O seu machismo me mudou

Tenho uma história pra contar, mas também, a minha avó dizia que eu sempre tinha uma história ali, na ponta da língua, a qualquer hora do dia. Acho que é um jeito carinhoso de me chamar de tagarela, mas tudo bem também.

Existe um motivo, além da óbvia luta por direitos e igualdade, que me fez abraçar o feminismo. Aliás, não apenas um. Esses dias um amigo que eu não via já tinha um tempo comentou que eu andava com muita raiva de homens pelas redes sociais. O que acontece é que eu posto muito sobre atitudes machistas que a nossa sociedade decidiu achar normal e nada disso que acontece pode entrar no filtro de normalidade.

Embora eu goste muito de contar histórias, essa em especial me fez relutar um pouco em contar publicamente porque além de ser uma história triste, ela me deixa exposta, com uma painel de fios desencapados. Mas eu acredito que de toda experiência traumatizante ou ruim, a gente ganha também um aprendizado. Então respira fundo comigo e vamos lá.

Tudo começou com o meu primeiro namoro, quando eu tinha 15 anos. Acho que não é segredo pra ninguém que era um relacionamento abusivo. Comigo aconteceu tudo que se pode imaginar que acontece em um relacionamento abusivo: gaslighting, abuso (psicológico e físico), violência, traição — eu senti tudo isso na pele. E não é tipo de coisa que a gente esquece, eu nunca esqueci. Eu sobrevivi, porque era isso mesmo, uma sobrevida. Só que isso tudo que aconteceu, mudou quem eu era e foi inevitável.

Eu saí desse inferno de vida e entrei em outro relacionamento e era um tal de "você podia ser mais feminina, né" o tempo todo. Não existe isso de ser mais ou menos feminina, mas de alguma forma eu me sentia errada. Sentia que tudo que eu tava fazendo tava errado porque era um julgamento atrás do outro. Comecei a acreditar que tinha algo de fato errado comigo. Tinha o fato também de que eu sempre acompanhava ele, em tudo que ele pedisse, mas ele nunca estava comigo nos meus programas — a verdade é que eu namorava com ele, mas ele não namorava comigo.

Depois desse namoro, eu segui sem entrar em um relacionamento por um bom tempo. Mas as minhas experiências com meninos foram de mal a pior. Eu só tô contando aqui os casos mais absurdos, mas a conta é bem maior do que isso. Teve um cara que eu conhecia tinha um tempo já, mas eu namorava na época e então a gente nunca tinha saído com esse tipo de intenção. Mas quando solteira, saímos algumas vezes e tava indo tudo bem, até a hora que ele falou, em alto e bom som: "ah Tati, a verdade é que eu só quero te comer". Rapaz, não me entenda mal, eu gosto e muito de sexo, talvez bem mais do que ele mesmo, mas não sei, acho que não se fala isso desse jeito.

Mais um tempo bem solteira depois do episódio "honesto demais"conheci um cara e com ele sim me envolvi por bom tempo. A primeira metade desse relacionamento foi boa, bem boa e nunca teve o título de namoro. E na segunda metade isso virou um problema, porque o cara surtou que não queria namorar — mas ninguém nunca falou que eu queria. E terminou e voltou e terminou de novo e ficou com outra menina na minha frente. Depois voltou de novo e esqueceu de me avisar que tinha voltado apenas com a intenção de uma transa casual mês sim, no outro não. Sim, ele me chamava e eu ia porque realmente gostava dele e depois disso ele sumia, aparecia. Me deixava louca, era isso que ele fazia. E depois se fazia de coitado para os amigos e me pintava de louca pra todo mundo. Descobri recentemente que ele fazia isso com uma atuação que merecia até um Oscar.

Várias coisas aconteceram comigo nesse meio tempo: desde ghosting (aconteceu MUITO), até um cara que começava a transar comigo enquanto eu tava dormindo e ao episódio glorioso de um rapaz que, ano passado me disse que não queria se envolver com ninguém porque estava em uma fase difícil e uma semana depois (sim, você leu certo) estava namorando. Tirando tudo isso, ainda tinha os caras que agarravam e forçavam beijo na balada.

Isso tudo, que da missa não é nem a metade, me mudou e muito. Eu virei uma pessoa traumatizada, com síndrome de abandono e uma autoestima que por pouco não existe. O machismo muda tudo, muda a forma como as mulheres se enxergam.

Eu falo muito sobre feminismo, eu defendo com unhas e dentes e acredito muito que não basta se indignar, é preciso informar o máximo possível para que essas coisas não aconteçam com outras meninas.

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