Cinco pessoas

Uma rápida passada de olhar por algumas amizades

Pessoa um.

Ela fala rápido, conta milhares de histórias, se interessa pelas minhas, bebe um gole do copo a cada silêncio que deixamos escapar. Estamos tímidos, mas a alegria de poder conversar anula um pouco isso e nos sentimos confortáveis para sermos um tanto idiotas. Ser idiota é engraçado e ser engraçado é idiota. E ser engraçado é o que todo mundo quer. Confessa que está apaixonada por uma determinada pessoa, pessoa essa que se encontra em outra rodinha de amigos, ali perto de nós. “Casava agora mesmo”, ela diz e não sabemos até que ponto está sendo sincera, então rimos. Escondemos as verdades que sobrevoam a sua confissão com piadas e memes de internet, disso sabemos bem. Rimos muito, gargalhamos com nada. Estamos sendo idiotas, estamos seguros.

Pessoa dois.

Chega como um furacão na mesa. Joga óculos de Sol num canto debaixo da carteira para não esquecer, pega o celular, dá check in, atende ligações, responde e-mail e Whatsapp enquanto fala com você e te conta todas as novidades que surgiram nos últimos dez minutos em que vocês ficaram sem se falar. Você chega cheia de segredinhos e medos e temores e bobagens para contar e desabafar e pedir ajuda, ela passa por cima deles como um trator e termina com um “eu vou dar na sua cara se continuar falando essas bostas”. Ela está certa, você sorri, fica feliz, imensamente feliz por tê-la na sua vida. Ela vai embora, você pensa “essa é a pessoa mais incrível que já conheci”. No elevador, ela já te manda inbox falando várias bostas e você ri.

Pessoa três.

Você ainda não sabe muito bem como é o rosto dela, só sabe que é bonita. Vocês são amigas a pouco tempo, então você ainda não se sente muito segura de falar olhando em seus olhos. Mas você sabe que ela é bonita. Só não decorou ainda todas as linhas do rosto, o que os olhos dizem ou o que sugerem as sobrancelhas dela durante uma conversa. Não sabe as dicas que uma hesitação na conversa quer dar. Não entendeu ainda que esse tom de voz é pra impor e esse outro é pra pedir. Você ainda não decorou tudo, ainda não sabe dizer. Está em terreno desconhecido.

Pessoa quatro.

Não sabemos se nos odiamos ou nos amamos. Provavelmente, os dois. Sabemos com certeza o que odiamos uma na outra e volta e meia somos surpreendidas por momentos que nos fazem sentir que na verdade, é tudo amor. Detestamos tudo sobre nós duas. Mandamos indiretas uma pra outra, sabendo que ela sabe que eu sei que ela sabe que é dela que estou falando. E vice e versa. Nos odiamos e nos adoramos na mesma intensidade e ao mesmo tempo. Não tem como se magoar assim. Pro bem ou pro mal, o sentimento é sempre recíproco.

Pessoa cinco.

Meu ombro dói intensamente por conta de um treino onde exagerei nas flexões e a pessoa cinco me pergunta se eu estou bem. No geral. “No geral estou bem”, digo. A pessoa cinco pondera antes de falar. Pensa. Olha para os lados. E, ainda assim, fala de várias coisas ao mesmo tempo e aparentemente não se abala com nenhuma. Temos vários assuntos em comum pelos quais podemos flanar sem nos comprometer em ser pessoais. Falamos, então. Não rimos muito, estamos cansadas, o dia foi duro, a vida lá fora está terrível. Eu gosto de pessoas que não ligam pro que eu digo, gosto de pessoas que falam e me deixam ficar calada. A pessoa cinco é assim, por isso é uma das minhas melhores amigas. Mas, como falo pouco, ela nem imagina isso.


Texto publicado originalmente em 08 de março de 2014 no meu extinto blog “Elvis Costello Gritou Meu Nome”.