A cura

Aquela manhã foi diferente. Acordou, solitária naquela imensa prisão cheia de janelas e portas. Abertas, pra rua. Cerradas pra ela.

Alimentando as angústias de uma vida sem sonhos. O estoque deles, havia terminado, junto com seu amor próprio e o café frio em cima da mesa.

Sentia uma urgência. Seria difícil, mas exageradamente necessário. Os seria necessário, mas exageradamente difícil. Certo é, que seria um pouco dos dois e talvez alguns adjetivos intensiosos a mais.

Tinha que ser. Não precisava. Mas tinha que ser assim. A vida era assim. Era intensa. Não vivia de metades, nem de meias histórias.

Foi até a lavanderia, juntou tudo que podia lhe ajudar a tirar do peito a sensação de dor e sofrimento.

Correu pra rua. Era urgente a limpeza. Saiu derrubando água pelo caminho até chegar no portão. Água respinhava do balde e jorrava dos olhos.

Começou esfregar com força o ferro sujo, encardido e gosmento. Há muito não lhe dava a devida atenção. Deixaram criar ali musgos e teias. Pensou no quanto faltou cuidado. Do quanto pouco cuidou. Do quanto pouco foi cuidada. Aquele lugar, agora praticamente abandonado e desabitado, a fez lembrar de vários momentos em que acreditou que seria o castelo do sonhos… o refúgio… o para sempre. E viveu essa certeza até onde pode.

Mas agora estava lá, sozinha. Deixando ir embora junto com a água que lavava o portão, toda ferrugem e tristeza. Ficou ali por horas.

Terminou já com o rosto seco. Havia limpado tudo. Curado suas feridas. Uma libertação. Já não sentia o peso. Estava livre e seu coração leve.

Isso tudo foi naquela manhã.

Hoje… são apenas, lembranças.