho e vão tomando conta de tudo, segundo por segundo do seu dia, minando cada pedacinho da sua criatividade e motivação.

O caso é que eu era (sou) uma pessoa muito, muito mesmo, criativa. Eu tenho boas ideias. Eu consigo pegar um feijãozinho e transformar num pé de feijão em poucos minutos, porque minha mente, minha imaginação, funciona muito rápido. Eu sempre fui assim. Eu nunca me contentei com coisas simples, vai ver por isso eu nunca facilitei a vida para mim mesma. Eu sou do exagero. Do espalhafatoso. Do mirabolante. E ao mesmo tempo, daquilo que funciona, que entretém, que faz as pessoas felizes.
Eu sempre tive obsessões de todos os tamanhos, desde Harry Potter até vídeos de decoração de bolo no YouTube. Quando eu gosto de alguma coisa, eu gosto pra valer. Eu perco horas lendo sobre, assistindo vídeos relacionados, pesquisando coisas semelhantes que geram outras obsessões. São obsessões saudáveis, entendem? Obsessões que me movem. Coisas que me ajudam a controlar a ansiedade. Coisas que me fazem ver que o mundo ainda pode ser bonito.
Por causa disso, em 2007 embarquei num projeto que me trazia uma alegria imensa, porque me divertia. Me divertindo com meus amigos, começamos a divertir outras pessoas, que nos admiravam e queriam fazer parte do que tínhamos criado. A coisa foi crescendo, as ideias também, e eu tinha motivação para cuidar disso, das mil redes sociais geradas por isso e ainda tinha tempo para ter boas notas na escola. Eu dava conta de tudo. Eu amava dar conta de tudo.
Mesmo com tanta coisa acontecendo, tantos projetos, minha vontade de saber mais sobre as coisas que eu gosto me levou a um fórum de discussão sobre Harry Potter.
(eu sei que eu falo muito sobre Harry Potter, mas é impossível olhar para o passado e não ver o Harry em cada pedacinho dele, porque por muito tempo o golden trio eram meus únicos amigos e Hogwarts era o único lugar que eu tinha para fugir da minha vida)
No primeiro deles, não interagia, tinha medo. Era muito criança, e via todos aqueles adolescentes com tanta admiração que tinha medo. Isso passou quando a adolescente era eu. No segundo fórum, logo comecei a interagir com as pessoas e realmente fazer parte daquilo. O ponto aqui é que eu também produzi muita coisa graças a esse fórum. Lá minhas ideias mirabolantes não eram tão mirabolantes assim, e as pessoas acreditavam que eu tinha capacidade. É incrível o que fazer parte de um fandom pode fazer por você. É mais incrível ainda o quanto pessoas com as motivações certas são capazes de produzir juntas.
E aí vem a parte em que entra a depressão. Eu sei que eu fiz muita coisa. Eu não lembro nem de metade. Se vierem me falar de algum projeto específico, eu vou ter que me esforçar muito para lembrar o que era, por quê eu fiz aquilo, como foi concluído. E sabe o pior? As pessoas admiravam certos feitos, certos projetos. E. eu. não. lembro.
O fato é que calhou de eu me afundar numa depressão profunda justamente no ano em que eu estava produzindo bastante conteúdo. As pressões para escolher uma faculdade — que precisava ser séria, nada de artes e coisas que não dão dinheiro — , os acontecimentos do dia-a-dia, a falta de dinheiro, de trabalho, de compreensão. Optei por algo que gosto bastante, que realmente conversa com certas ambições minhas, que foi o jornalismo.
Mas ao longo dos quatro anos e meio que eu demorei pra concluir esse curso, me perguntei diariamente se era aquilo mesmo que eu queria. Se submeter meu talento, minha escrita, minha criatividade a um veículo com interesses próprios era o que eu sonhava em fazer. A resposta é não. Eu tive um pouco do gosto do que é ter suas ideias minadas, consideradas “difíceis demais”, mirabolantes demais, dentro do próprio ambiente acadêmico. Eu fui murchando. Fui deixando aquela Stephanie motivada, investida, no passado, e virando só Deus sabe o quê.
Eu adoro o tema do meu TCC, mas o que eu fiz não é 1/10 do que eu queria ter feito. E não, não é só ir e fazer e acontecer. Pensa numa febre. Uma febre de 40 graus, daquelas que te dá calafrio. Aquelas febres que vem junto com dor de garganta, que te fazem querer ficar o dia inteiro na cama. Você não quer comer, porque comer dói. Você não quer acender a luz, porque a luz dói. Você não quer existir, porque existir dói. A depressão é uma febre que não passa com uma injeção de benzetacil. A faculdade me deixou muito doente fisicamente, imunidade baixa por noites mal dormidas e alimentação deplorável, mas a pior coisa que aconteceu enquanto eu fiz faculdade foi ter me afundado numa depressão impossibilitante. E olha que ainda assim eu me forçava muito a fazer as coisas, ein?
Não digo que não gostei da faculdade, que odiei meu curso. Na verdade, eu acredito que o curso que eu escolhi vai me abrir muitas portas pra muitos projetos pessoais que eu guardei numa gaveta escondida na memória. Lá dentro conheci pessoas incríveis e maravilhosas, tive contato com profissionais incríveis. Alguns dos professores eu guardei no coração, por todo o apoio e toda a empatia que tiveram comigo nos meus piores momentos. O que me adoeceu foi o ambiente, as exigências absurdas, as 15 matérias por semestre que cursei, os trabalhos em grupo que eu fiz em duas pessoas ou sozinha, a sensação de que nada que eu fizesse era bom o suficiente.
Sabe o que é mais irônico nisso tudo? Quando eu cursava, minhas notas nunca eram boas para mim. Ainda que seja muito óbvio no meu histórico o momento em que eu tive uma recaída grande de depressão, hoje eu olho minhas notas e me orgulho tanto por ter dado conta de tudo com notas altas. Eu peguei DP sim, e não me envergonho nem por um segundo disso. Para quem tinha um caminhão de sentimentos negativos, cursar 15 matérias por semestre pegando só uma DP é motivo de orgulho SIM.
Hoje, quatro anos e meio mais velha, eu olho para o canudo da minha colação, para meu certificado, para o meu anel de formatura e me pergunto: e agora? Será que agora a Stephanie das ideias brilhantes, do comprometimento enorme, dos planos mirabolantes renasce?
No final do ano eu vou embora de São Paulo. Vou deixar a terra da garoa, a selva de pedra. Em vez de medo, eu sinto alívio. É uma chance de começar de novo. Como diria a Lela, fechar um ciclo e abrir outro. Quem sabe com isso eu libero aquela Stephanie que eu enjaulei para me encaixar no padrão de pessoas que sequer se importam o suficiente comigo para estarem presentes em momentos importantes?
Quem sabe liberando essa Stephanie, eu ganho uma nova chance para ser feliz. Quem sabe assim toda a tristeza e sentimentos incapacitantes caem num sono eterno e deixam espaço para que eu seja, finalmente, completa?
(Deixa eu mostrar pra vocês uma música que me dá a sensação de recomeço)