Precisamos abrir os olhos. “Às vezes o suicida está na sua frente e você não vê”

Dois casos trágicos chamaram a atenção da sociedade nesta semana. Segunda-feira, 29, o motoboy Carlos Ti On Martins Kon, de 41 anos, segundo testemunhas, jogou o filho e depois se atirou no vão do prédio do Fórum Trabalhista da Barra Funda, em São Paulo. No mesmo dia foram encontrados, no Rio de Janeiro, os corpos de Nabor Coutinho, 43, de seus dois filhos e de sua esposa. Ele é suspeito de ter matado os três e depois ter cometido suicídio.

Nos dois casos houve cartas que teriam sido escritas antes das mortes. No caso de Kon, o bilhete dizia: “às vezes tem um suicida na sua frente e você não vê”. A carta do episódio Nabor mencionava, entre outros pontos: “Sinto um desgosto profundo por ter falhado com tanta força, por deixar todos na mão. Mas melhor acabar com isso tudo logo e evitar o sofrimento de todos”.

Apenas as investigações policiais podem comprovar se os dois exemplos mencionados acima são de fato suicídios. Porém, em função de sua repercussão, estes casos servem como mote para aprofundar a reflexão sobre o tema.

Nós vivemos em uma sociedade que cobra sucesso, saúde e que evita a dor e a morte. Só que isso cobra um alto preço. O psiquiatra Diogo Lara contou à Revista Psique alguns dados preocupantes.

“A pergunta do estudo pede para o voluntário responder se alguma vez já passou pela sua cabeça a ideia de se matar. Enquanto 40% nunca tiveram tal tipo de pensamento, 43% já pensaram alguma vez em suicídio, mas não seriamente. Já 11% da amostra pensaram seriamente em se matar e outros 6% já haviam tentado o suicídio”.

Dr.Lara ainda relata, na entrevista, que as taxas de suicídio têm aumentado constantemente no Brasil, principalmente em homens e pessoas com menos de 50 anos de idade.

Um amigo me perguntou se era de fato verdade que existe uma regra “não dita” nas redações de evitar noticiar casos de suicídio. Expliquei a ele que existe sim, um cuidado para que seja evitada a “glamourização” dos casos. No entanto, é necessário romper o silêncio e falar sobre o tema, até para ajudar quem precisa de ajuda.

Abrindo a caixa-preta da morte

Recomendo o livro “Sobre a Morte e o Morrer”, de Elizabeth Kubler-Ross. Ele ficou famoso por descrever os “cinco estágios” enfrentados pelas pessoas que estão morrendo: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.

No meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), entregue em 2005, estudei o tema dos Cuidados Paliativos, que são um conjunto de tratamentos cujo objetivo é cuidar dos sintomas físicos, sociais, emocionais e espirituais das pessoas fora de possibilidades de cura.

Na ocasião eu conversei com o Dr. Luís Saporetti, do Grupo de Cuidados Paliativos do HC-USP, a respeito das pessoas que desejam a morte. “A natureza do ser humano é viver”, declarou na ocasião, explicando que muitos pacientes chegaram ao consultório pedindo isso, mas que depois mudam de ideia.
“Você quer acabar com o sofrimento ou com o sofredor? Você, quando mata as pulgas, mata o cachorro também?”, questionou.

Ou seja, é importante abordar o tema da prevenção do sofrimento e da dor. Dr. Lara defende uma estratégia que contemple desde a infância, com a proteção a abusos emocionais, e que passa também por técnicas de processamento de traumas.

Por isso mesmo a minha mensagem final é: hoje em dia o tratamento avançou muito. Há muitas técnicas novas na psicoterapia, na farmacologia, que fazem com que seja possível ter grande qualidade de vida. O primeiro passo é reconhecer o problema, pedir ajuda e melhorar.

Não dá para ficar neutro quando se contempla a vida humana em sofrimento. Nossa existência vai muito além disso.

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