Anomie Belle: Flux, de Januz Miralles

Crônicas do câncer — #03 A quimioterapia

É preciso morrer para poder renascer

Vivi durante seis meses repetindo a cada quinze dias aquela cena de Trainspotting. Aquela em que o Renton (Ewan McGregor) injeta heroína na veia e o chão se afunda em formato de caixão enquanto ele se deita e apaga por completo. Isso é a quimioterapia. Sem a parte boa do prazer da droga, com a parte ruim do imediato apagão à revelia que te faz perder dias navegando em um mar de auto-piedade, dor e medo.

Eu não quero ser dramática, mas eu preciso ser sincera. A quimioterapia prescrita para mim foi das mais leves e ainda assim, me matou dia a dia, um pouquinho mais a cada aplicação. Não perdi cabelo, não tive maiores complicações em outros órgãos (pode acontecer), mas sofri demais naqueles seis meses. Foram seis meses onde morei por uns cinco anos, me pareceu.

Não existe um formato padrão de quimioterapia. Ele é diferente para cada caso, para cada paciente. É o oncologista que avalia a gravidade do seu quadro e prescreve uma receita especial para você. Para mim, era apenas uma quimioterapia intravenosa “de precaução”, visto que o tumor mesmo tinha ido embora com a cirurgia. Por isso, teve o tempo mínimo (seis meses) para esse tipo de tratamento e foi do tipo mais brando (branca). O que não quer dizer que não tenha sido extremamente sofrido.

A minha rotina era religiosa e nunca mudou durante aqueles seis meses. Na segunda-feira, eu passava antes do trabalho em um laboratório perto de casa e fazia exame de sangue. Na terça, imprimia o resultado que saia on-line no site deles. Na quarta-feira, tinha consulta cedinho com o Dr. Hézio. Ele avaliava meus exames, perguntava como eu me sentia, se tinha ido ao banheiro todos os dias e então me liberava para a quimioterapia. Era na sala ao lado.

Ali, eu recebia primeiro um soro, já pelo port-a-cath para limpar as vias. Depois, uma bolsa com remédio para proteger o estômago. Só então, a quimioterapia. Eu ficava lá por umas cinco horas, ao lado de outros pacientes em mesma situação. Você já deve ter visto essas salas nos filmes, várias poltronas enormes e um silêncio quase confortável, que tenta ser confortável. Na primeira vez, eu recém tinha operado para implantar o port, então foi bastante dolorido. Mais adiante, seria apenas normal. Respirar fundo, prender a respiração, ser espetada com a agulha no port e então voltar a respirar.

Como eu dizia, eu ficava lá no IPC por algumas horas na quarta, recebendo o medicamento. Quando as duas bolsas de quimio acabavam, colocavam mais uma: essa ficava em uma pochete que colocavam na minha cintura. Era hora de ir para casa. Eu ficava com isso — a “mangueira” levando a quimio da bolsa acoplada na cintura até a agulha espetada no peito em cima do port, — até a sexta-feira, quando retirava essa bolsa e tinha uma semana de folga até repetir todo o ciclo de novo. Exame de sangue, imprimir, consultar, aplicação de quimio por cinco horas no IPC e mais dois dias em casa, volta ao IPC tirar a bomba.

Nas primeiras aplicações, eu ficava bem, até. Dormia, lia livros. Com o tempo, ficou mais pesado, o remédio acumulado em mim passando a ser mais forte que eu. Tanto que, em um primeiro momento, me pareceu exagerado o intervalo de quinze dias entre uma aplicação e outra. Depois fui entender que era um tempo mínimo para o tanto que o tratamento vai te esgotando.

Enquanto estava no IPC sendo medicada, meus pés e mãos formigavam tanto que chegava a doer. Eu me retorcia de agonia na poltrona, debaixo da manta xadrez de hospital. Ficava lá, olhando a TV que sempre estava ligada na programação matinal da Globo (até hoje não posso ver Mais Você sem sentir engulhos), sentindo meus nervos se revirarem. Descalçava os sapatos, dobrava uma perna. Nada fazia aquela aflição passar.

O Alex ficava comigo até eu apagar, aí saia tomar um café e logo voltava à vigília. Eu tentava falar com ele, mas conforme as horas passavam ia ficando mais difícil a voz sair da minha garganta, até que era impossível. Era como se eu estivesse presa no meu corpo. Dentro de mim, estava alerta e queria sair dali, conversar, rir, ler. Por fora, meu corpo não respondia, meus olhos pesavam e eu mal tinha forças para mantê-los abertos.

No IPC, era atendida sempre pelo mesma equipe de enfermeiros. Eles eram extremamente amorosos e compreensivos, faziam de tudo para que eu me sentisse bem. E eu queria ficar bem, tentava ser o mais “boazinha” possível, já que ali as horas passavam muito devagar e eu não podia fazer nada quanto a isso. Só podia ter paciência e esperar, com meu organismo nauseado e com os formigamentos aflitivos pelo corpo.

Após as horas de quimio, voltávamos de táxi e eu sempre me sentia um cachorrinho machucado, olhando pela janela e tentando sentir algo real daquele momento em que eu vivia. Tudo me parecia distanciado demais. Como se eu estive drogada (e estava!), nada era palpável, era tudo borrão. Uma música no rádio, a conversa entre o Alex e o taxista. Tudo passava diante de mim, mas nada permanecia. Eu flutuava entre as horas e me magoava com a minha situação, pois nunca gostei de não ter controle sobre mim mesma. Sempre fui muito controladora e ansiosa, então estar ali naquele torpor me enraivecia, mas eu nada podia fazer. O taxista dirigia devagar, muito devagar, e passava com cuidado no quebra-molas. Nunca perguntavam o que eu tinha. Era só olhar pra mim para saber.

Em casa, com a bomba espetada no peito, era uma extensão daquela espera. Eu chegava e ia direto pra cama, mergulhando em um sono sem sono de dez ou doze horas. Eu não tinha sono de fato, dormia de pura exaustão. Dormia porque não tinha forças para manter os olhos abertos, porque não conseguia me mexer. Eu ligava o Spotify, o celular tocando baixinho bem do lado do travesseiro e me embalava nas letras das músicas. Viajava para outros lugares, me imaginava nas músicas, criava histórias de continuação para as canções. As músicas eram a minha fuga.

Quando conseguia levantar, ia pra sala e chorava sentada no colo do Alex. Ele me consolava dizendo que eu estava bem, que tudo ficaria bem em breve. Que éramos fortes e conseguiríamos. Mais calma, eu voltava para a cama, para a música e para o meu sono sem sonhos.

Foi assim ouvindo música que tive a ideia para o meu primeiro livro, cumprindo de maneira torta a previsão da terapeuta que me atendeu no meu primeiro dia de IPC. Quis escrever, mas não sobre mim. De mim, eu estava cansada, estava exausta. Inventei a história dessa moça, bibliotecária, que conhece um cara em um café. Depois descobre que o cara é famoso e um sacana, mas aí eles já estão apaixonados. Por acaso, o cara era o Daniel Johns, da Silverchair. Sim, pode rir. Já mencionei que eu estava surfando nas ondas da quimioterapia e do Spotify? Pois é. Uma história boba e romântica, mas que me me serviu de escape para aqueles momentos. Comecei a escrever e foi um sucesso imediato. Claro, todo mundo queria me apoiar e a história até que era legal! — embora minha escrita fosse sofrida demais, para dizer o mínimo. Fui melhorando depois, eu acho. Hoje estou escrevendo meu sexto livro, descobri o gosto pela coisa. O fato é que em torno dessa primeira história se juntou um grupo de meninas para me apoiar, que compraram por completo a minha empolgação em escrever. Foi fora do normal o quanto esses livros cresceram, até entrevista para o UOL eu dei, falando sobre eles.

Era tudo irreal o que eu vivia. Passava em slow motion e parecia descolado da realidade. Minha rotina mudou e, querendo ou não, passei a viver em função da doença — das suas limitações e principalmente dos sentimentos que ela trazia ao meu coração. Eu tinha medo de morrer e também tinha muita vontade de estar viva. Me sentia diferente por estar lutando. Achava que morreria amanhã, então precisava viver tudo o quanto antes. Eu mudei muito, de um jeito que só fui me dar conta muito depois.

A vida de quem faz quimioterapia é mais lenta. Não é tanto sobre dor, é muito mais sobre perder a sua força. Nos dias de tratamento, você apaga. Nos dias de “folga”, você tenta se recuperar, mas seu corpo não responde, você perde o controle sobre ele. Não manda mais. Teimosa que sou, continuava indo trabalhar quando não estava em dias de quimio, no entanto meu ritmo era o de uma senhorinha de 90 anos. Andava devagar, tropeçando, meus colegas seguravam meu braço para me ajudar a atravessar a rua. Não percebia, mas eu cheirava a remédio. Meu hálito, minha pele exalava aquele cheiro da quimio. Eu andava bamba pela rua, mal sentia os pés de tanto formigamento. Comia muito pouco, por obrigação, pois era muito sofrido. Minha boca e língua formigavam também. Com o tempo, não conseguia mais comer nada gelado e nem mesmo tocar em nada com baixa temperatura. O oposto também acontecia, não sentia nada quente. Podia pegar uma chaleira fervendo e não sentia nada, embora meus dedos machucassem com o calor. Era preciso muita atenção nessa época, pois não raro eu me queimava e só percebia horas depois.

Aos poucos eu fui ficando mais fraca a cada aplicação. O remédio foi me vencendo, porque o que ele faz é isso: ele te mata por inteiro para poder matar o câncer. Ele destrói você por completo, para você poder nascer de novo. Para mim era bem claro que se eu fosse morrer ali, não seria de câncer e sim de quimioterapia. Eu aceitava isso com uma medrosa resignação.

Alguns episódios mostravam como eu não tinha mais controle de nada. Por exemplo, a porta do quarto ficava trancada quando eu estava em quimio, para os gatos não entrarem. Se eles subissem em mim, eu não teria força para tirá-los. Um dia, o Gui conseguiu entrar, cheirou meu rosto todo e deu uma dentada no cateter. Não chegou a furar, o Alex viu a tempo, mas ficou a marca do dentinho dele no “cano” que levava o remédio da bolsa para a agulha no meu peito. Eu quis rir, beijar o gato e o Alex por eles estarem ali ao meu redor enquanto eu por dentro morria sem oferecer resistência alguma, mas não conseguia também.

Viver se tornava mais complicado de maneira prática. Reflexo da quimioterapia, meus dedos da mão doíam tanto que não eu conseguia digitar ou escrever com a mesma dinâmica de antes. Trabalhava e escrevia meus livros dando soquinhos cegos no teclado e meus dedos machucavam, mas eu não sentia dor. Estavam amortecidos. Era estranha a sensação, doía e eu não sentia nada ao mesmo tempo. Mesmo assim, trabalhei durante todo o tratamento, o quanto pude, e nisso tive todo o suporte da minha agência. A decisão de continuar trabalhando foi minha e eles não só aceitaram, como se colocaram à disposição para ajudar no que fosse preciso.

Tomar banho tendo o cateter espetado no peito era trabalhoso. Eu tinha sacolas e mais sacolas plásticas na gaveta da pia para isso. Antes do banho, recortava o tamanho certinho e cobria com plástico e esparadrapo o cateter e a pochete com a quimio. Entrava no chuveiro com cuidado para não molhar o equipamento além do inevitável. As enfermeiras sempre falavam isso, que não podia molhar. Eu me segurava nesse aviso quase maternal para não me desesperar com o fato de ter uma agulha cravada no meu peito enquanto eu me ensaboava, nua e trôpega. Bêbada de remédio.

Pra tirar o remédio, na sexta, era geralmente a minha amiga Carol que me levava, junto com o Alex. Essa parte era rápida, então não tinha tanto problema. Tirava a bomba já vazia, injetava mais uma dose de soro pra limpar e eu estava “liberta”, como gostava de dizer. Se estivesse forte o suficiente, eu aceitava o convite da Carol e íamos comer algo. Mas eu nunca comia nada, só tomava um suco de laranja e ficava achando que tinha sido feito de fruta estragada, quando na verdade era o meu paladar que estava comprometido. Uma vez, saímos do IPC e fomos cortar o cabelo juntas. Outro dia, fomos almoçar com o Alex e o pessoal do trabalho dele, mas não tinha mesa e ficamos em uma outra à parte. Os pratos eram caros, lembro de ter pago sessenta reais em um bife aparentemente suculento que eu nem toquei.

Levava um final de semana inteiro para eu me recuperar da aplicação. Em algum momento entre o sábado e o domingo, eu dormia um sono “de verdade”, por estar com sono mesmo, e quando acordava, sentia que estava “ok” novamente. Era estranho, mas eu sentia que tinha passado o torpor da quimio. Quem me acompanhava sabia, era sempre quando eu postava uma selfie no Instagram dizendo que estava 110% ou 200% bem, de brincadeira. E comemoravam comigo.

Durante o tratamento eu tive muito apoio. Muito mesmo, era inacreditável. Eu estava protegida em uma redoma onde era mimada ao extremo por todo mundo, conhecidos ou desconhecidos. Passei a acreditar que seria assim sempre, que era tudo verdade aquele amor todo de todo mundo e, mais adiante, vi o quanto estava enganada. No entanto, ali foi o que aconteceu e me ajudou a suportar, de alguma forma.

Os dias entre terminar a aplicação e ficar 110% de novo passaram a demorar a cada vez mais para chegar, até que eu não ficava mais 110% em momento nenhum. Passando dos primeiros três meses de tratamento, eu já não era nem 40% do que eu era, isso nos dias bons. Em dia de quimio, eu era uns 5% de mim.

Um dia, já em casa, ainda com a bomba pendurada no peito, senti uma sede muito grande. Não tinha nada ao lado da cama pois me ardia a boca beber, então nem pedia. Mas naquele dia, quis. O Alex tinha precisado sair rapidamente, ele também continuou trabalhando normal naquela fase, o que não tinha problema porque eu deveria estar dormindo. No entanto, acordei e com sede. Achei que podia eu mesma buscar um copo d’água na cozinha, distante poucos passos do quarto. Me levantei suando com o esforço e de fato, consegui. Bebi a água e então o cansaço veio, como se tivesse corrido atrás de mim desde que sai da cama e finalmente me alcançado. Subitamente me senti tão enormemente exausta que era impossível me mover dali. Era fisicamente impossível, mentalmente impossível. Sem saída, deitei no chão frio da cozinha e cochilei por algumas horas, o braço cobrindo o peito para o Gui não me morder de novo, até conseguir me arrastar de volta para a cama.

Momentos como esses traduzem a extrema solidão que é fazer quimioterapia, mas eles não contam toda a verdade. Mesmo nessa escuridão, eu ainda tinha momentos felizes. Entre uma sessão e outra, conseguia sair com o Alex, beber uma cerveja, reunir amigas em casa. Fui para a casa da Carol na Serra da Cantareira, escrevi três livros, estabeleci amizades profundas que permanecem até hoje. Nem tudo é dor durante a quimioterapia, mas a dor sempre assusta e é dela que nos lembramos primeiro. O medo é uma companhia constante, a desesperança está sempre ali virando a esquina. Mas você precisa viver e você vive. Encontra brechas, valoriza as pequenas alegrias, extrai tudo o que pode dos momentos bons.

Entre uma aplicação e outra, eu fazia baterias de exames. Nada era definitivo, mas o Dr. Hézio dizia que eu estava reagindo bem. Só saberíamos o veredicto final depois de algumas semanas da última quimio. Quando enfim o tratamento acabou, pois um dia ele acaba, eu estava cansada como nunca estive antes. Se por acaso precisasse de mais uma aplicação que fosse, acho que não aguentaria. Não precisei. Terminei o tratamento, os seis meses de Renton mergulhando no escuro. Os seis meses em que me tornei uma versão desconhecida de mim, em que tudo era medo e limitação.

Feito a licença poética que minha vida sempre foi, no dia primeiro de maio de 2015, dia em que fui retirar a bomba da última aplicação, fez um dia lindo, uma sexta gloriosa de Sol. Eu estava extremante feliz e esperançosa. A quimio tinha me destruído, me virado do avesso, mas eu tinha sobrevivido, ia ficar tudo bem. Eu vivi um dia de cada vez e consegui chegar até ali. Eu atravessei aquele inferno, adormeci dentro dele, criei abrigos, o tornei meu. Agora era hora de abandoná-lo e reencontrar o outro lado. Ainda não sabia exatamente o que me esperava ali, mesmo assim precisa ir.

Agora era a hora de recomeçar. Do zero. Do jeito certo.


Acredito que uma das maneiras mais eficazes de desmitificar o câncer é falar sobre ele sem medos. Estou fazendo a minha parte com essa série de quatro textos sobre a minha experiência pessoal com a doença. Você pode ler todos aqui. Se você gostou desse texto, dê um ❤️ ao final da página, assim ele pode chegar a mais pessoas.