Nem todos podemos ser artistas — será?

Foto de Dustin Gaffke

Danielle Ganek era diretora criativa das Galerias Lafayette, em Nova York. Quando sua primeira filha nasceu, a Lafayatte fechou. E foi assim que ela finalmente sentou a bunda e escreveu — e publicou — seu primeiro livro, “Lulu Vê Deus e Duvida”, lançado no Brasil pela editora Rocco. Li há uns bons seis ou sete anos, emprestado por alguém que me disse “acho que você vai gostar disso”. Essa pessoa estava mais certa do que pensava: desde então, e até hoje, uma determinada passagem não me sai da cabeça.

“- Existem duas espécies de pessoas neste mundo. As que acreditam. E as que duvidam.
Ele se volta para me olhar, como se estivesse tentando descobrir a qual delas eu pertenço. Eu diria que estou entre as que duvidam. Com toda a certeza, uma descrente. O conde balança a cabeça como se entendesse, apesar de eu não ter dito nada.
- Eu sou dos que acreditam — diz ele. — O poder transformador da arte é a única religião que professo.
(…)
- Nem todos podemos ser artistas — digo.
- Não — ele responde. — Não, não podemos. E para aqueles de nós que acreditam, isso pode ser muito doloroso.”

Eu sou do tipo que acredita. Venho acreditando desde que percebi que a realidade muitas vezes era bem doída, e que a ficção oferece as ferramentas que eu precisava para passar por tudo com menos danos sofridos e, ainda, criando algo novo. Eu sou do tipo que acredita. Meus amigos são do tipo que acreditam. Mas nem todos podemos ser artistas. E para aqueles de nós que acreditam, isso pode ser muito doloroso.

Assim como eu, meus amigos também estão tentando. E, muitas vezes, isso vem sendo muito doloroso, de fato. Aos 30 e alguns anos, vejo vários deles mudando de carreira e realizando seus sonhos. Fico feliz. E um pouco esperançosa nesse tal poder transformador da arte. Mas nos últimos tempos, a ideia de que nem todos podemos ser artistas vem martelando na minha cabeça.

Quando é o momento de desistir? Será que estamos insistindo demais em algo que nunca vai acontecer? Eu não sou artista; não posso me dar a esse luxo, tenho contas a pagar. Não posso ser artista se no fim do mês não tiver o dinheiro do aluguel. Ou seja, não posso ser artista se eu tiver que ser só artista. Quero ser artista escrevendo. Aí, depois de bater a cabeça no teclado algumas vezes, o universo frequentemente nos coloca nessa sinuca de bico: e então, minha filha? Você acredita ou você duvida?

Apesar de tudo, eu ainda sigo acreditando. Nem todos podemos ser artistas. Tudo bem. Isso eu já entendi. Mas espero, de verdade, que um dia eu — e meus amigos — possamos ser. Não quero desistir. Nem duvidar.

Texto originalmente publicado na Revista Carne Seca em 25 de julho de 2014

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