O que resta

Não devia entrar. Não tenho porque fazer isso comigo. Mas minha dor precisa uma espécie de anestesia.
A primeira sensação é o cheiro de perfume masculino amadeirado. Ele deve ter saído há pouco. Deve ter ido encontrar ela, sua nova razão de viver. Talvez um dia era eu, talvez um dia eu volte a ser a de alguém. 
Naquele conjugado apertado, tudo parecia tão fora de lugar quanto o coração que batia no meu peito. 
Almofadas e uma coberta verde musgo amarradas em cima do sofá, provando que alguém passou ali jogado por um bom tempo. Cheguei muito próximo para sentir seu cheiro. As saudades começaram a lacrimejar meus olhos. Os fios do vídeo game e os controles enroscados no chão da sala empoeirada daram nós na minha garganta. A planta perto da janela era a mesma de meses atrás, porém com novas folhas e pequenos galhos, alguém havia saído disso inteira e com vida. Na estante ao lado, os inúmeros livros, muitos presentes meus, todos enfileirados por ordem de leitura.. uma mania. Vi que ele nunca mais comprara um livro, eu conhecia essa ordem decor. Tudo, naquela época, nos parecia tão previsível e linear.
Ao chão, o colchão já surrado, lençóis e travesseiros amassados. Os discos do Led Zeppelin e Cypres Hill, jogados ali, sempre foram verdadeiras paixões. Recordo quando passávamos horas conversando sobre músicas, mesmo sabendo que nossos gostos afinal, nunca eram os mesmos. Ele gostava de música estrangeira e eu, quanto mais nacional, melhor.
Na pequena mesinha próxima ao corredor da cozinha, a velha máquina de escrever e muitas folhas amassadas por perto. Aquela máquina já produzia lindas cartas de amor endereçadas a quem hoje só tem as lembranças para alimentar. 
A aproximação com a minúscula cozinha trazia o sol que vinha da varanda. A varanda era nosso lugar preferido, aquela rede xadrez marron e bege aconchegada nosso amor, sempre no pós - desentendimento. Agora ela estava vazia. Eu estava vazia.
Na pia pouco espaço para alguma coisa limpa. No ímpeto do hábito quase começei a organizar tudo. Só de curiosidade, abri a geladeira... como era de se esperar, eu era uma mãe. Na geladeira um litro de água, umas comidas congeladas e outras estragadas, possivelmente. 
Voltei pra sala e vi um porta retrato com a foto dele abraçado nos pais. Acariciei a foto. Minha angústia, minha tristeza, chegaram de mansinho... então, achei melhor ir embora e não atrapalhar aquele sentimento. Bati a porta e sai pelo corredor escuro até que enxerguei um feixe de luz. A porta que dava pra rua. Eu agradeci, precisava respirar.

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