O clichê do jornal de todos os dias

Para quem vive de escrever, perder a inspiração é um luxo que pode custar caro. Nas redações de jornais, o chamado caboclo tranca-lead se manifesta nas horas mais impróprias — normalmente quando o sujeito tem em torno de 30 minutos para parir uma matéria, ou um assunto tão cabuloso pela frente que não sabe nem por onde começar. Acredite, eu estive lá.

Muitos escritores relatam casos de bloqueio criativo em suas carreiras. A banda sueca Peter, Bjorn and John batizou seu terceiro álbum de “Writer”s Block” — curiosamente, o mesmo que traz a pérola “Young Folks”. Esta informação foi completamente gratuita e fora de contexto, obviamente.

Quando escrever é seu ganha-pão e a inspiração resolve tirar um dia de folga para tomar drinques de guarda-chuvinha numa praia a quilômetros de distância, a situação se torna, como dizia minha avó, periclitante. O pobre repórter, sem saber o que fazer, transforma o primeiro parágrafo da matéria no terceiro. Escreve mais duas opções de abre para seu texto. Digita todas as frases do entrevistado de uma só vez, na esperança de encontrar ali alguma tábua de salvação. Existem chances de o entrevistado ser uma porta. As frases não ajudam, só atrapalham. O pobre jornalista, então, olha para o relógio. O tempo está passando. O prazo está acabando. Muitas vezes, o coitado só quer ter uma vida social, para dar uma variada. No desespero (e na esperança de que aquela matéria passe batida), ele resolve parar de sofrer. Tudo o que lhe resta é o clichê. É como dizem: uma vez no inferno, melhor abraçar logo o capeta (um conselho que não deve ser aplicado com frequência, certamente).

“Milhões de pessoas se reuniram na praia de Copacabana para saudar a chegada do novo ano com direito a um verdadeiro show de luz e som que agradou a todos os gostos”.
“Atenção, cinéfilos de plantão: o Festival do Rio está de volta com uma maratona de filmes para ninguém botar defeito”
“Já é carnaval em Ipanema: o Simpatia É Quase Amor, com seus foliões irreverentes, tomou conta do bairro na tarde deste domingo”.

Em casa, no aconchego do seu sofá, o leitor jamais saberá o que se passou na cabeça deste coitado, que irá se martirizar, por dias, por ter cometido frases como essas. Dias depois, segundos antes de dormir, ele pensará no lead perfeito. Ao escovar os dentes, encontrará o link exato entre uma informação e outra. Aquela frase do entrevistado não parece mais tão ruim assim. Ele vai sofrer. Mas hoje é dia de parir outra matéria. Com inspiração ou não: afinal, o jornal não espera ninguém.

Texto originalmente publicado na Revista Carne Seca em 12 de setembro de 2014