Darren Criss como Andrew Cunanan em "American Crime Story: O Assassinato de Gianni Versace" (2018)

Resenha: "Favores Vulgares"

O livro sobre a história real do homem que matou Gianni Versace

A jornalista Maureen Orth trabalhava em um perfil sobre Andrew Cunanan, que já havia matado quatro pessoas em um intervalo de doze dias, para a Vanity Fair quando Versace foi assassinado e Cunanan apontado como principal suspeito. Nesse ponto, ela era a pessoa que mais sabia sobre Cunanan, a única que estava realmente atenta a ele, enquanto a polícia de três estados se debatia entre quem era o responsável pela investigação e se “valia a pena” elucidar crimes cometidos por um gay contra outros gays.

Pois é.

Antes de ser publicada, a matéria de Orth foi editada às pressas para incluir o homicídio de Versace, o quinto crime da conta de Cunanan. Até que ele fosse encontrado, morto por suicídio oito dias depois de assassinar o estilista italiano, a jornalista já tinha a base do que se tornaria “Favores Vulgares”. Acrescentada extensa pesquisa sobre a vida de Cunanan e inúmeras entrevistas com conhecidos, familiares e amigos, mais do que um perfil de um serial killer, o livro é um estudo profundo sobre a cena gay nos EUA dos anos 90.

São 400 páginas que retratam como a imprensa, a sociedade e a polícia viam a explosão da AIDS e da cultura gay naqueles dias. Cunanan levou muito tempo para começar a ser caçado principalmente por verem seus crimes como simples “brigas entre gays”, algo como o nosso famoso “briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Havia ainda o medo das famílias em ver seus parentes serem “desonrados” após a morte, tendo sua imagem vinculada a um gay, como ele. E nisso, Cunanan seguiu cruzando fronteiras e matando. Assim, matou dois homens com quem se envolveu (sendo um deles o “amor da sua vida”), matou um homem para roubar seu carro, matou um bilionário que até hoje não se sabe se era seu amante ou pai de seu amante e, por fim, matou Versace — seu grande ídolo, que ele achava que não merecia todo sucesso e dinheiro que tinha, pois tinha vindo “do nada” e era muito menos talentoso que ele, Cunanan.

Produto de sua época, o livro é de 1997, “Favores Vulgares” hoje soa datado e preconceituoso em algumas passagens. Ao buscar entender as motivações de Cunanan, Orth por vezes mergulha em achismos e pré-conceitos baseado apenas no fato do criminoso ser gay ou praticante de BDSM. Seguindo uma linha cronológica, ela tece teorias para o que Cunanan sentia desde a sua infância. No entanto, quando os crimes começam a acontecer, ela deixa de lado os “quem sabe?” e se atém os fatos. Afinal, não tem como saber. O que levou Cunanan a assassinar brutalmente cinco pessoas?

Não temos respostas exatas em “Favores Vulgares”, mas as entrevistas e depoimentos inéditos trazidos por Orth são valiosos para a construção da narrativa (que ficou ainda mais clara na série ACS: Versace, baseada no livro) do que foi a vida de Andrew Cunanan. Uma pessoa que foi levada a acreditar desde cedo que o mundo lhe devia muito, e cuja frustração ao perceber que não era bem assim foi sublimada com drogas, álcool e sexo. E, fatalmente, teve por isso sua vida engolida por um espiral de vício e desamor, deixando crescer dentro de si uma bomba de ódio e rejeição que culminou em uma série de assassinatos, deixando cinco vítimas.

Seis, se formos contar o próprio Cunanan.

Para quem viu a série da FOX, chega a ser assustador descobrir que algumas cenas, diálogos e acontecimentos retratados nas telas realmente aconteceram. A emblemática cena de Cunanan dançando na boate e respondendo que é um serial killer quando um flerte lhe pergunta a profissão. Ele pedindo que um de seus namorados (que posteriormente seria sua primeira vítima) lhe dê presentes que ele mesmo comprou, só para impressionar outro homem em quem Cunanan estava interessado. A delicada e doentia relação com a mãe, os atos desmedidos de proteção do pai. O que vemos na versão televisiva do livro de Orth é bem pouco romantizado e muito próximo do que ela averiguou em sua pesquisa. Em que pese que na TV a linha do tempo da história é mexida para dar mais emoção à narrativa, basicamente tudo o que é mostrado aconteceu mesmo. As mentiras de Cunanan, seus relacionamentos confusos, os delírios de grandeza, a sua degradação gradual. Tudo.

Por esses motivos, ainda que o tema seja pesado, “Favores Vulgares” é uma leitura incrível. A despeito das escorregadas no tom, Orth consegue conduzir muito bem a narrativa, sem entediar e nem se prender demais em detalhes técnicos. Além disso, é um trabalho colossal de pesquisa que merece respeito.

Por fim, e talvez mais importante que tudo isso, se trata de um livro importante no debate da saúde mental. E para entendermos, de uma vez por todas, a cuidarmos do modo como vemos o mundo e o que esperamos dele.