ABRIL, A TERRA ARRASADA

eu ia usar “incrível” para me referir à multidão de gente boa que tem sido mobilizada por esses posts sobre o fechamento de mais uma revista da abril (gol da alemanha…), como os dos amigos thomp e terron. mas, pensando bem, é bastante razoável, não tem nada de incrível. a abril foi durante muito tempo, antes de uma boa escola de jornalismo, uma boa escola de relacionamentos (muito antes de esculhambarem isso também transformando amizade em network). houve uma época em que as redações eram grandes e inclusivas, permitindo que gente muito diferente entre si convivesse e se transformasse uns aos outros. era possível formar um time de futebol com craques complementares e pernas-de-pau brilhantes. ideias eram incentivadas e sobreviviam o tempo que merecessem mesmo se não gerassem um plano de negócios ou virassem um centro de custo. as pessoas passavam pelas redações e saíam delas melhores. hoje não dá nem para chamar de redação se pensarmos (com todo o respeito às exceções) na qualidade do que se discute e se escreve naquelas baias. os tempos mudaram como sempre há de acontecer de tempos em tempos e me espanta que a abril não tenha acumulado uma reserva de inteligência que garantisse a ela a capacidade de se adaptar sem arruinar a sua história. o que resta e sempre restará serão os amigos e as histórias verdadeiramente impublicáveis. porque hoje, na terra arrasada da abril, já não se fazem mais histórias impublicáveis como as de antigamente — e o que dizer das publicadas? a abril está morta. vida longa a abril.
São Paulo, 3 de junho de 2015.