Tudo o que resta quando uma paixão não dá em nada

Dan,
Quando a gente se conheceu, eu simplesmente soube. Eu tive a certeza de que precisaria viver aquela história. Não dava mais pra ficar me protegendo. Era hora de me permitir. Era hora de viver. Era hora de ir até o fim. Por muito tempo me perguntei se meu erro foi justamente ter mergulhado sem saber nadar. Eu dificilmente fazia coisas tão perigosas quanto me apaixonar e não fugir em seguida. Daquela vez, por algum motivo, eu quis que fosse diferente. Não apenas me entreguei, como deixei claro que estava me entregando. O tempo todo só pensava em me perder em você.
Eu conversava com as pessoas e elas diziam, “quando ele perceber o quanto você está envolvida, vai te fazer de gato e sapato”. Nunca entendi essas regrinhas, esse código de conduta não escrito em canto nenhum sobre como a gente deve se portar quando gosta de alguém.
Não tinha como disfarçar a pele corando, o corpo todo arrepiado, o gemido que saía sem querer no meio de um beijo. Não tinha como disfarçar quando estava nua, vulnerável, sem reservas, me fazendo de destemida, mas morrendo de medo. E, principalmente, não tinha como disfarçar a decepção de não ser correspondida.
Me sentia um clichê horrível quando olhava o celular de cinco em cinco minutos, esperando uma mensagem que nunca vinha. Quando voltava pra sua cama depois de ter sido esquecida por dias. Quando usava sua camisa nos domingos de manhã, imitando minhas comédias românticas favoritas, sendo que havia muito pouco de engraçado ou romântico naquela história.
E nos momentos em que eu finalmente decidia que “nunca mais”, parava de te procurar em todos os cantos e acreditava ter esquecido, você aparecia. Me beijava inteira, pedia desculpas, se fazia de confuso, indeciso. Tinha a coragem de perguntar se eu não sentia mais nada. Eu me odiava com força por não resistir. Era como aquela canção do Nenhum de Nós.
Você até parece um vício, que largar é quase impossível, exige muito sacrifício. E quando eu me considerava limpo, vem você pra me oferecer mais.
A gente se percebe nessa situação e fica tentando entender onde errou, se foi precipitada, se deveria ter fingido não sentir. E a verdade é tão simples. Não deu em nada porque não era pra ser. Porque eu merecia muito mais. Porque se apaixonar não é sinônimo de ter encontrado a pessoa certa. Mas coisas assim a gente só compreende depois de se libertar.
Não me arrependo nem um pouco de ter entrado nessa água que não dava pé. Descobri tanto sobre mim mesma. Agora sei que não vou morrer se colocar o medo de lado e deixar as coisas acontecerem. Aprendi a olhar com mais empatia para todos os enredos parecidos com esse, inclusive os da ficção. Nunca mais julguei a Carrie por ter escolhido o Mr. Big. A gente só entende alguém de verdade quando começa a ver as coisas pelo seu ponto de vista.
O que restou de você foram esses pequenos aprendizados, lembranças, alguns textos perdidos por aí. Não ficou mágoa, tristeza, raiva, nada disso. Algumas narrativas apontam nas nossas vidas e precisam ter início, meio e fim. Mas hoje eu sei que você foi apenas um conto. O romance de verdade ainda está por vir.
Adeus,
Alice

