Desculpa.

Perdoa o vacilo e não desiste de mim.

Foto por 10 Mix

Eu sei, cara.

A gente se encontrou poucas vezes, conversou online sobre como tinha tanta coisa em comum, por que não combinava alguma coisa ao vivo? Chegou a ter data e horário, mas no dia, eu tive um problema e a data caiu e nunca mais levantou.

Faz tempo que eu não apareço em um treino, e eu estou tentando ir mais na pista, saudade de patinar e de ver vocês. Deixa só eu melhorar de grana e eu vou, sério.

Você mudou pra minha cidade, então a gente precisava se ver, finalmente, eu te acho um amor de pessoa, quero muito te encontrar, vamos sim, só dizer que dia você pode. Mas nesse dia que você pode eu não posso, e nesse que eu posso você não pode, e acho que não vai rolar, mas eventualmente rola.

Eu prometi aparecer no encontro do pessoal, fecharam a data considerando o dia que eu podia, além do dia que outras pessoas podiam, mas eu tive um monte de problemas, no máximo dou uma passada. Quero ver todos vocês, quero mesmo, é que tá foda, só tenho esse dia pra resolver as tretas.

Toda semana pós treino a gente bebia, mas agora nunca consegue se encontrar, vamos marcar alguma coisa, vamos beber, por favor. Esse sábado não rola, agora que vocês moram do outro lado da cidade tá complicado, dá na outra semana? Eu to toda enrolada, mas to com saudade.

Todo dia estamos conversando no mesmo grupo amorzinho de Whatsapp, como se fosse um grupo de família só com os primos revolucionários que odeiam os tios racistas. Você trabalha no prédio bem na frente do meu, a gente não pára de falar quando se encontra, e precisa muito almoçar dia desses. Deixa só eu me acostumar com a rotina aqui.

Eu juro, to tentando.

To com saudades, vamos sim.

Eu to enrolada, mas vamos.

Só marcar.

Desculpa, mas semana que vem rola.

Eu não estou mentindo. Eu nunca estou mentindo. Queria eu estar mentindo, ser uma esnobe. Queria eu estar apenas fugindo porque não quero olhar na cara das pessoas; daí bastava querer e eu encontrava todo mundo. O problema é que eu quero muito. Eu realmente sinto falta das pessoas, sinto falta do carinho dos meus amigos. Me aninho no colo do meu namorado todo final de semana e no colo do meu urso de pelúcia durante a semana. Me escondendo do mundo, me escondendo de tudo.

Sabe, me consome muito o dia-a-dia. Interagir me consome, até quando me alegra. É mais fácil passar o sábado e o domingo dormindo ou vendo seriado. É mais fácil almoçar lendo um livro, escolher o que eu vou comer sozinha. É mais fácil deixar o dia seguir o curso de carona e ônibus e trabalho e ônibus e banho e cama. É tudo que eu faço, onde eu encaixo outra coisa? Eu não sei, porque eu mal tenho energia pra fazer esse básico.

Já pensei que era preguiçosa. Já ouvi que eu sou preguiçosa. Demorou muito pra eu entender que isso não era preguiça, que a energia simplesmente não vinha, que era toda sugada por algo que eu não entendia. Que pra fluir direito, eu ia precisar de remédios, e que até acertar os remédios ia demorar.

Se eu estou do seu lado, é porque eu quero muito estar lá, mas muito mesmo. Eu fiz uma força monumental para estar ali. Mas se eu não estou, não é porque eu não quero. Eu provavelmente estou em casa, deitada e vendo as fotos do rolê, chorando porque eu não estou lá. É estranho, não é? Mas é exatamente o que acontece. É FOMO (Fear Of Missing Out, ou Medo de Perder o Rolê) que chama, em inglês, inclusive.

Quando se fala de depressão, ansiedade, fobia social e tudo mais, a internet entra em rebuliço. Grita que está aqui pra ouvir, a inbox está aberta, você tem meu apoio. A verdade é que não tem. As pessoas não entendem. As pessoas acham que você é cuzona, não tem interesse mais, é bad vibe quando vai. Ah, nem chamo mais, quando eu chamo você não vai.

Eu não sou cuzona com você.

Eu sou comigo mesma.

Desculpa.

Perdoa o vacilo e não desiste de mim.