Blanche DuBois e a dilacerante atualidade de “Um bonde chamado desejo”

Vivien Leigh e Marlon Brando na adaptação para o cinema de “Um bonde chamado desejo”

* Esta é uma análise do livro, portanto, pode conter spoilers

Poucas coisas são mais perfeitas e impactantes do que ler a frase cai o pano ao fim de uma boa peça de teatro. A força consegue ser muito maior do que a do bom e velho the end do cinema. Quando a história termina, você já não está com um livro nas mãos, mas sentado na primeira fileira, com uma vontade incontrolável de se levantar para aplaudir. E foi exatamente assim que me senti ao terminar Um bonde chamado desejo, do norte-americano Tennessee Williams: com vontade de bater palmas e gritar “bravo!”. Completei a leitura há alguns meses, mas a impressão foi tão poderosa que a trama continua aparecendo na minha cabeça. Simplesmente não dá para acreditar em uma peça de conteúdo tão transgressor estreando na Broadway em 1947.

Meu primeiro contato com a obra foi assistindo à adaptação, de 1951, com Vivien Leigh e Marlon Brando nos papéis principais. O filme é sensacional e fortemente recomendado, principalmente devido às interpretações que marcaram o cinema. Mas quando fiquei sabendo da alteração de muitos aspectos por conta dos temas abordados pelo autor (como desejo sexual feminino e homossexualidade, por exemplo), precisei ir atrás do material original.

Durante a leitura, somos apresentados à Blanche DuBois: bela, dramática e incapaz de encarar a realidade. É ela quem pega o tal bonde chamado “Desejo” e chega até a casa da irmã, Stella, uma jovem vibrante e apaixonada, que mora com o marido, Stanley Kowalski, operário grosseiro, violento e sensual. Stanley agride a esposa física e emocionalmente, mas Stella sempre o perdoa e tenta justificar seu comportamento. Logo notamos que o casal tem uma enorme química sexual e depende desesperadamente um do outro.

Sempre refinada, Blanche se choca com o modo de vida simples da irmã e mais ainda com seu perdão aos ataques de fúria de Kowalski. Já Stanley desconfia das circunstâncias da aparição dessa “hóspede” em seu apartamento e se incomoda quando Mitch, um de seus amigos, vira o pretendente dela. A tensão entre os cunhados é inevitável e não para de aumentar, tornando a convivência cada vez mais insuportável.

No início, desgostamos de Blanche com muita facilidade. Ela não parece uma personagem real, palpável, mas alguém incapaz de viver sem interpretar o tempo todo. No entanto, não demoramos muito para descobrir quais são seus motivos para mergulhar cada vez mais fundo na fantasia. A moça se casou muito cedo e seu noivo cometeu suicídio depois de ter sua homossexualidade descoberta, algo que traumatizou Blanche e tornou sua realidade difícil demais para ser enfrentada (no filme, a personagem comenta sobre esse acontecimento, mas o fato de o rapaz ser gay é completamente ignorado).

Eu não quero realismo. Eu quero mágica. Mágica.

A ilusão é uma espécie de combustível para Blanche continuar existindo, sua única alternativa depois de ter perdido tudo. E ela oferece uma imagem fantasiosa de si mesma para os outros por acreditar que é isso o que as pessoas querem. Esse mundo inventado é o único em que Blanche suporta viver. Quando entendemos a personagem e nos sensibilizamos com seu sofrimento, fica muito difícil observar a exposição de suas mentiras.

Mas nada consegue ser tão cruel e grotesco quanto o que Stanley faz com ela. Ele se coloca diante de uma pessoa trincada e, sem um pingo de humanidade, a despedaça de vez. É compreensível que Hollywood precisava apresentar uma certa “punição” para os atos de Stanley, mas o desfecho da obra de Williams tem uma nota bem mais negativa e, infelizmente, realista: ele sai totalmente impune. No fim dos anos 40, Um bonde chamado desejo mostrava algo que podemos ver com frequência nos dias de hoje: quando um homem faz algo abominável, frequentemente é a mulher quem recebe uma condenação. É ela quem precisa ser afastada, sair de cena, desaparecer.

Blanche se despede em plena desintegração mental e seu algoz segue na mesma rotina de sempre. Concluímos que os delírios da personagem eram um pedido de socorro que as pessoas ao seu redor não quiseram ouvir, mas se apressaram em julgar. E no momento em que ela disse uma verdade dura demais, ninguém quis arcar com as consequências disso. Quando cai o pano, as últimas palavras de Blanche DuBois ecoam em nossas mentes: “Eu sempre dependi da bondade de estranhos”. Não sei quanto aos estranhos, mas sem dúvida, todos os outros falharam muito com ela.