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Qual a responsabilidade da sociedade no caso Domingos Montagner?

Tive o privilégio de assistir à peça Mistero Buffo, da Companhia de Teatro La Minima, na qual o ator Domingos Montagner se divide em vários personagens na adaptação da comédia de Dario Fo. Mal sabia eu que estaria presenciando um dos últimos espetáculos deste grande ator que se foi prematuramente nessa quinta-feira (15). Presto aqui minhas homenagens à sua família e aos seus colegas de trabalho (em especial à atriz Camila Pitanga, que esteve envolvida no acidente).

Mas o objetivo deste post é falar das circunstâncias em que ocorreram a morte do ator e, principalmente, da responsabilidade do poder público, da imprensa, da sociedade em geral diante desta tragédia.

Segundo reportagem publicada no Portal G1, a área não tinha risco de sinalização indicando risco de afogamento no local embora o próprio delegado que cuide do caso, Antônio Francisco Filho, tenha dito ao portal que “é comum afogamento naquela região”.

Ainda de acordo com a reportagem, o local do acidente foi reinaugurado, recentemente, pela Prefeitura de Canindé de São Francisco. As placas que indicavam o risco de afogamento e os salva-vidas foram retirados da área.

O delegado declarou ao G1 que está aguardando a manifestação do Ministério Público para investigar qual a responsabilidade da administração pública neste caso.

Aliás, ao invés de o próprio título da reportagem ressaltar a falta de sinalização do local, as investigações do MP, está assinalado somente: “Morte de Montagner: ‘Grande e absoluta tragédia’, diz delegado”.

Não, senhor delegado, não concordo com esta explicação. Não, senhor jornalista, não concordo com este título.

Eu tive a curiosidade de entrar no site da Prefeitura de Canindé de São Francisco.

Não há uma nota sequer sobre a tragédia, mas é possível visualizar uma notícia, datada de fevereiro de 2016, a qual diz que a prefeitura iria colocar guarda-vidas durante o carnaval na Prainha (local do acidente com Montagner).

A nota ainda diz que esse é “um dos pontos turísticos mais visitados nos dias de festa”.

Descobri um levantamento, feito pelo site ONDDA, que mostra que ao menos dez pessoas morreram afogadas no Rio São Francisco somente em 2016 (dá mais de um morto por mês).

Volto aqui à pergunta colocada no título: “qual a responsabilidade da sociedade nesta tragédia?”

1. Precisamos cobrar mais campanhas de prevenção a afogamentos. Medidas simples, como por exemplo aprender a boiar, são fundamentais. Este post contém muitas dicas úteis para evitar afogamentos e para sair do sufoco.

2. Precisamos cobrar mais aulas sobre situações de emergência. Aí você pode falar da dificuldade que seria ter piscinas, por exemplo. Concordo. Mas acredito que todo mundo deveria saber medidas básicas de primeiros socorros e de sobrevivência na água. Aprendemos tantas coisas que não utilizamos no futuro (lembro até hoje de uma aula que tive sobre tipos de nuvem), e não sabemos direito como lidar com situações de emergência.

3. Precisamos cobrar mais sinalização adequada nos locais de banho. Você pode dizer que o Brasil é imenso, que há milhares e milhares de quilômetros de rios, mas em geral o povo ribeirinho sabe onde é perigoso nadar e onde não é. É só colocar no local uma placa de perigo e um salva-vidas para os períodos de visita intensa.

E o principal: precisamos parar de encarar estas mortes com tanta naturalidade. É fatalidade, é. É tragédia, é. Mas dá para adotar medidas para se evitar novos casos. Cada pessoa que morre afogada é uma vida que se esvai. Vida cheia de possibilidades, de sonhos, de planos não realizados.

A sociedade precisa aprender a preservar ao máximo a vida humana, nosso maior bem.