Ela resolveu segurar as palavras já que o coração andava por aí, desgovernado, se apaixonando a cada esquina, exaltado diante da possibilidade de encontrar aquele amor que de tanto se saber, éramos. É um coração atordoado, ela pensava, enquanto enchia a xícara de café pela terceira vez e o cachorro exigia a sua atenção naquele início de dia tímido. O alarme tocava pela segunda vez e já era quinta que ela despertava suas vontades mais íntimas enrolada no cobertor de inverno. O inverno insistia enquanto a primavera tentava aparecer entre as nuvens naquela paisagem que a encantava no décimo oitavo andar. Compraria esse apartamento se tivesse dinheiro, ela pensava enquanto se distraía com o chamado do cão animado para vencer as primeiras horas, abrir a porta e verificar o tempo inconstante como ela. O tempo tem o poder de se metamorfosear diante do amor. Acho que não sirvo pra isso, ela pensou, ele pensou, ela sendo ele naquele amor tranquilo que sentiu no princípio. E se tivéssemos um filho, ela, distraidamente, fecundou a ideia naquele pensamento fugaz da manhã. E se o tempo prolongasse o amor. E se nos devorássemos, os dois, nas alturas, à vista, por inteiro, sem dividir, porque parcelado, já bastava as expectativas. Lá, do décimo oitavo andar, a vista era mais bonita do que aquilo que eles pensavam sentir. As vezes se repetia no texto e na vida, sempre que ela sentia saudade dele. Se repetiam sempre que a saudade batia à porta.

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