Vipassana sem romantismo

Chegou a hora de mostrar como me tornei um cavaleiro de ouro

templo de meditação do Dhamma Sarana em Santana de Parnaíba — SP

O Vipassana é um curso-retiro de silêncio e meditação, que acontece gratuitamente em vários lugares do mundo (existem cerca de 176 centros para ser mais exata). Tudo o que eles “possuem” e “ensinam” é através da energia da troca, do serviço voluntário. Só pessoas que fizeram o curso podem doar ou servir. “Acreditamos no dhama e através dele tudo flui” disse um dos organizadores. É dando que se recebe, não o contrário. Não é sectário. É um curso sério sobre a técnica (ninja) de concentração e meditação Vipassana. É preciso deixar isso claro: se você deseja aprender a técnica, não importa sua religião; lá você vai aprender a meditar. Meditar não é religioso (pode ser se você quiser); meditação antes de mais nada é conseguir se entregar e ficar no momento presente. Como assim? Continue a nadar…

meu trabalho é enaltecer o poder deste cavaleiro de ouro, Shaka de Virgem

Tinha ouvido falar do Vipassana 5 anos atrás, numa jornada de outono que fiz no maravilhoso Aos Filhos da Terra, aqui em Cotia, São Paulo. Foi um dia no qual aprendi MUITA coisa. Lembro como se tivesse sido ontem, aquele 24 de março de 2012. Dentre as coisas que ouvi falar lá, destaco a Geometria sagrada, a meditação Merkabah, e o até então desconhecido: Vipassana. Em março deste ano (veja só, mesmo mês, mesma estação) quando perdi o emprego, minha amiga (e terapeuta reencarnacionista maravilhosa), Mirtiline, comentou “Min, agora você pode fazer o Vipassana” (ela sabia que tentei ir algumas vezes mas sempre ficava complicado ser dispensada do trabalho).

Entrei no site para ver se tinha alguma vaga e obviamente não tinha. Por ser gratuito é um pouco concorrido. Fiquei triste e algo apitou no meu cérebro “vou entrar no site amanhã de novo”. Quando entrei, tinha ficado habilitada a opção de Lista de Espera para um curso que aconteceria em duas semanas. Me cadastrei e recebi um e-mail no mesmo dia confirmando que havia uma vaga. Mais tarde, fiquei sabendo que as pessoas que participaram deste curso comigo se inscreveram em Janeiro (ora ora parece que temos uma sortuda por aqui). Essa vaga era mais que minha. Era um presente para uma cabecinha calejada. Dois dias depois apareceu até carona (eles possuem um sistema de caronas super organizado dentro do site), tirando mais um “talvez” que eu tinha criado, já que eu não sabia como chegar na cidade e no sítio que é um pouco afastado. Para completar o outro “talvez” (ou condições sabotadoras que fui inventando) eu estava freelando para uma agência e comentei com as donas, que prontamente ficaram felizes e me deram a maior força, ou seja: fudeu, eu tinha que ir mesmo. Foi muita coisa dando certo junta e isso nunca acontece, né? A gente desconfia logo.

Na carona conheci pessoas incríveis e durante os 40min de viagem, trocamos muitas experiências de coisas que nos “transformaram”, nossas catarses. Nos questionamos sobre aguentar meditar mais de 10h por dia. Eu já tinha passado por várias fases: empolgação, medo, preocupação com a coluna — será que vou aguentar tanto tempo sentada?, será que a comida lá é sem lactose? será que lá faz muito frio à noite? — jamais me preocupando em ter que manter o silêncio. Eu amo o silêncio. Quando criança queria ser freira; adolescente queria ser missionária; mais velha pensei em ser monja — a ideia de ficar sozinha e enclausurada sempre me atraiu e meio que já faço isso naturalmente. À medida que conversava com os novos amigos no carro, me empolgava bastante. Muita sintonia com as pessoas, uma delas, fazendo o Vipassana pela segunda vez, “É real. É incrível”, lembro bem quando ela disse.

Lá é tudo muito impecável de organização. Chegando você entrega o celular para eles, livro, caderno ou qualquer coisa que possa te tirar no propósito da meditação. Entreguei sem sofrimento, foi tudo bem. Odeio celular mesmo.

A alimentação é vegana (com opção de leite e queijo algumas vezes), mas eu como lactointolerante estava empolgada com passar quase 11 dias vegana; queria ver como meu corpo iria se comportar. Praticamente já eliminei carne da minha vida, mas o peixe não, nem o industrializado. Tenho duas joinhas comigo: cistite instersticial (que me causa uma certa “alergia” a minha própria urina, ou seja, quase todo líquido deixa minha bexiga irritada /inflamada /hiperativa) e síndrome do intestino irritável (quem é meu amigo sabe que eu só frequento lugares com acesso fácil ao banheiro pq a coisa aqui NUNCA ESTÁ REGULAR aka tô sempre me cagando). Estava pronta pro teste da alimentação. Bobinha… alimentação era o de menos.

Preocupada com o lance de ficar 12h sentada, comprei uma cadeira de meditação fofíssima na Loja Vitrine Zen. Pouco antes eu havia descoberto a existência dessas cadeiras, num curso bem lindo que fiz com a terapeuta Vanessa Rosolino, o Conectar e Transformar (inclusive está com matrículas abertas). Levei minha cadeira, manta, cobertor e estava pronta. “Vai ser moleza, adoro ficar sem falar com ninguém”.

O que eu não estava pronta era para ter tanto tempo livre para falar comigo mesma.

O primeiro dia foi tranquilo: tudo começa às 4h da manhã e, apesar de amar acordar tarde, o que é acordar às 4h da matina para uma filha de padeiro, né mores? O único probleminha é que eu acordo com MUITA fome de manhã e o café era servido às 06h30 (antes disso você já estava meditando, certo?). Meu quarto tinha 7 mulheres no total. É proibida a comunicação verbal, gestual e olhares também. É você com você, the end. Nem dava para comentar com o pessoal que a comida tava incrível. Depois de ficar muito feliz com o CAFÉ DA MANHÃ MARAVILHOSO, almoço ABSURDOOOO… veio o lanche da tarde: duas frutas e só. Cabou. Só dia seguinte no próximo café. Pensei: vou morrer, desmaiar, ter dor de cabeça. Bem… não rolou nada disso. Por que?

Porque as horas de meditação eram divididas entre um treinamento quase militar de concentração e… minha mente. Eu não estava pronta para ela, como já disse ali em cima.

No quarto dia eu senti o cansaço, puramente mental. Eu não aguentava mais lutar contra a minha mente, que se mostrou um fluxo louco de pensamentos catastróficos: meu gato morreu e eu não sei. Minha família sofreu um acidente. Meu irmão foi envenenado. Com certeza alguém que amo está morto. Será que o Paul McCartney tá bem????

Foi disso para pior.

Meu bálsamo de calmaria era à noite, quando tinha a palestra do Goenka (conheça esse ser incrível) onde ele brincava dizendo muitas das coisas que passaram por nossas cabeças durante o dia. Era comum ouvir alguns sorrisos baixos das pessoas se identificando. Tudo o que ele dizia era incrível. Aprendi TANTO. E ele sempre falava “apenas observe”. Não tenha raiva dos seus pensamentos. Veio? Observe ele. Observe como seu corpo responde. Quais são as sensações?

Observe. Observe. É impermanente. Anicca. Anicca.

Depois da palestra dele, tinha mais uma hora de meditação e na sequência a professora ficava disponível para perguntas de alunos. Fiquei algumas vezes para ouvir as perguntas e me senti frustrada: as pessoas estavam “vendo coisas”. Eu não estava vendo nada. Eu estava perdida na minha mente, em meio à imagens dignas de filmes de terror, onde eu perdia as pessoas que eu amo. Apego. O Goenka falava tanto do apego. Como conseguir não se apegar tanto ao que amamos? Observe. Anicca. Anicca. Confesso que não me irritei com a repetição do discurso porque concordava com o discurso. É apego sim. É impermanente sim. É verdade.

nois abraça msm

Comecei a fingir que minha mente era um programa de TV. Fiquei lá assistindo. Era muito difícil. Senti o peso da criação cristã. A todo o tempo vinha minha própria voz me recriminando: NÃO ACREDITO QUE VOCÊ PENSOU ISSO, TATIANE!”. Então aconteceu o que teoricamente eu não deveria ter deixado: deixei acontecer. Dei asas às paranoias. Decidi fazer umas 10 plásticas. Depois decidi largar tudo. Depois comecei a passar o ppt mental com o rosto de todas as pessoas que eu magoei. Quis morrer. Tentei passar o ppt com as pessoas que me magoaram. Contei, deu 47 slides. Lembrei da minha infância toda, e a minha infância era uma lembrança borrada na minha mente — só que eu nunca tinha passado 10 dias com 12h de mente livre por dia, né, mores? Me julguei. Nossa, como eu me julguei. A essa altura, eu já tinha parado de meditar e me perdi dentro da minha cabeça. Compus um reggaeton e um frevo. Gente, a mente NÃO PARA. Ainda bem que vi esse vídeo do Osho depois.

No oitavo dia, eu estava exausta de mim mesma. Já tinha entrado em buracos de minhoca dentro da minha cabeça, tinha conhecido coisas que nem sabia que existiam. Coisas que nunca dei importância e que na verdade são importantes: só que eu fugia delas. Terminei descobrindo que durante o dia eu respiro pela narina direita e à noite pela esquerda…WTF. A gente nunca se observa muito, né? Observe. Qual a sensação?

Dor. Eu sempre tenho dores. Dores rápidas, de 1s, 2s. Microdores. Em qualquer local do corpo. O que eu não sabia é que elas apareciam depois que eu tinha algum pensamento doloroso para mim. Pimba.

No nono dia eu estava com uma cratera no estômago. Dias de vômito mental. Foi a primeira vez que senti muita fome, só que estava enjoada. E aí fui ao banheiro e vomitei. Do nada. E então, me senti bem. Maravilhosa. Feliz. Nossa, que vômito bom. Nunca associei vômito a algo bom… e nossa. ÊTA VÔMITO MARAVILHOSO.

Voltei para meditação decidida a focar novamente nas técnicas (são muitas coisas e sim, é do caralho, sim eu me senti um cavaleiro de ouro em treinamento. me senti o bátima) e feliz. Por que eu estava feliz? Em algum lugar da minha “mente”, havia a sensação de que eu tinha vivido o Vipassana exatamente da forma que eu deveria ter vivido. Que não existiam aquelas visões como as das outras pessoas acontecendo para mim, porque eu estava passando por um processo de limpeza de mim mesma. Eu me saboto, eu me boto para baixo o tempo todo. Eu tinha feito isso por 9 dias, 12h por dia. Quando a gente faz uma faxina, a gente precisa lidar com a sujeira. Eu não caí na falácia que minha mente poderia inventar de “olha como sou iluminada /concentrada /sábia”. Eu caí dentro de mim mesma. E que baque, meus amigos.

seu sabidão

Eu estava passada com o ponto catastrófico que minha mente poderia ir, mas mais que isso, estava chocada com o meu próprio discurso de desvalorização por mim mesma. Como eu posso me tratar assim? Meu Deus, como eu posso pensar isso de mim, eu não penso isso nem de quem eu não gosto. Por que eu faço isso comigo?

Catarse.

São duas vivências COMPLETAMENTE diferentes, a Ayahuasca e o Vipassana, mas certa vez me disseram que se pareciam pela intensidade de coisas que te atingem. Lembrei da Aya no último dia, quando pude falar.

Nas experiências que tive com ela (outros textos, caso eu escreva um dia), ao final do efeito, eu tive sensações de profundo pertencimento e gratidão (palavra que tantos zoam hoje em dia) por tudo e todos os que estão na minha vida. No Vipassana aconteceu o mesmo.

Eu não posso ser monja, nem viver em clausura. Eu amo meu gato. Eu amo minha família. Eu tenho os melhores amigo do mundo. Eu não quero ficar longe deles por enquanto. Eu amo falar com eles. Olha só, EU AMO FALAR. Eu nem sabia disso, porra. Eu estava com uma visão romântica de mim mesma aka A MONJONA. Sombra. Pegue sua sombra e abrace, conheça-a, conhece-te a ti mesmo. Como eu aprendi. Porra.

E aí, quando pude falar com algumas mulheres, ouvi-las (como eu amo ouvir as pessoas), saber que noiaram, tiveram medo de perder família, filha, bichinho, etc. Foi tão acalentador. Ficamos encantadas com o quanto amamos as pessoas. E então, acontece mais uma meditação.

E ela foi a melhor meditação da minha vida.

Porque eu tinha acabado de trocar experiências.

(parece que alguém andou se conhecendo né mores)

Enquanto no 7º dia eu jurei que nunca mais passaria por um Vipassana novamente — por medo da minha própria pessoa, por descobrir que eu idealizei muita coisa sobre mim — hoje, no 11º dia pós Vipassana, eu sei que vou voltar.

Não agora.

Ainda estou de ressaca conhecendo a Tati, eu nem sabia que ela era assim.

Se não Goenka pra que veio, né? (inventei essa piada no segundo dia e esperei 8 dias até poder falar para soltar ela, foi terrível)

PS1: esse texto não foi nem será revisado, soltei e saí correndo.

PS2: Se eu recomendo? SIM.

Para quem quiser saber mais (até mesmo porque eu contei mais da minha vivência, não do Vipassana em si):

> Site oficial do Vipassana (explica tudo e é onde você se inscreve): https://www.dhamma.org/pt/

> Dhamma em Santana de Parnaíba — SP: http://sarana.dhamma.org/