LA CHICA

Foi o tempo de dizer:

-Já está indo?

E ela me responder com olhos baixos, sorriso largo e tímido:

  • Estoy.

Chegando no quarto em tons rosados mais envelhecidos, tanto nos móveis como na cor, vi as beliches. Uma dessas pousadas temporárias era cheia de coisas. Um enorme filtro dos sonhos, pendurado. no improviso da cabeceira. Uma banda exageradamente colorida em tons roxos e azulados, um velho livro grosso embaixo de outros papéis, um tablet, a cama bagunçada, umas duas mochilas, muitas sacolas pelo chão com sapatos e roupas meio desdobadas e outras emboladas. Na escrivaninha ao lado, muitos pincéis e tintas de todos os tipos. Também uns frascos e mais uns trecos em porta trecos. Tudo aparente… a vida em um espaço minúsculo. A sensação de que ali, morava alguém e há bastante tempo.

Na manhã seguinte acordei e abri os olhos da altura da minha beliche e ela estava lá. Cabelos castanhos emaranhados num lenço e fitas.. seus traços não eram dessas bandas. Ela era castelhana, percebi. Deve ter histórias incríveis pra contar, enquanto eu fantasiava que podia ser artista de rua, mochileira da vida, algo assim.. Era um mistério instigante e era questão de tempo nos conhecermos e a história se revelar. Àquela altura, ela ainda dormia.

Passaram – se dois dias e a chica não cruzava olhos com ninguém, poucas vezes a víamos passar tímida e desapercebida da sala pra cozinha. Mas nunca, nenhuma palavra. Nunca, nenhum olhar trocado.

Nessa manhã chuvosa acordei mais tarde que o despertador e vi sua cama vazia. O filtro dos sonhos sob suas coisas, as tantas mochilas organizadas e lacradas.

Ela estava de partida. E assim foi..levando o filtro e seus sonhos coloridos para outro canto do mundo, eu acho. Seu nome, minha amiga Lorena.