Grupo Galpão fala de desafios e do porvir

“Romeu &Julieta” (Créditos: Guto Muniz)

O Grupo Galpão é de laço, de nó e de chão. Bota chão nisso, sô. Se no palco, a companhia de teatro mineira faz turnê com a peça De tempos somos, em que interpreta 25 canções selecionadas de um longevo repertório de peças — a exemplo de Corra enquanto é tempo (1988) e Álbum de Família (1990) — fora do palco ainda tocam uma companhia de sucesso e reconhecimento após largos 32 anos.

Deste percurso, registram diários que lançaram em formato de box. São registros do processo de criação e apresentação de 10 espetáculos do Galpão. Uma vida dedicada às artes que teve início com Romeu & Julieta. Inclusive, esta peça já foi exibida sob fortes aplausos de uma plateia inglesa (habitualmente não calorosa), no Shakespeare Globe Theatre, em Londres.

Cientes de que a jornada de um artista é árdua, mais ainda é a jornada de um grupo que soma ao trabalho nos palcos à administração do próprio espaço cultural em Belo Horizonte. Chico Pelúcio, ator e diretor geral do local, batizado de Galpão Cine Horto, Eduardo Moreira, ator e diretor de montagens da companhia, e Rômulo Avelar, gestor cultural do grupo há 17 anos, conversaram com O Beijo sobre gestão cultural, teatro de rua, desafios e projetos para o futuro.

“Estamos numa fase de preparar um campo para que outros venham arar e plantar. Temos um projeto de uma nova sede que é para daqui a 20 anos. Terei, se tiver aqui, 76 anos. Vamos estar aguando os canteiros da nova sede e o povo lá, fazendo teatro”, brinca Chico sobre o futuro.

O BEIJO — Por que compartilhar esta série de livros e DVDs agora neste momento? C.P. — Lançar estes livros neste momento é bacana porque não só o Galpão e o Galpão Cine Horto, mas o Teatro, de maneira geral, vêm discutindo a questão da importância de se preservar a memória (do teatro), das possibilidades de compartilhamento em rede do trabalho de artistas e de grupos. Ou seja, como criar essa rede de troca de conhecimento, de diálogos, num momento em que o país em crise põe em xeque a árdua tarefa de continuidade. Também vem num momento em que o grupo se pergunta que herança queremos deixar para os que vierem depois de nós, o subtítulo da nossa peça Tio Vânia.

E.M. — Esse processo dos diários de montagem (à venda no site do Galpão) começou em 1992, do encontro com o Gabriel Vilella e do Cacá Brandão. Foi uma prática que começamos a partir desse encontro e foi muito importante a presença tanto do Gabriel quanto do Cacá de virar uma prática esse registro. Eu passei a fazer um pouco essa função, porém, mais no papel de ator, refletindo um pouco sobre a prática. Então esses diários têm muito essa característica de registrar o dia a dia da montagem até depois revisarmos e tirarmos algumas coisas que eram muito íntimas, desnecessárias para divulgação. Essa é uma maneira, especificamente os diários, de trazer o calor do momento. Diferentemente do livro sobre o Galpão Cine Horto que traz uma análise elaborada deste espaço que já tem 15 anos. O sabor do momento está nesta série de montagens.

O BEIJO — O Galpão sempre se preocupou em preservar sua memória e compartilhá-la com o público. Por que esta sempre foi uma característica do grupo?

C.P. — Temos a biblioteca no Galpão Cine Horto e o próprio portal do grupo. Todos são instrumentos de pesquisa para o público em geral. Não só sobre o Galpão, mas sobre o teatro como um todo. Talvez essas bibliotecas especializadas em teatro não tenham tudo que nós temos no Cine Horto. E é aberto para todos. Tanto os diários de montagem quanto os livros de gestão abrem a porta, digamos, da “cozinha” do grupo, revelando o que fizemos e que deu bons resultados e os tiros na água. Também é referência para outros grupos e centros culturais entenderem o processo. Revelamos nossos processos, algo que está desprestigiado porque as pessoas só querem saber de resultados. O grande nó, hoje, é essa questão da gestão, que veio cobrir uma lacuna do grupo e da maioria dos grupos: como se manter em continuidade? Como se manter trabalhando a médio e longo prazo? No caso, o processo de gestão cultural dos grupos de teatro era intuitivo: como fazer um projeto, que público atingir, como captar recursos, etc. Foi aí que entrou o gestor cultural no Galpão.

R.A. — O processo é sempre, de certa forma, intuitivo. Eu trabalho com o Galpão há 17 anos, mas também com outros grupos. Trabalho como assessor de planejamento, mas hoje como consultor, também no dia a dia. Essa questão da construção de uma estrutura para um grupo artístico é um desafio para grande parte deles. O Galpão nasce em 1982, num clima de absoluta informalidade, como outros grupos surgem, espontaneamente, mas aos poucos o crescimento exige outros conhecimentos além do artístico. A criação está sempre em foco, mas outras competências precisam ser agregadas, e a gente tenta relatar com essa experiência do galpão como essa experiência foi se dando. Isso que o Chico falou: como os nós foram desatando; as descobertas; os avanços neste terreno. Outros nós ainda não foram desatados e, até hoje, aos 33 anos de grupo, ainda são limites e dificuldades.

“Os Gigantes da Montanha” (Créditos: Guto Muniz)

O BEIJO — Há um site “Galpão eu Apoio” que esclarece como as pessoas podem colaborar com o trabalho do grupo. Como funciona?

R.A. — Esse é outro desafio. A busca do recurso é um ponto de fragilidade para todo mundo. Estamos no Brasil. Ouvimos que o Galpão não precisa (porque são relativamente reconhecidos no País e no mundo). Mas, como assim, não precisa? Estamos sempre fazendo girar uma roda que não pode parar. Por isso é necessário abrir frentes de recursos. As leis de incentivo à cultura, de certa maneira, já mostram sinais de exaustão. Então, é preciso buscar outras perspectivas de sustentabilidade do grupo e a pessoa física é um caminho muito interessante. Desde 2014, desenvolvemos algumas ações para ter o público como parceiro.

C.P. — O Rômulo estava falando sobre os nós. E o grande nó para a gente é a continuidade. O financiamento do planejamento a médio e longo prazo. Tudo que cerca hoje a área artística brasileira tem um período fiscal de um ano. Então, as leis: um ano; prestação de contas: um ano; carnaval: um ano; passa o carnaval e aí começa o ano. A sensação que temos é de ter que provar tudo ano a ano. Ou seja, há uma estrutura burocrática que impõe ao trabalho artístico o calendário de um ano.

R.A. — E é um modelo muito focado no evento. Fala-se pouco em projeto de manutenção, projetos que confiram permanência ao trabalho dos grupo e isso é um fator dificultador. Este é um enorme desafio.

“Tio Vânia” (Créditos: Guto Muniz)

O BEIJO — Além deste desafio, como vocês observam e analisam o teatro de rua, hoje, com mais de 30 anos de experiência?

E.M. — Acho que o teatro de rua teve um momento de explosão e o Galpão tem uma contribuição para isso. Alguns grupos que desenvolvem projetos interessantes hoje como o Terreira da Tribo (Porto Alegre), o Emboaça (Aracaju), o Tá na Rua (Rio de Janeiro), para citar apenas alguns nomes, dentre outros. Sem querer deixar fora ninguém. Mas acredito que, a partir do final da década de 1990 e começo deste século, o Teatro de Rua sofre uma retração. É claro que há ações como a dança que foi para um lado performático e buscou algumas coisas de rua que são interessantes. No entanto, eu acho que ainda é tímida a presença do teatro de rua no Brasil. Ainda mais se você pensar aqui nas regiões Sudeste e Sul — porque o Nordeste já tem uma tradição da cultura popular que se faz ali. A rua é um lugar importante para ser conquistado. Vivemos uma situação do teatro que é de sobrevivência, de dizer, um pouco aquela história que já virou folclórica, mas é verdade: Peter Brook falava que se um dia fechassem todos os teatros, ninguém ia reparar. Acho que estamos um pouco nesse desafio de mostrar também às pessoas a importância do teatro como um lugar onde as pessoas se encontram, onde uma coletividade se reúne para pensar seu momento político, social, e também para se divertir, é entretenimento… E estamos vivendo um momento difícil, tentando afirmar uma sobrevivência.

C.P. — Acho que o teatro de rua realmente sofreu um retrocesso. E acho que pela falta de financiamento e pela impossibilidade de evolução, seja do ponto de vista da dramaturgia, da estética ou de ocupação do espaço urbano. Esses aspectos, principalmente pela dificuldade de se ocupar a rua, muitas vezes um espetáculo de rua demanda mais grana para ser montado ou mais estrutura para se impor no meio da rua que um palco. Essa é uma das questões. Outra questão é quando se fala de uma democratização de acesso ao teatro, de circulação, acho incrível que o poder público não pense em políticas culturais voltadas para o Teatro de Rua. Você tem hoje no Brasil, fizemos uma pesquisa recente, 78% dos municípios não têm teatro. Aliás é curioso porque tem mais teatro até que cinema (85% dos municípios não têm cinema). Então falar em democratização, circulação e interiorização do teatro para a população no Brasil e não ter nada pensado para o teatro de rua que, pelas suas características tem mobilidade, tem uma linguagem mais popular e universal e no seu DNA a natureza de viajar, de se deslocar, é um absurdo. Acho que essa soma de deficiências — falta de financiamento, falta de uma política pública específica que atenda — leva muito a essa produção decrescente do Teatro de Rua.

R.A. — E acho que ainda tem outro fator: a legislação das cidades que tem se colocado como uma barreira para o teatro de rua. As exigências começam a ficar tão grandes e restritivas que acaba desestimulando o artista. É caro e complicado. Então, os artistas não estão sendo convidados para participar desta discussão.

C.P. — Soma-se a isso a miopia dos arquitetos que fazem um planejamento urbano com praças belíssimas, jardins, mas não há um espaço de convivência, de troca. O teatro de rua é mais do que um teatro em si. Ele é um evento cidadão. Ele coloca o teatro e as pessoas onde todos tem o mesmo direito, um espaço de comunhão. Tem uma crônica de um médico que foi assistir a um espetáculo do Galpão e ele diz que é neste espaço público um tem que ceder o espaço para o outro sentar no chão, enquanto o outro tem que entender que não dá para tampar o outro. Do lado, tem um que divide o vinho com amigos… Enfim, todos compartilham daquilo. E ele disse assim: “Quem dera se cada cidadão tivesse uma dose de teatro de rua pelo menos uma vez por mês”. Algo lindo. Porque é isso, não é só apreciação teatral, mas um evento cidadão.

E.M. — Além do teatro de rua, especificamente, o teatro hoje está com um problema grave: ele perdeu o vínculo com o público e tem tudo a ver com isso de ter virado um evento, com as leis de financiamento. Fazíamos três meses de temporada e hoje não é mais assim. São eventos de poucas semanas. O teatro era de segunda a segunda e hoje é de final de semana. Isso enfraquece o vínculo com o público.

C.P. — A gratuidade é discutida. O que tem levado o espectador ao teatro? A mídia, a escola, o professor, o ingresso gratuito? Estamos nos perguntando o que faz a pessoa sair do sofá, se deslocar até o teatro e assistir a uma peça? Neste bolo de discussão, temos batido muito na ideia de que só a interface entre educação e cultura vai levar de fato as pessoas a entender a importância da arte como um todo. Não adianta propaganda, não adianta ingresso gratuito, nem supermídia se esse hábito de apreciar uma obra de arte, o belo, o subjetivo não tiver na formação do ensino.

“Um Molière Imaginário” (Créditos: Guto Muniz)

O BEIJO — O que vocês vislubram e querem para o futuro?

E.M. — Eu quero acabar como o Molière: morrer em cena (risos). Sem querer me comparar a ele. Espero acabar assim, de preferência, no palco. Vou me sentir feliz. Gosto de atuar, de dirigir, gosto de estar no palco, é meu lugar. Damos aulas, workshops, oficinas, como artista me alimenta encontrar com pessoas mais jovens e ver como eles entram em cena, como vêem o mundo. Estamos trocando com eles.

C.P. — Eu me alimento dos projetos do Cine Horto. A gente vai se alimentando. Temos interesses que se complementam e podem dificultar também. Não é fácil. Mas é isso que faz o grupo atuar em várias posições. Atualmente fazemos essa pergunta, estamos todos na faixa dos 50: que legado a gente pode deixar? O teatro é autofágico, ou seja, quem viu, que não viu, amém, Jesus. Então, que legado a gente pode deixar? O que queremos daqui a 20 anos? Como planejar a vida de tal forma que mesmo com minha coluna e joelho dando pau, eu possa continuar exercendo uma atividade criativa. Pode ser na direção, escrevendo. O que podemos continuar fazendo? Tem um período da vida que a gente quer alimentar o próprio umbigo. A gente se acha o tal e portanto quer fazer sempre. Só que chega outro período da vida que a gente quer abrir espaço para que outros façam, que outros bebam da nossa experiência, ou que a gente aprenda com eles para fazer outra coisa de outra forma. Estamos numa fase de preparar um campo para que outros venham arar e plantar. Temos um projeto de uma nova sede que é para daqui a 20 anos. Terei, se tiver aqui, 76 anos. Vamos estar aguando os canteiros da nova sede e o povo lá fazendo teatro.


Originally published at www.obeijo.com.br on June 24, 2015.