mãos

um dedo

delicado e inexperiente

cruzando oceanos pra chegar até

o teu.

e poder te afanar como um gato

instinto de gatuno

puramente impuro

o contraste entre toque e ternura

meus dedos

trêmulos como eu

se aventurando pelos labirintos das suas veias

importunando tuas cadeias de célula

pra poder fazer um carinho ingenuo

alimentando uma esperança

morta.

meu dedo cruzou um inferno

e mais dois demônios

pra chegar até aquele ponto

macio e singular

que é teu corpo

mas por algum motivo

tu repele

como se eu pudesse te quebrar

– inteligente, você. porque eu vou mesmo, e ainda sem querer.

eu queria poder registrar

os segundos de coragem

que nos levam à eletricidade do ato

mas é tão rápido

que nenhuma câmera capta.

entendo Michelangelo

como a palma da minha mão.

se eu pudesse nos desenhar

seria a Capela Cistina.

e o pior de tudo isso

é constatar

que encaixa

como enquadra uma moldura.

teu dedo no meu é arte pura.

mas parece

que não dura.