O caminho de casa, de Yaa Gyasi

Taís Ghedin
Mar 5, 2018 · 3 min read

Há livros que são alento. Com eles, cada página desperta uma alegria semelhante à dádiva de se abrigar em um cômodo aquecido, ainda que escuro e apertado, em meio a um inverno rigoroso. Pertencem a essa classe, ainda que por motivos díspares, Demian, de Herman Hesse, e Nosso Homem em Havana, de Graham Greene.

Há livros, porém, que são angústia. Daqueles capazes de esbugalhar os olhos e de embrulhar o estômago, nascidos para evidenciar uma realidade incômoda que, consciente ou inconscientemente, nos esforçamos para esquecer. Nessa categoria, constam exemplares como Maus, de Art Spiegelman, e O caminho de casa, de Yaa Gyasi.

Nas últimas semanas, me dediquei a aproveitar qualquer oportunidade para evangelizar meu círculo social com uma única, mas profunda mensagem: “por favor, por tudo o que há de mais sagrado, leiam ‘O caminho de casa’!”. Espero sinceramente que algumas de minhas intervenções surtam o efeito desejado e que, em breve, as almas tocadas possam sentir o mesmo que eu ao devorar as páginas de autora ganense.

Não posso garantir, entretanto, a natureza tranquila dessas sensações. É possível que haja repulsa, incredulidade, frustração e tristeza. É muito provável que suscite questionamentos, que escancare dilemas e que propicie a reflexão. O caminho de casa é um livro de consternação, mas também um grito de liberdade — que, ainda hoje, enquanto carros circulam no espaço sideral, permanece engasgado na garganta de muitos.

O romance de estreia de Gyasi carrega o peso da escravidão. Sua habilidade técnica se une à sutileza emocional com que descreve uma linhagem separada pelos terrores da exploração africana.

De um lado, os ingleses sedentos. Militares incumbidos de uma missão patriótica de colonização, alçados à condição de deuses e com a missão de comercializar o povo negro. De outro, uma nação subjugada. Aldeias inteiras devastadas pela fome de poder e pela rivalidade de suas crenças, ambas começando no seio da própria terra. Em meio a isso tudo, a história de Maame: o ventre de fogo que gera Effia e Esi, irmãs que jamais se conhecerão.

As origens da ascendência e a cor escura da pele são semelhantes, mas tudo o mais é diferente na vida das duas. Enquanto Effia se “casa” com um inglês, passando a habitar o castelo de Cape Coast, Esi é capturada como escrava e mantida nos porões sujos da mesma construção. A partir de então, o desenrolar da estirpe — que teve a mesma fonte, mas não o mesmo destino — , exorta os efeitos de uma guerra devastadora.

A cada página, Gyasi detalha os impasses de uma cultura domada. Não há tempo ou circunstância, distância ou distanciamento, capaz de extirpar dos dominados o sentimento de inadequação e de injustiça. Em Gana ou nos Estados Unidos, na colonização ou na modernidade, os descendentes de Maame sofrem as consequências de um domínio devastador. Indivíduo após indivíduo.

Eu, particularmente, não consegui segurar algumas lágrimas. Gyasi é hábil com as palavras, mas sua sensibilidade sobrepõe qualquer didática. Em O caminho de casa, ela revisita sua própria origem e permite que sigamos com ela nessa viagem densa e difícil, embora necessária.

Trata-se, sem dúvida, de um daqueles livros que são angústia — mas do tipo que fazem pensar e repensar, evocam raiva e tristeza, conciliam e transformam. Do tipo dos que merecem (precisam! devem! por favor!) ser lidos. Agoraaa!

    Taís Ghedin

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