Mais bonito que a ficção

Foto por JOHNNY LAI

As minhas pernas tremiam, meu estômago borbulhava, mas eu sabia que dessa vez nenhuma playlist, técnica de respiração ou remédio resolveriam meu problema. Não era ansiedade dessa vez: era ele. Parado ali, aparentemente tão sem graça quanto eu, era a primeira vez que eu o via pessoalmente depois de um dia conversando e descobrindo gostos em comum e rindo encantada com aquele cara que trabalhava do outro lado da avenida.

“Deuses, por favor, que ao menos ele seja tão bonito quanto nas fotos”, eu pensei, indo ao seu encontro, alguns minutos antes, nervosa com a perspectiva. Porém, ao chegar na frente da livraria, ele era mais bonito. E mais alto e mais chegado em abraços apertados, nos quais eu podia enterrar meu rosto ruborizado. Nada poderia ser mais reconfortante do que aquilo. Mas minhas pernas ainda tremiam, eu ainda me sentia no recreio da terceira série. E ele fazia questão de apontar a vergonha dos dois, tão óbvia, e me encarava com um sorriso encantador.

Emendou um abraço em um beijo, em frente à uma estante lotada de quadrinhos. Um beijo doce e forte ao mesmo tempo. Suas mãos delicadamente seguravam meu rosto, e fortemente me puxavam pela cintura contra ele. Podia jurar que meus pés não tocavam mais o chão, mas era só minha cabeça que ia longe. Ao invés de me sentir mais confortável, fiquei mais sem graça ainda. Ele realmente parecia gostar de mim, e me dizia que eu era bonita o tempo todo, e aquilo só me fazia ter mais certeza de que eu não era mesmo.

Me levou pela mão em direção à avenida, que caminhamos de ponta à ponta, uma das coisas que eu mais gosto de fazer na vida. E ele nem sabia. Ele só gostava também. Eu tentava decifrá-lo a cada gesto e a cada frase, mas ele se parecia tanto com algo que eu tinha inventado como ideal em minha cabeça, que ela doía só de tentar quebrar o enigma. Ele não podia ser real, não era possível. Eu achei que essas coisas só acontecessem nos filmes e livros e séries e músicas que eu tanto gosto, mas é real. Ele era real, e eu me apaixonei. Não queria admitir pra mim mesma ali, no momento, mas sabia que era verdade.

Ele falava rápido, comentava séries diversas e livros com um brilho no olhar. Coisas que apenas nerds legítimos reconhecem uns no outros: o apreço por aquilo que a gente gosta muito.

Nos dias seguintes, nos encontramos novamente, e derreti novamente, cada vez mais e mais. E só piorava. Quer dizer, melhorava. Mas o medo aumentava. A ansiedade crescia. E se eu fizer algo errado? E se ele souber de tudo que há de errado comigo e sair correndo? É muito difícil ser cheia de problemas e conhecer pessoas novas, quanto mais se relacionar. Mas tive que engolir o medo. O medo está lá, mas tive que ir com ele mesmo, de mãos dadas comigo.

Não sei o que será dessa relação ainda. Não tenho um final feliz para essa história, pois ela acabou de começar e eu não sei o final dela. Em um mundo ideal, o casal apaixonado à primeira vista fica junto pra sempre, mas não moramos num mundo ideal. Então só podemos torcer e assistir. E viver. E se apaixonar. Cada vez mais.