Espetáculo musical desvela tabus do HIV

É necessária certa dose de coragem para se desnudar em um palco, caso você não seja um ator. Agora, se esta é sua profissão, é necessária bravura caso queira desvelar sua intimidade para uma plateia composta tanto por desconhecidos, quanto por familiares e amigos. Seguro desta ação, o dramaturgo, diretor e ator Gabriel Estrëla abraçou o projeto de um espetáculo musical biográfico. Em fase de audição, Boa Sorte conta a história deste goiano de 23 anos, que em 2010 recebeu a confirmação: soropositivo.

De lá para cá, foi preciso tempo para entender que o vírus não tiraria seus pés do chão. Nem que ele estaria fadado ao ostracismo social, à falta do amor de um namorado ou de trabalho. Por isso, Gabriel passou a se dedicar, desde 2013, a um espetáculo em que compartilharia sua vivência no palco. Ao final, ele espera que sua experiência reverbere do teatro para o comportamento de milhares de homens e mulheres que, assim como ele, já se esconderam da vida ao receber esse diagnóstico.

Em entrevista ao site O Beijo, o ator conta como está o andamento do espetáculo que deve estrear em Brasília no mês de outubro com o trabalho e apoio de todos os voluntários envolvidos. Além disso, o dinheiro da bilheteria vai ser revertido para ONGs que trabalham com soropositivos.

Dessa forma, a arte, segundo Gabriel, volta a vestir a camisa da luta contra a Aids e se mostra como um agente catalizador de mudanças sociais. “Não entendemos mais a relevância do HIV na nossa sociedade. Achamos que é uma questão de saúde resolvida. Mas não é. Não é só de saúde. É uma questão que tange nossa sexualidade, nossas relações, nossa educação”, reflete.

(Créditos: João P. Teles)

O BEIJO — Por que você escolheu o gênero musical para contar sua história nos palcos?

G.E. — Há situações que fogem da nossa compreensão racional e tocam uma área mais sensível — é desse lugar que surge a música. No caso, ao falar de HIV e de uma história íntima tão delicada, eu senti a necessidade das canções em momentos que as palavras por si só não pareciam dar conta da complexidade da situação.

O BEIJO — Você pode adiantar um pouco como será este espetáculo? (enredo, canções…)

G.E. — A peça parte do dia em que recebi o diagnóstico e vai até a primeira noite tomando antirretroviral — e no meio disso contar para a família, namorado, ir ao médico… As canções são todas de MPB, e a intenção é fazer o espetáculo acústico — bem intimista! Não é um musical comercial como estamos acostumados a ver no eixo Rio-São Paulo aos moldes da Broadway.

O BEIJO — As audições já estão a todo vapor, correto? Qual o perfil dos personagens?

G.E. — Definir um perfil para os personagens nunca foi uma prioridade no Boa Sorte. Digo apenas que faço questão que sejam pessoas de aparência saudável — porque não quero reforçar nenhum estigma relacionado ao HIV. Mas até o gênero dos personagens não é muito claro pra mim ainda. Tudo vai depender dos atores que encontrarmos, dos instrumentos que eles tocarem e do que surgir ao longo dos ensaios.

“A peça parte do dia em que recebi o diagnóstico e vai até a primeira noite tomando antirretroviral”

O BEIJO -Você virá para São Paulo para realizar audições ou vai dar preferência a atores de Brasília?

G.E. — O projeto é de Brasília. Não era a intenção ter tantos artistas de fora audicionando. Ficamos agradecidos que eles tenham aparecido e vamos avaliar todos por vídeo (e alguns poucos que vêm de fato). Brasília é um berço importante para o teatro musical. Daqui saíram muitos atores importantes da cena. O tempo todo mandamos gente para Rio e São Paulo, mas agora queremos mandar a peça inteira!

O BEIJO — É verdade que você ouviu Boa sorte de Vanessa Da Mata quando você recebeu o resultado dizendo que era soropositivo? Como você reagiu?

G.E. — Tem em um laboratório aqui em Brasília o costume de ter entretenimento nos laboratórios. Geralmente alguém fazendo música, às vezes animais de balão para as crianças. Cheguei já com a certeza de que meu teste daria positivo (por que outro motivo eles teriam me chamado para buscar o resultado no laboratório? Tinha ganhado um prêmio?!) e uma moça com um violão começou os versos “É só isso / Não tem mais jeito / Acabou / Boa sorte”. A cena aconteceu naturalmente — eu chorava e cantava junto com ela, como se tivesse ali mesmo recebido meu diagnóstico.

O BEIJO — Quais as reações que mais lhe incomodam mesmo com tanta informação como as que temos hoje?

G.E. — Não entendemos mais a relevância do HIV na nossa sociedade. Achamos que é uma questão de saúde resolvida. Mas não é. Não é só de saúde. É uma questão que tange nossa sexualidade, nossas relações, nossa educação; levanta questões como racismo, machismo, homofobia, transfobia; e está longe de ser resolvido! O HIV parece representar uma esquina entre o sexo e a morte — dois tabus na nossa sociedade. Falar dele é falar de tudo o que anda nessas duas ruas e entender o encontro delas.

::CONFIRA UM VÍDEO DE GABRIEL ESTRELA COM JOUT JOUT


Originally published at www.obeijo.com.br on August 13, 2015.

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