Por favor, não empurrem as pessoas para a academia

Tem essa turma que eu absolutamente adoro. Foi uma turma que demorou pra pegar no tranco, que já teve uma alta rotatividade de gente, mas que tem uma evolução visível. E eles são muito animados, tudo é muito divertido de fazer. Tem festa pra tudo e não tem tempo quente pra eles. E é tão confortável que quem chega já está em casa.

Só que as duas maiores figuras da sala, um rapaz e uma moça, são extremamente ligados à aparência e a dinheiro. Eles admitem isso e não estão nem aí. É academia pra lá, maquiagem pra cá, whey, Miami, quanto eles pagaram em cada coisa, botox. O resto da turma tem lá essas preocupações, mas o caso deles é mais pronunciado.

E tem essa moça, que é maravilhosa, que sempre foi à frente da turma, que entende tudo com facilidade e dá a cara, sai falando com gringo, se arrisca. Que é chefe de equipe, trabalha adoidado e conquista promoções, que sempre estuda e corre atrás de mestrados. Não tô dizendo isso pra comparar, não. É pra ilustrar mesmo. São tipos diferentes de pessoas, cada um com suas qualidades. Os dois sarados são divertidos, festeiros, animam qualquer festa, e a estudiosa é inteligente, responsável, ajuda todo mundo.

Só que aí essa pessoa incrível se sente a pior do universo quando se compara a eles.

Hoje teve uma festa pra comemorar o aniversário da sarada. E quando a gente faz festa não segura nada: compramos salgadinho, bolo, brigadeiro e Coca-Cola. Todo mundo come de tudo. Só que sempre tem aquelas conversas, ‘amanhã tem que malhar dobrado’, ‘não posso comer a semana toda’.

Veja bem, eu sou o tipo de pessoa conhecida como ‘sanfona’. Engordo só de olhar pra comida. Tenho uma tendência enorme para a matronice italiana. Em BH eu era uma moça tamanho 42. É um tamanho que eu adoro, que me cai bem, que eu me sinto confortável. Hoje em dia, depois de uma convivência feliz com a comida da minha mãe, eu sou tamanho 46. Prefiro o 42, me sinto melhor, tenho um desempenho melhor nos esportes e qualquer coisa me cai bem; mas há um tempo eu venho aprendendo a me gostar de qualquer jeito e tô em paz agora. Voltei a malhar, mas malho porque eu gosto - eu realmente tenho prazer com academia, não é brincadeira. Se eu emagrecer, excelente!, mas meu objetivo real é cuidar do meu condicionamento.

Só que aqui é pesado. Pesadíssimo. Se já era difícil conviver com isso em capital, é 10 vezes pior em cidade de interior. Aqui as pessoas são encanadíssimas. Sabe, esse é o lugar em que fazem ‘rodeio de gordas’. É muito difícil. A vida das moças aqui acaba com dois quilos a mais. É uma cidade onde a fofoca toma proporções ridículas porque todo mundo conhece todo mundo. Todo mundo fala de todo mundo.

E aí essa moça começou a se censurar por estar acima do peso que ela - ou os outros - considera ideal. E todo mundo fica em volta cobrando. E agora ela não sai mais de casa. Ela falou isso com todas as letras, lacrimejando. ‘Não saio mais de casa porque estou gorda’. Eu fiquei em choque.

Tentava falar alguma coisa, tentava dizer que ela era linda, só que não adianta. Na cabeça dela, isso nunca vai ser verdade. E o pessoal em volta empurrando ela para a academia, receitando proteína, estimulante e o diabo a quatro. Era sufocante. Chegou ao ponto em que eu falei para pararem, que ela não podia sair tomando essas coisas assim, não. E o cara me esfregou na cara que tem não sei quantos anos de academia. E eu falando ok, eu também fui atleta, e daí?

Galera sabe que você malha, sabe que você foi atleta, mas foda-se, porque você é gorda e sua opinião não importa, você deve estar inventando.

E daí que ele disse: ‘então toma vergonha na cara e malha’. E isso é tão ofensivo! Fiquei perturbada mesmo, por mim e por ela, que estava arrasada e ouvindo isso por tabela. E quando eu falei: ‘ué, mas eu malho e estou ok’, a moça sarada bufou e completou o insulto.

Fosse em outra época, eu estaria arrasada. Hoje em dia eu estou ok, fiquei incomodada com a facilidade com que as pessoas fazem isso e não se importam com o que os outros sentem, mas depois dei de ombros e segui minha vida. Mas a moça incrível não, e eu estou mesmo de coração partido por ela. Porque ela vai malhar, vai fazer mil dietas e tomar mil coisas e vai emagrecer e continuar linda, só que essa pressão vai acabar com ela. E eu queria mesmo que ela percebesse o quanto isso é uma pequeno perto dela. Me sinto péssima. Sinto que falhei.

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