“A pichação é livre”, Caligrapixo

Conheça o pichador paulista que levou para galerias tipografia inspirada na prática ilegal

Por Tatiane de Assis

Sentado, conversando calmamente com os amigos na feira de arte contemporânea PARTE, encontrei pela primeira vez Caligrapixo. O pichador de São Matheus que acumula codinomes — nos muros, ele aparece como Kamikaze (kmkz) — é uma peça fundamental para entender a pichação no Brasil.

Com quase vinte anos de estrada, ele participou das mais polêmicas intervenções feitas por pichadores nos últimos cinco anos. Foi até à 29ª Bienal de Artes de São Paulo, ao Centro Universitário de Belas Artes e à galeria Choque Cultural. Desde 2014, com a exibição de trabalhos na exposição “Made by … feita por Brasileiros” e a realização de um site-specific na última edição na PARTE, em novembro de 2015, tem dialogado com mercado de arte.

Na entrevista concedida ao Beijo, na série Gente da Arte, Caligrapixo fala então sobre a diferença da pichação na rua e na galeria; e comenta detalhes de sua biografia. Os motivos que o levaram a flertar com as galerias também são revelados. Confira abaixo trechos da conversa e fotos de Leila Fugii.

Site O Beijo — A tipografia usada na rua e na galeria é parecida. Por quê então falar que a pichação só existe na rua e que, dentro do cubo branco, é somente um trabalho inspirado na prática?

Caligrapixo — Porque pichação é muito mais que um rabisco. É um intervenção rápida, transgressora. Que sim, tem uma criação muito forte da tipografia, mas é mais. As obras da galeria são trabalhos de representação que eu faço no ateliê. Tem estudo, planejamento e são em outro suporte.

“Pichação é uma coisa que se apaga. Que envolve riscos”

Site O Beijo — Como você disse, a cultura da pichação é transgressora, muitas vezes misteriosa. Como acontece o diálogo com o meio artístico, marcado pela legalidade?

C. — A partir de 2006, eu comecei a notar que a pichação tinha começado a ser apropriada por tipógrafos, designers, artistas plásticos e publicitários. Achei que tinha que me posicionar, porque estavam usando uma linguagem que a gente criou, que a gente que se arrisca para fazer.

Falavam de letra, mas não conversavam com quem fazia. Ficavam presos no argumento de que pichador é vândalo. Comecei então a criar um trabalho de cunho mais artístico em 2006. Em 2011, fiz o Caligrapixo, que é um trabalho com mais coerência, que acompanha a arquitetura e é uma intervenção urbana.

“A minha caminhada na rua é uma coisa. Meu trabalho com Caligrapixo é totalmente diferente”

Site O Beijo — E agora, voltando ao início de sua trajetória, como você começou na pichação?

C. — Comecei em 1996, mas sou fascinado por pichação desde pequeno. Sabe aquela coisa de você ver e querer participar. Era isso. Em 1994, antes de dar rolê, já estava criando meu próprio pixo (ou marca — como o pichador se identifica nos muros, para os seus pares).

Site O Beijo — E você tem um hora específica para pichar?

C. — Pichação é livre. Não tem hora estipulada. É a hora que te dá na telha. Não tem regra. Mas assim, tem dias melhores. Domingo de dia é ótimo. Tá mais tranquilo, o comércio fechado, todo mundo em casa.

“A estética da pichação, apesar de agressiva, tem um lado bem interessante. Quando colocada em outro contexto, tem harmonia e beleza”

Site O Beijo — Para fechar, tem gente que gosta de pichar em topo de prédio. Outros, em muros com uma característica específica. Você tem alguma predileção?

C. — Isso chama modalidade. Tem gente que só faz prédio, gente que só faz chão. Eu, especificamente, gosto mais de chão. Mas tem mais outras coisas. A pichação é muito grande. A única coisa que a gente segue é ter respeito.

(Atualizado em 24 de novembro de 2015, às 11h57)