Rocketman (2019)

Elton John está bem e tudo está em seu lugar

Tati Lopatiuk
Jun 18 · 3 min read

Se querem mesmo saber o que aconteceu, eu perdi um pouco o rumo desde aquela noite, mais precisamente na cena em que o Taron Egerton abre as portas, luxuoso em seu traje alaranjado, e você fala: rapaz… E então não acontece nada do que você pensa.

Não que o ponto seja esse. Como se o inesperado fosse uma novidade — e não uma constante. Oras, nada nunca acontece como você pensa. Não é essa a questão. Mas houve algo de especial em ver aquele filme pela segunda vez em uma semana, entrando bêbados no cinema e embalados em uma alegria que não tinha motivo algum, além de todos.

E aí, como eu dizia, Taron Egerton em trajes alaranjados, depois em mais outros de muitas outras cores. As músicas e os sorrisos, o ódio da vida adulta, divagações sobre talento & oportunidade, você ergue a cabeça e continua não por perseverança e nem por teimosia, mas por… Por quê? Algo sobre o jeito com que você fala comigo quando eu me mostro frágil, algo sobre a maneira com que você me acolhe justo quando eu acredito que não exista mais saída alguma.

Estamos falando de momentos sublimes escondidos dentro de cenas cotidianas. Você do outro lado da rua, encostado no muro e fumando. Eu olho para você sem ser vista, eu na fila para comprar pipoca. Somos dois mundos diferentes, duas existências diferentes, que se conectam no instante em que você olha para mim e sorri. Você sorri. Somos um do outro novamente. Atravessa a rua e vem na minha direção. Me beija com o ar gelado da noite, eu gosto tanto do seu beijo, compramos mais cervejas.

Está tudo muito complicado, os gatos estão a cada dia mais malucos e carinhosos. Corto os tomates em quatro e depois em grossas fatias, fazemos daquele jantar às 23h de uma quarta-feira uma ocasião única de paz em que preferimos não pensar nos problemas maiores.

Eu não sou o homem que eles pensam que eu sou em casa. É claro que não. Eu não finjo nada para os outros, mas eu guardo o meu melhor para você. Ás vezes eu penso nisso, como pudemos criar um mundo tão nosso, de um amor que quase dói, tão forte que dá a volta e se torna frágil.

Noite de video game, você diz algo absurdo só para me fazer gargalhar.

Noite de séries, me enrosco nos seus pés e rimos das mesmas exatas cenas.

Deus me pune pelas coisas mais banais. Tivesse chegado tarde na festa, o cachorro não teria mordido minha mão. O sangue pinga no chão, vou embora correndo, fugindo para o seu colo. Você me recebe, eu aos prantos, coberta de razão e exagerada, emotiva e emocional, sempre, meu Deus, sempre, um tom acima da média e do necessário.

Você cuida de mim, me ouve.

Mesmo estando tudo muito complicado.

Também fiquei pensando nisso. Tudo está sempre fora do lugar, o tempo todo. Que mania de ver o mundo assim! A gente passa a vida toda encarando cada dia como um dia atípico. Será que é tão difícil perceber qual é o padrão aqui? Esses dias, acho que foi ontem, olhei para você e finalmente entendi que o normal é essa loucura mesmo: quando não é um problema é outro, sempre muda o ponto de tensão — mas no fim está tudo bem. A gente dá um jeito. A gente consegue achar alguma diversão no meio do caos. A gente consegue dar as mãos e fugir dali, mesmo sem sair do lugar.

Veja o Elton John, por exemplo. Que complicado, tudo! Mas os trajes e as músicas e o ódio da vida adulta. Ajuda um pouco, não ajuda? Enquanto gastávamos nossa energia achando que tudo estava fora do lugar, nos tornávamos mais fortes para entender a realidade do que somos.

Somos fortes, somos bons. Nos amamos.

E aí, faz até sentido: mesmo com toda essa bagunça, está tudo bem. Estamos bem. Tão felizes como uma noite de cinema, no meio da semana, para ver um filme que instantaneamente amamos, um filme que fala de nós sem jamais contar a nossa história, como nós sabemos que um dia contaremos.

Tati Lopatiuk

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Escritora nas horas vagas e em todas as outras.

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