Capítulo 1

Eu te aguardava ansiosamente. Já não podia controlar minhas pernas bambas tomadas pela emoção em te ver saindo da área de desembarque. Aquela viagem tinha sido longa, mas você estava voltando para mim. Olhei em seus olhos e você penetrou os meus. Demos um longo abraço. Um suspiro de alívio. Um beijo.


“Vamos comer uma pizza mais tarde?”

“Não, hoje eu fiz jantar para você”, respondi com a imagem do meu apartamento decorado para aquele retorno na minha mente.

“Ah para vai…não precisava.” Suas bochecas enrubesceram.

“Vamos?” Nossos olhares se entrelaçaram como o de duas crianças que estão prontas a aprontar.

Era de madrugada. Tinham poucas pessoas naquele saguão. A gente podia se divertir.

1,2,3. VAI!

Começamos a correr em direção ao final do corredor com os carrinhos pesados. Era uma competição de criança que fazíamos até hoje nos voôs que chegavam de madrugada. Os seguranças nos olhavam com um ar de reprovação, mas as gargalhadas compensavam.


“Trouxe para você”

Mais um objeto de decoração para a minha prateleira. Erá fácil dar presente pra mim, mas a precisão impressionava. Abri. Uma porcelana holandesa. Linda. Retribuí com um risotto, um vinho e uma noite de amor.

“Você trabalha amanhã?”

“Amanhã não. Tirei uns dois dias de férias. Pedi para o chefe. Ele deixou. Achou que eu ia deixar você escapar?”

“Melhor para mim. Posso aproveitar mais.”

Estávamos ali em um abraço saudoso que parecia durar horas. Sem problemas, sem desafetos. Aquela viagem tinha nos transformado. Até mesmo a mim que fiquei.

Meu celular vibra. Minha irmã. Tenho que me desfazer do momento sublime.

Eu atendi e ela chorava e tentando me dizer o que havia acontecido. Me enfureci.

“Como assim o carro bateu? A essa hora da noite? Já não disse que não é para voltar com gente bêbada?”

Ela chorava de novo.

“Tô indo. Tô indo.” Desliguei. Mais essa agora. Tinha que resgatar a irmã e abrir mão da noite.

De dentro dos cobertores eu ouço:

“Que foi amor? A Ciça tá bem?”

“Tá. Só tá assustada. Vou pegá-la e levá-la pra casa. Você fica ou me acompanha?”

“Vou com você, claro. Deixa eu me vestir. E você também. Não fica com raiva. É adolescente. A gente também se metia em roubada.”

“Mas justo hoje?”

“Vamos lá, pegamos a sua irmã, depois voltamos e fica tudo bem.”

Chave do carro, dinheiro, kit primeiros socorros e a frase: “é a segunda que você me deve esse mês”, já estavam no checklist. Entramos no carro damos um beijo e lá vamos nós atravessar a cidade de madrugada.

Apesar de querer estar na cama naquele momento, as avenidas da madrugada paulistana me encantavam. Podia desfrutar um pouco mais da minha BMW. Como eu amava o ronco forte e ao mesmo tempo suave daquele motor que com um simples toque no acelerador já mostrava sua potência. Ouvi um outro ronco. Dessa vez não era do motor. Olhei pro lado e ri. O que o cansaço não faz com as pessoas.

Radial Leste. Tão engarrafada de dia e tão livre à noite. Abri a janela e senti o frescor do vento. Viajei naquela sensação. Até que eu vi a tragédia.

Aquilo não era um carro, era um monte de metal amassado e desfigurado. Uma ambulância fazia o resgate. Dois meninos na maca. parei um carro um pouco atrás e Ciça me viu. Veio correndo. E me abraçou.”

“Que bom que não aconteceu nada pior com você. Quer me pirar? Quem são eles?”

“Eles são veteranos. Saí do trote e fomos na balada. Desculpa, eu não sabia que eles tinham bebido tanto.”

“Um dia você ainda vai me infartar. Não quer dar uma passada no hospital? Tem certeza que tá tudo bem? Tudo no lugar direitinho? Será que eles não precisam de ajuda?”

“Tá tudo certo. Só preciso de um banho e de uma cama. A Bá ligou para a família deles. Tão ali ó.”

Não tinha mais nada o que fazer. Os meninos já estavam com a família deles e eu estava cuidando da minha. Meus pais não podiam nem sonhar que aquilo tinha acontecido. Iam prender minha irmã em casa. Acho que depois do susto ela aprendeu a lição.

“Entra atrás que temos companhia.” Ela riu

“Companhia que tá babando no mundo dos sonhos. Cansaço dá viagem né?”

Minha irmã conseguia ter humor mesmo nas piores situações. Ela também dormiu no banco de trás. Eu poderia curtir meu ventinho novamente.

“Ciça! Acorda vai! Chegamos.” Ela saiu do carro ainda com sono e cambaleando. Me deu um abraço.

“Não sei o que seria de mim sem você”

“Aprende que nem sempre eu vou estar aqui pra te salvar mocinha. Mas lembra, qualquer coisa é só ligar.” Ela sorriu meio envergonhada da situação. Ossos do ofício de se ter uma irmã mais nova: acobertar as besteiras.

“Agora é a hora de você acordar e subir comigo para a cama.”

“Que? Sua irmã já foi? Nem vi”

“Já, já foi. Como ela mesma disse: você tava babando no mundo dos sonhos.”.

Estávamos nos arrastando até o nono andar. Cansaço do dia chegou com tudo. Nem trocamos de roupa. Só desmaiamos na cama.

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