Por uma política que deixe-me ser eu mesma

Uma crônica feminista com paralisia cerebral (Lucy Webster -EUA)

Devo agradecer à um seminário sobre segurança de gênero por me dar uma das maiores epifanias que eu poderia ter, ou melhor, sobre a política de ser eu mesma, no meio de um debate acalorado sobre como a discussão de gênero está nos movimentos sociais, então eu subitamente percebi: o feminismo moderno trabalha com um modelo estabelecido de mulher, um modelo onde mulheres com deficiência não se encaixam corretamente.

Sou uma militante com deficiência e feminista de longa data, mesmo assim demorei para perceber.

O slogan “ O pessoal é político” tomou um novo significado para mim, passei a ver que estabelecimentos sem espaços para pessoas com deficiência e coisas do tipo, são claramente excludentes.

Vi pessoas sendo paternais comigo, pressupondo que sou incapaz de ler, não estou fazendo opiniões infundadas ou me rotulando, nada pode ser mais político do que perceber essa tentativa de reduzir um grupo constantemente desvalorizado.

O feminismo me mostrou como responder a isso: tendo orgulho em me auto afirmar e ilustrar minhas diferenças, minha visão e várias outras que não são expostas: feminismo negro, pós-colonial, queer.

Tudo isso foi desenvolvido por mulheres que confrontaram diversas opressões em sua luta e acharam forças batendo de frente em todas elas, assim como ser mulher ou negra, eu percebi que ser deficiente não é uma condição, é uma identidade.

Com esse conhecimento veio um poder que eu nunca havia conhecido antes, notei que meu problema não se concentrava em minha paralisia cerebral mas na visão dos outros sobre mim, eu me sinto mais orgulhosa em minha cadeira de rodas sendo uma jovem, eu noto que questões sobre o corpo nunca estão tão distantes, o feminismo diz para abraçar si mesmo e ver sua aparência e como você se vê como coisas distintas, em tese eu não poderia discordar ,mas nós precisamos entender que vivemos em uma sociedade que, mais que tudo, enxerga deficientes como limitados, aposto que 99% das pessoas percebem primeiro minha cadeira de rodas do que minha roupa.

O feminismo precisa reconhecer que meu corpo diz um pouco sobre minha identidade, sobre minha capacidade profissional e como me socializo (convenhamos, nunca serei correspondente em outro país).

O feminismo “de massa” pode dizer o contrário, ignorando que é uma luta diária para mim.

Nunca houve a discussão sobre gostar de um corpo que não realiza certas funções, realmente nunca me preocupei como maquiagem, mas tenho que me preocupar com um vestido que caiba na curvatura da minha coluna.

Não importa o quanto eu tente me convencer do contrário, ainda que tente me misturar ou parecer “menos deficiente”, o que o feminismo diz sobre isso? Como amar seu corpo quando seu corpo sistematicamente te impede de atender o telefone ou abotoar uma camisa?

Discussões de imagem não são o único lugar onde minha identidade se chocou com o feminismo, enquanto mulheres lutaram pela emancipação e contra a hipersexualização, mulheres com deficiência foram deixadas de lado em um local desconfortável de se estar, cercados de infantilização e fetiches.

Não imaginam quantas vezes conversei com um cara e em alguns momentos depois ele riu com os amigos e ficou caçoando em outro lugar, o que tornava minha preocupação em ficar sozinha em algo mais concreto.

A maioria das feministas afirma que a revolução sexual ainda está em progresso ,mas nunca escutei uma discussão sequer sobre sexo além da normalidade do corpo humano, até nos círculos mais progressistas, sexo e deficiência são vistos como tabu, mesmo indo à faculdade onde todos diziam abraçar o feminismo ,nunca me deram aulas de educação sexual relevantes para minha situação, cheguei a cogitar por algum tempo se sexo era uma possibilidade para mim, só levantei esse assunto com um amigo próximo em uma conversa emotiva e alcoolizada com 19 anos, na universidade.

Diversos colegas conversavam animadamente sobre relações, mas estranhamente evitavam falar de sexo, então eu estranhamente disse que me interessava na vida sexual, houve um grupo de mulheres que me entendeu (gostaria até de agradecê-las), finalmente passei a me ver como adulta, não como uma pirralha brincando de gente grande.

Feministas corretamente batalham contra a ideia milenar de que a mulher deve ser do lar, mas não vejo nenhuma luta no exato oposto, não precisa procurar muito na web para achar visões negativas sobre uma mulher com deficiência que sai com os filhos, deve ser intensamente doloroso.

Às vezes penso sobre maternidade, mas será que acho um parceiro? Eles serão rotulados de uma forma diferente por causa da mãe de seus filhos?

Muitos de meus amigos “aptos” dizem: porque você entra em pânico com algo que ainda tem de dez a quinze anos para pensar e desenvolver?

Eles estão com a razão até certo ponto, mas não passa desse ponto, por causa do privilégio.

Nasceram em uma casa progressista, com estrutura e poderiam tomar as decisões que desejam, mas eu e muitos outros não possuímos esse luxo.

O mantra que devemos nos aceitar cai por terra, mesmo a luta sendo certa, as feministas não buscam agregar quem não está nos moldes.

Tenho orgulho de ser uma mulher com deficiência. Também estou orgulhosa de ser feminista. Mas eu gostaria que o último caso não me obrigasse, muitas vezes, a ignorar os desafios específicos postos pelo primeiro.

Desejo que o feminismo tradicional me tenha dado uma linha de base para enfrentar as questões que as mulheres com deficiência enfrentam com a imagem do corpo, a sexualidade e a maternidade — mas, por enquanto, estou presa no meio.

À medida que avanço para a vida adulta, espero poder conciliar essa tensão e talvez, talvez, encontre algumas respostas ao longo do caminho. Por enquanto, estou apenas segurando a única coisa que eu sei com certeza: vou fazer com que essa identidade funcione para mim. Obrigado, feminismo, por isso.

*Texto original publicado por Lucy Webster , através do site da instituição inglesa de direitos das mulheres com deficiência - “Sister Of Frida”.