Calor.

Alguma coisa que não conseguia explicar, sentia-se um tanto boba, ingênua, meio desinteressante. Era qualquer coisa de infantil. Um rubor lhe tomava a face quando, de tudo aquilo, pouco conseguia explicar. Sentia e não queria. Uma bobeira a invadiu e se espalhou por todo o corpo. Começou como cócegas, depois com mais intensidade, virou um comichão, um impulso. Era como se, de uma hora pra outra, sua pele exigisse algum contato, qualquer sinal. E ele vinha em doses homeopáticas de poesia. E mais forte a sensação a invadia como um batalhão no front, alerta, bem disposto. Ela feito mariposa na luz, atordoada, perdida, procurando palavras, cores ou sons que explicassem aquela reação. Era uma alergia que a habitava cada vez que recebia o sinal. Era toda contaminação. E seu corpo bobo produzia anticorpos, detectava um invasor estranho, ficava ali, desnorteado, à espera. Resolveu beber água. Tomou um rio inteiro. Era pra lavar, ela pensava. Pra que a água levasse todas as expectativas. Era pra lavar, ela sentia. Pra que a água trouxesse o futuro pra mais perto dela. A vida é assim, um pingo, uma coceirinha boba que daqui a pouco cessa. Sentiu-se boba mais uma vez, coçou os pés e, despretensiosamente, adormeceu.