21 de fevereiro de 2016.

Ufa, sobrevivemos. Nem acredito que já passou um ano da madrugada mais feliz das nossas vidas. Na última semana de fevereiro de 2016, eu já estava cansada, pedindo muito para que você quisesse nascer. O calor era como esse de agora, e a barriga parecia pesar toneladas. Eu estava ansiosa, queria te conhecer, te tocar, saber se estava tudo bem (e checar se você era bonita hahaha).

Depois de dias de casa cheia, seu pai e eu tivemos uma noite e um dia só para nós dois. Conversamos, ficamos juntos, curtimos como se soubéssemos — e não sabíamos — que aquela seria a nossa última madrugada a dois por um bom tempo. Acordei no dia 20 bem cedo com uma contração mais forte. Opa. Saiu um pouco de tampão. Não era nada ainda, mas me animei. O dia foi correndo devagar, sem grandes acontecimentos. Depois do almoço, cochilei no colo do seu pai. Opa. Outra contração mais forte. Levantei de sobressalto e quebrei a garrafa de cerveja que ele estava tomando. Resolvemos descer no para passear com a Teka — andar, dizem, é bom. Quando voltamos, as contrações já estavam vindo de 15 em 15 minutos. Nossa doula chegou uns 40 minutos depois para deixar a bola de pilates. Conversamos, rimos. Ela nem sabia se ia ficar ainda, mas eu estava animada, sentia que você estava vindo. Melhor ela ficar. 8 em 8 minutos. Logo fomos para 5 em 5.

Vem a nossa parteira. Descobri que ainda tínhamos um longo espaço a percorrer: só 2 cm de dilatação. Respira fundo. Segue. Rapidamente, as coisas foram começando a engrenar. E eu, que estava segura, fui me cansando. Você estava tão baixa que eu só conseguia ficar em pé, e minhas pernas doíam. Tentava deitar, sentar, ficar na bola, de quatro. Nada. Só o chuveiro e o peito do seu pai me davam um pequeno alívio. Pedi o hospital. Mas ainda era cedo e não fui atendida. Além disso, não era mais eu quem estava falando — e tinha avisado que não era pra ouvirem meu desespero tomando minha voz.

As horas foram passando, e seu pai, nossa doula e nossa parteira me convencendo a ir só mais uma vez para o chuveiro. Vamos ver a dilatação? 5 cm. MEU DEUS. Ainda faltava metade do caminho. ALGUÉM ME DÁ UMA ANESTESIA. Tenta mais um pouco de chuveiro. Não estava no plano de parto. De repente, veio uma vontade imensa de fazer cocô. Saí do chuveiro puta da vida e perguntei pro seu pai: POR QUE VOCÊ ME DEIXOU FAZER ISSO? Nada de cocô. Voltei pro chuveiro, abri a janelinha e dei o maior berro daquela noite. É até engraçado lembrar como mudou de repente. Era hora de fazer força. Saí do chuveiro determinada, andei até o corredor e disse: NÃO AGUENTO MAIS ESSE COCÔ ENTALADO. Me escorei nas paredes e fiz força. Karina pulou e VAMOS PRO HOSPITAL.

Sei lá em que dimensão me encontrava para não perceber que estava tão perto de te conhecer, mas achei que ainda ia tomar uma anestesia no hospital. Pedi desesperadamente e ouvi que a banheira ia ajudar. Eu pensava: QUE BANHEIRA, QUERO DROGAS. A ida pro hospital foi sofrida. Fui empurrando você. Cheguei e gritei com o pobre homem da recepção que me trouxe uma cadeira de rodas. Assustei todos que estavam na recepção, inclusive uma criança que dormia no colo dos pais. Subi pra sala de parto sem ficha porque não dava mais tempo de nada.

Entrei na banheira, mais força. Aparece seu pai. Não deu pra terminar o cadastro, você estava nascendo. Eu nem acreditei — mesmo, eles tiveram que me mostrar com um espelhinho a bolsa saindo, que estourou quando sua cabeça passou. E, então, senti a ardência que indicava sua cabecinha. Força. Alívio. MAIS FORÇA, TARI, FALTA O CORPO. E passou o seu corpinho. Você veio direto para os meus braços. Segurou forte no dedo do seu pai. Até você chorar, fiquei meio atônita, mas quando te ouvi pela primeira vez meu coração se acalmou e se encheu. Éramos, enfim, três.

Hoje, eu lembro com uma saudade imensa do nosso dia. Digo nosso porque com você, Alice, nasci de novo. Parir — respeitando o seu tempo, sem intervenções, da forma mais natural possível — foi a coisa mais insana, legal, transformadora do mundo. Me sinto poderosa por ter vivido essa experiência. Louco, né? Sinto orgulho. Obrigada por me fazer sua mãe. ❤