se bem que nem tanto — IT, 2017 (backstage)

Pennywise está vivo — e eu também

Vamos falar um pouco sobre este palhaço e alguns outros.

Não vou dizer que desci a Rua Augusta a 120 por hora, mas eu entrei voando baixo no metrô indo para o trabalho, dia desses. Nem atrasada eu estava, mas estar atrasada ou não é apenas um mero detalhe se dentro da sua cabeça você está sempre à mil.

O rapaz se postou na minha frente, coletinho do metrô, caneta, papel numa prancheta, no intuito de falar comigo. Eu driblei ele na moral, não adianta não, Maurão, o drible ainda é mais importante que o passe no cotidiano do brasileiro médio. Mas você acha? O rapaz não se fez de rogado, foi atrás e perguntou mesmo assim em que estação eu descia, era para uma pesquisa, ele disse.

Eu falei o nome da estação e segui. Nem tinha parado, na real. Cortei a conversa antes mesmo dela começar. Senti que ele ficou me olhando como em um comercial de perfume, onde tudo acontece muito devagarinho. Eu indo embora, ele sendo deixado, atônito e tudo. O vento passando por nós, o vento é mais encanado que vocês, em algumas estações de metrô. Faz tudo voar longe.

Fui grossa? Um pouco. Foi sem querer. E aí também pensei, poxa, o cara aguenta. Se ele for morrer por isso, o problema é mais dele que meu.

Eu também já passei por tanta coisa, e tô aqui viva.

Viva igual o Pennywise.

ai, penny, só você (filme 2, backstage)

Saiu o trailer do filme 2, né meninas. O trailer de IT — A Coisa 2, eu digo. Fica um título tão esquisito, né? Parece um poema dadaísta.

It a coisa dois.

Gosto desse filme como gosto de tantos outros, porém existe uma mística em colocar tanta criança talentosa e adulto impactante em uma história duvidosa do Stephen King e ver isso virar blockbuster. Eu gosto de ver o Bill Hader trabalhar, se pudesse dava um emprego pra ele aqui em casa. Estou mesmo precisando de diarista ou alguém que me motive a fazer ginástica. Não acho que ele poderia fazer isso, mas também não acho que eu poderia pagar mesmo se ele pudesse, então fica meio que na mesma: não dá em nada, é só uma ideia.

Bill Skarsgård, James McAvoy, Jessica Chastain, Bill Hader, Finn Wolfhard…Estou ansiosa por esse filme, pensando como podem juntar essa rapaziada toda na mesma sala e dizer ACTION!, em um grito único e poderoso que faça a magia do cinema acontecer.

Este será um filme incrível, contanto que você baixe suas expectativas e entenda que não vai ser um filme que vai trazer a satisfação que você busca em sua vida pessoal.

O filme pode ajudar um pouquinho, mas ele não vai tapar o buraco emocional que você cava no seu peito desde os sete anos de idade. Esse buraco que só aumenta, com você há décadas usando a mesma pequenina pá na intenção de tapá-lo.

O filme pode ser bom, sim, entretanto.

Esse texto está muito longo? Ainda tem mais um pouco, mas pense que você já passou da metade. Seria besteira parar agora.

ai bill, só você (filme 2, backstage)

Indo em um ritmo muito mais devagar, eu outro dia subia uma avenida ampla e bela, mas qualquer, nesse país chamado Avenidas Amplas & Belas da Região Onde Ficam a Maioria das Agências de Publicidade de São Paulo.

Foda. Era uma ladeira lascada, eu pensava na vida e meus pensamentos todos iam ficando pelo chão, escorrendo com o calor e deixando pegadas emocionais que nem Freud explicaria. Calcule. Às vezes, quando você canta uma música com toda emoção, mexendo a boca sem falar nada, brincando que a voz do cantor é a sua, é possível experimentar um tipo de liberdade que só é comparável a chegar em casa e ficar de cuecas. Naquele momento, entretanto, eu nem estava de cuecas em casa e nem cantava sem voz música nenhuma. Mesmo assim, me sentia livre feito o diabo.

E, na verdade, naquele momento não aconteceu nada digno de nota comigo. Nadinha mesmo. Eu estava apenas andando na rua, sem maiores expectativas. Só que é maluco isso. É horrível ficar triste por um motivo, é maravilhoso ficar feliz sem razão alguma.

Subindo a ladeira, eu pensava que vivos estamos todos: eu, você, o Pennywise. Não é ótimo, ainda que bastante básico? Tem filme novo vindo aí. Não vai tapar o buraco da sua alma — e nem deveria, então olha que beleza. Você não pode depender de um filme para isso, pois só depende de você.

E que bom.

E eu sei que a reação imediata para "só depende de você" é um mar de lágrimas, mas vamos lá. Você consegue ser melhor que isso. Sério. É ótimo tomar a responsabilidade emocional pela sua vida. Você constrói uma barreira onde ninguém pode te atingir, a menos que você permita. E você não permite mais.

Não se trata de ser uma pessoa malvada ou insensível, se trata de conseguir olhar a vida em um panorama amplificado e conseguir dar a devida dimensão para cada coisa. Colocadas em perspectiva, nenhuma situação no mundo pode te magoar sem o seu consentimento para isso.

Sabendo disso, é uma alegria estar vivo. Estar vivo e vivendo, planejando coisas, correndo, sempre atrasada, mil coisas na cabeça. Viva como Pennywise, trabalhando mais que o Bill Hader.

Voando baixo ou então subindo lentamente pelas muitas avenidas dessa cidade que vamos dando o nome conforme a conhecemos melhor.