Eles fariam um filho hoje mas o calor foi muito e, antes que ela chegasse, antes que. Ela, daquele jeito, um tanto afobada, o suor escorrendo na parte de trás do joelho. Qual o nome da parte de trás do joelho? Ela indagou enquanto sentia a gota de suor acariciar-lhe a pele. Pensou que poderia ser ele a escorrer-lhe as mãos nas curvas ainda não nomeadas. Mas antes de. Mas antes que o alcançasse a tempo, o tempo, sem medo, escorreu em queda livre. Um piscar de olhos, um descuido e as pontes que os uniam naquele dia quente, derreteram-se feito o sabor de um doce devorado no meio da noite, na curva da madrugada, quando sozinha apalpava os móveis mortos do apartamento. Ela teria um filho dele nesse dia quente mas na correria das horas, antes que o ovário liberasse o amor a ser fecundado, ele mudou o trajeto. Foi se refrescar, caminhar um pouco, saber da lua e do calor dos pensamentos. Ela teria um filho dele se as escolhas não corressem tão sapecas por aí. Eles fariam um filho hoje se no céu a lua não brilhasse tão sedutora e o brilho das estrelas não ofuscasse o seu desejo inocente. Se viu com oitenta anos, naquele dia claro e calmo, tomando café com rosquinhas. Sentiu a lua esquentando seu corpo velho e vivido. E soube. Ela se lembrará desse dia quente quando habitar o futuro. Quando chegar lá terei uma estrada tortuosa de lembranças, ela pensou enquanto limpava os lábios sujos de farelos da vontade que não fecundou.