Desde quando passamos a ensinar para nossas crianças que a vida é uma competição?

fonte: http://morguefile.com/search/morguefile/1/hand%20color/pop

Crianças divididas em grupos faziam um trabalho artístico. Um dos grupos reunidos genuinamente teve uma ideia de pintar as mãos cheias de cores e colocar no cartaz, para expressar a união, a diversidade, o coletivo. Empolgados foram pegar as tintas, quando no caminho perceberam que o grupo ao lado havia tido uma ideia similar e também estavam colorindo suas mãos.

Os pequenos olhos se arregalaram de desespero: “e agora? o outro grupo teve a mesma ideia primeiro e todo nosso trabalho vai por água abaixo.”. Pintar as mãos já não era tão legal se não fossem os únicos a fazer isso. Os lindos símbolos que seriam representados com as mãos coloridas foram rapidamente esquecidos, e os olhos brilhantes foram substituídos pelas expressões frustradas de derrota. Agora teriam que encontrar outra ideia. Era como se o pioneirismo e a exclusividade de uma expressão fossem condições para sua autenticidade. Era como se a manifestação de nosso ser fosse uma competição.

Haviam alguns adultos ao redor, acompanhando a atividade. Compadecidos da sensação dos alunos, orientaram as crianças a continuar com a ideia, porque ela não era tão igual assim à dos coleguinhas. Nas entrelinhas de suas palavras, validaram a ideia aquilo seria um problema. E os pequenos continuaram: a pintar as mãos e a entender de que vida é uma competição.

Agora paremos nós adultos para refletir: desde quando passamos a ensinar para nossas crianças que a vida é uma competição? Que o primeiro tem mais valor? Desde quando esquecemos que o mais importante é sermos nós mesmos, autênticos e fiéis ao nosso jeito de ser? Que não importa muito se ele é pioneiro, se ele é único. No final das contas, não somos mesmo todos iguais? Encontrar as similaridades não é uma das delícias da vida? Não estamos todos em um ciclo, onde não tem começo nem final, não tem primeiro nem último, tem apenas movimento?

São por estes detalhes que eu acredito que os desafios da educação estão nas sutilezas do contato. Não há investimento nem base curricular que resolva as sutilezas. Os desafios atuais não estão em crise política, nem em crise econômica, a crise é de valores humanos. A crise está na urgência de ressignificarmos a forma de ver a vida e o mundo.

Nós adultos, devemos trabalhar intensamente para desamarrar nossas crenças e expandir nossa consciência, para que nas sutilezas do contato com as crianças ao nosso redor, possamos colaborar e facilitar a construção de um novo mundo.

As crianças? Elas já estão prontas para isso. Nós é que precisamos parar de atrapalhar.