A vida depois da motosserra

O designer Hugo França mobiliza sua força criativa para impedir a segunda morte das milhares de árvores que caem todos os anos em São Paulo

Fotos | Marco Vilas Boas

Há um eucalipto morto no Ibirapuera com o poder de oxigenar São Paulo com muito mais vigor do que as cerca de 16 mil árvores que o rodeiam por ali, no mais conhecido parque da cidade.

Fulminado por um raio, ainda há dignidade em seus estimados 50 anos e 36 metros de altura, amarrado pelo alto por um cabo de aço, à espera do primeiro dos cortes que vai secioná-lo em três. O que um dia foi sua copa, teve a galhada mais fina e comprometida posta abaixo. Com 7 mil quilos de madeira espalhados lá no alto, demorou dois dias para descer ao chão no braço mecânico de um guindaste. A seção intermediária de seu tronco, com 10 metros de ponta a ponta e mais de 80 centímetros de diâmetro, foi estirada ao lado do gigantesco toco que restou de pé. Cascas e noves fora, somam 20 toneladas de matéria prima nobre mesmo para um eucalipto.

“Isso não tem fim, cara”, diz Hugo França, 60 anos, mastigando as palavras num sotaque curioso, mescla do gaúcho de sua Porto Alegre natal com o baiano das roças da região de Trancoso, onde estabeleceu sua base criativa a partir de 1981. O que “não tem fim”, nas palavras de Hugo, pode ser lido de maneiras diferentes, ao sabor das duas grandes obsessões do designer — justo as que o transformaram em um artista singular, com mais de 100 obras no acervo do Instituto Inhotim, em Minas Gerais, e um banco a desafiar a dominação do design americano no impecável jardim da Gracie Mansion, a residência oficial do prefeito de Nova York.

O banco Açã, doado pela cidade de São Paulo ao prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, na Conferência C40 (2011) Foto | Atelier Hugo França

A primeira das obsessões de Hugo França tem a ver com a morte — uma árvore morre, mas não acaba. Quando ele chegou ao sul da Bahia, no início da década de 1980, o desmatamento grassava nos remanescentes da Mata Atlântica. Vinham abaixo na pequena escala da subsistência ou na devastadora, da exploração madeireira. “Percebi naquele momento, quando começava a se falar em ecologia, que alguma coisa precisava ser feita ou não ia sobrar nada de um dos ecossistemas mais ricos do planeta”, lembra. Nas incursões pelas terras dos roceiros, quando ele ia tirar no braço caibros e esteios para as construções que ajudava a levantar, Hugo se rendeu ao pequi-vinagreiro, espécie virtualmente extinta — hoje, árvore de sua predileção. De tão grande e pesado, seu tronco sempre restava invencível em áreas transformadas em plantação ou em pasto, economicamente inviável. “O pequi demorava 200 anos para chegar à idade adulta e pode sobreviver mais 1200 no chão porque sua oleosidade dá ao lenho uma resistência muito grande, mesmo às queimadas”, explica.

Com a cabeça fermentando já há algum tempo, misturando os questionamentos sobre sustentabilidade às referências artísticas cultivadas na convivência com o irmão Rafael França, um dos pioneiros da videoarte no Brasil, Hugo começou suas incursões pela madeira. Inspirado pelas antigas canoas dos índios pataxós, naturais da região, passou a comprar aqueles troncos-zumbis e a trabalhar na roça mesmo, quando não conseguia guinchá-los para um galpão. A intuição o levou a explorar as formas que iam nascendo ao despir o tronco das cascas, dos podres, das marcas do crime de desprezo. “Passei a inverter a lógica da motosserra”, ele diz. “O que a bandidagem usava para destruir a floresta, eu passei a usar para dar vida nova àquelas árvores.” Não a vida pranchada em marcenaria certificada — “uma bobagem”, provoca — , mas a vida que nasce dos veios e reentrâncias, dos anos a fio sequestrando o CO2 da atmosfera para transformar carbono em lenho.

“A intervenção do Hugo é um tributo muito bonito à natureza”, diz o museólogo Fábio Magalhães, ex-curador-chefe do Masp e ex-diretor da Pinacoteca de São Paulo. “Ele serra, secciona, transforma, aliando o aspecto racional da sua criação à memória do que foi a árvore.” Maior colecionador do artista, Bernardo Paz vê nesse diálogo a fonte da beleza que o interessa. “Cada peça, assim como cada árvore que deu origem a ela, é singular. Quando inseridas no Inhotim, essas esculturas se misturam ao paisagismo e formam uma unidade”, diz o criador do lugar, que em 15 anos acumulou um conjunto avaliado por Hugo em “3 ou 4 milhões de reais”. “Por qualquer caminho que você escolher aqui, em meio a galerias de arte e espécies botânicas raras, encontrará um de seus bancos de madeira. Eu vejo como um convite a um momento de pausa e reflexão.”

A segunda obsessão de Hugo tem a ver com o renascimento — uma árvore morta pode ser muitas coisas. Na perspectiva artística, o impulso é a busca da harmonia e do equilíbrio entre forma e função, criando o que a historiadora do design Ethel Leon define como esculturas mobiliárias. Na perspectiva cidadã, do engenheiro que militou em organizações estudantis de esquerda na juventude (com algum desencanto na maturidade, é verdade), o interesse é o manejo racional do resíduo urbano. “O reaproveitamento do lixo industrial tem políticas mais efetivas, como a coleta e os programas de reciclagem, mas o da madeira, não”, diz Hugo. “Para se ter um ideia, apenas num verão, em função da chuva, a cidade perde cerca de 5 mil árvores, sem falar nas que precisam ser retiradas antes que caiam em cima de alguém.” Picotadas e destinadas aos aterros e lixões, como costuma acontecer em São Paulo e na maioria dos centros urbanos, as árvores ainda veem desperdiçado o trabalho de uma existência: na queima ou decomposição de seu lenho, todo o CO2 estocado pela fotosíntese é devolvido à atmosfera. “A melhor maneira de você evitar isso é usar a madeira.”

E aqui voltamos ao eucalipto morto do Ibirapuera.



O corte daquele eucalipto representa o elo que fecha a cadeia de sustentabilidade que interessa a Hugo — o uso da madeira para a produção de mobiliário urbano, a partir de uma poda planejada para o manejo sustentável das árvores da cidade. Tudo em articulação com o poder público e a iniciativa privada. A operação acompanhada no Ibirapuera, em final de outubro, foi coordenada com a secretaria municipal do Verde e do Meio Ambiente, na figura do diretor do parque, Heraldo Guiaro. “A ideia é que os momentos de poda, como a que estamos fazendo agora, possam servir ainda para treinamento da equipe da prefeitura”, explica o agrônomo de formação. “Com essa articulação simples, o resíduo lenhoso se transforma em matéria prima valiosa.” Para Ethel Leon, essa é a grande qualidade do trabalho de Hugo, “na linha do pensamento de Zanine Caldas [arquiteto e moveleiro modernista]: a preocupação com os aspectos públicos do design, com a produção que leva em conta o descarte de materiais e o déficit de mobiliário público em nossas cidades — em quantidade e qualidade”, diz a historiadora. “É só dar uma volta pelo Centro”, aponta Heraldo. “Onde estão os bancos e lixeiras, os abrigos e adornos? O mobiliário urbano sumiu.”

Na supervisão do corte, Hugo vai planejando a segunda vida do cinquentenário eucalipto, numa troca de ideias com Heraldo e a equipe de poda — processo que já rendeu 19 peças ao Ibirapuera e dois bancos ao Largo do Arouche desde que o artista foi procurar o diretor do parque, cinco anos atrás, para desviar do aterro algumas árvores cortadas. A antiga copa, com cordas trançadas entre os galhos, vai virar um brinquedo de escalar a ser fincado numa área desativada do parque que Heraldo planeja reabilitar. O enorme toco, que ainda restava de pé até a primeira semana de novembro, já começou a ser trabalhado pelo Zé, braço direito do designer há quase 20 anos. A partir das riscas que Hugo traçou com giz no tronco de 12 metros, o operador das motosserras vai dando forma ao banco que será doado a São Paulo em seu aniversário de fundação, em 25 de janeiro próximo. “Ainda estamos estudando o lugar”, conta Heraldo, um dos articuladores da ação envolvendo o parque do Ibirapuera, a Secretaria do Verde e o Atelier Hugo França. “Mas o desejo é que fique em frente à Prefeitura, no Vale do Anhangabaú, região em que a cidade nasceu.”

Zé, o braço direito do designer, trabalhando o tronco na motosserra

A esperança de Hugo é que a visibilidade desse novo ensaio possa tirar de vez do papel o projeto Mobiliário Público/Árvores Urbanas — e colocar São Paulo em posição de liderança no reaproveitamento do resíduo lenhoso e formação de mão de obra especializada. “Eu já tenho esse conceito bem implantado lá fora”, conta o artista. “Já arranhei em Nova York, apresentei este ano na Bienal de Vancouver, no Canadá, mas eu quero que esse negócio parta daqui.” Daqui, mas não necessariamente de São Paulo. No final de outubro, Hugo esteve no Rio de Janeiro para um workshop que transformou em banco uma figueira e uma amendoeira, derrubadas pela chuva na Lagoa. “Cara, eu posso dizer que esse negócio está muito bem encaminhado com a prefeitura carioca”, conta ele.

No terceiro dia em que nos recebeu, para uma visita ao galpão em Louveira, a uma hora de São Paulo, onde armazena grandes pedaços de madeira bruta e parte da produção de seu ateliê, Hugo França parecia mais relaxado. “Amanhã embarco para Trancoso”, ele sorri, dando a entender que a semana que passa por mês na Bahia — “infelizmente”, sem a mulher, Tania Soriani, que trabalha no merchandising da Globo, e o filho João Vítor, 6 anos — é uma “semana de descompressão”, quando descansa do desgaste da intensa agenda a que tem se dedicado. Ele não chega a se lamentar, mas deixa escapar que facilitaria muito se tivesse aqui o reconhecimento que tem “lá fora” — com a representação da galeria R & Company, de Nova York.

Hugo conta que foi “lá fora” onde ouviu o elogio mais lisonjeiro de seu trabalho, em almoço oferecido pela Sotheby’s na inauguração de sua exposição no Fairchild Tropical Botanic Garden, em Coral Gables, em maio deste ano. “Era um evento para colecionadores na programação da Art Basel Miami”, lembra Brooke Lemaire, diretora de marketing do parque, conhecido pela exibição anual Design at Fairchild. “O presidente do conselho dos curadores [Bruce Greer] se referiu a mim como um dos poucos artistas contemporâneos com abrangência social para atingir todos os públicos — ricos e pobres, em exposições formais ou em espaços públicos”, lembra. “É isso o que eu pretendo com esse projeto.” Hugo confessa que já teve o desejo de viabilizar a ideia “lá fora”, como uma espécie de vingança, “porque sei que todo mundo aqui ia querer fazer também… Mas o negócio é o seguinte: eu quero que essa coisa seja brasileira”.

Atualização: Em fevereiro de 2015, a prefeitura de São Paulo finalmente definiu o lugar para abrigar o banco doado pelo designer à cidade — o Largo da Batata, em frente à Igreja Nossa Senhora do Monte Serrat. A entrega marcou o lançamento do programa Mobiliário Ecológico, uma parceria da Secretaria do Verde e Meio Ambiente com o Atelier Hugo França. A ideia é que todo o resíduo lenhoso seja encaminhado para a produção de mobiliário público urbano.

Reportagem publicada originalmente em dezembro de 2014 na edição 39 da revista "Private Brokers", editada pela Trip para a Coelho da Fonseca. Vai lá: issuu.com/privatebrokers.