Agora não dá, estou ocupada com a minha imaginação” —

Uma conversa sobre olhar o mundo e o ofício de escrever com Eliane Brum, colunista da edição digital brasileira do jornal El País

O Mundo de Cristina (1948), de Andrew Wyeath (1917–2009) — do acervo do MoMA, em Nova York

H á duas reproduções de obras de arte no espaço de trabalho de Eliane Brum, em São Paulo. Uma, ainda hoje, digamos, impublicável — A Origem do Mundo, do realista francês Gustave Courbet (1819–1877), um dos nus mais nus entre todos os nus, tida por muitos como a Monalisa do Museu d’Orsay, em Paris. A outra, muito mais discreta — O Mundo de Cristina, do realista americano Andrew Wyeth (1917–2009), tentativa de fazer “justiça à extraordinária conquista de uma vida que a maioria das pessoas consideraria desesperada” (Cristina tinha pólio), explicaria o autor.

Talvez estejam ali porque, um pouco como as colunas de quem as pendurou na parede, as duas desconfortem pelo que expõem e insinuam ao mesmo tempo, fruto de um olhar incansável para as sutilezas clássicas — desacontecimentos, como Eliane diz — e as gritantes, tornadas sutis de tão óbvias, obscurecidas pela superexposição de seu próprio acontecimento. “Acho que os pintores nunca me descansam. Os que gosto me perturbam”, diz. “Quando vi o quadro de Wyeth no MoMA, em Nova York, senti que uma placa interna se descolava dentro de mim. Ela sou eu.”

A Origem do Mundo (1866), de Gustave Courbet (1819–1877) — do acervo do Museu D'Orsay, em Paris

Uma das jornalistas mais laureadas do país, com mais de 40 prêmios e passagens pelo jornal Zero Hora, de Porto Alegre, e revista Época, Eliane é também escritora e documentarista — com seis livros publicados e os filmes Uma Vida Severina (2005) e Gretchen Filme Estrada (2010) no currículo. Conhecida pelo estilo caudaloso que lhe rendeu o perfil “Eliane Brum para Preguiçosos” no Facebook (“acho divertido”), ela aceitou com gentileza a provocação: “Eliane Brum em um tuíte”. “A frase não é minha, mas coloquei no meu perfil do Twitter”, respondeu ela, por e-mail. “É do meu sobrinho, Rodrigo, de 5 anos. E hoje ela faz muito sentido para mim: ‘Agora não dá, estou ocupado com a minha imaginação’.”

__ELIANE HOJE

Você está voltando de uma viagem à Amazônia, assunto de um coluna recente em sua colaboração regular para o El País. Era uma viagem de descanso que virou trabalho ou uma viagem de trabalho que deveria ser de descanso?

Era uma viagem de trabalho. Eu comecei a fazer reportagens na Amazônia em 1998, quando ainda trabalhava na Zero Hora, em Porto Alegre. Naquele tempo, fui para a Transamazônica. Depois, já em São Paulo, na revista Época, comecei a viajar mais, para as diferentes Amazônias, e aprendi que elas são muitas. Estive no território Yanomami, em Roraima, com as parteiras da floresta, no Amapá, andei com prostitutas pelos garimpos do Pará, testemunhei o começo de uma corrida do ouro no Amazonas, entrevistei pistoleiros, mandantes e ameaçados de morte, contei das execuções em Castelo de Sonhos. Estive também em Rondônia e no Acre. Mas foi na Terra do Meio, no Pará, que tive a minha experiência amazônica mais fundamental, ao contar a história do “povo do meio”, ribeirinhos descendentes de soldados da borracha que estavam ameaçados de morte e eram desconhecidos do país oficial. Ainda que isso soe piegas, uma parte do meu coração ficou lá. E minha família tem instruções para lançar metade das minhas cinzas no Riozinho do Anfrísio quando eu morrer [a outra metade será enterrada no cemitério de Barreiro, em Ijuí, no interior gaúcho, de onde vem a família de seu pai]. Desde 2011, documento o que acontece com os povos do Xingu com a construção [da usina] de Belo Monte. Hoje, vou várias vezes por ano para Altamira.

Suas reflexões muitas vezes partem de detalhes desapercebidos em fotografias maiores. É possível treinar o olhar para as coisas pequenas que ajudam a compreender o todo?

Desde criança eu me interesso pelas pequenas delicadezas do cotidiano. Primeiro intuitivamente. Meus olhos e meus ouvidos sempre estavam colocados nestas coisas. Um sapato gasto de alguém me levava a mil interrogações quando era menina. Na faculdade de jornalismo, e eu nem tinha certeza que queria ser jornalista, a única grande reportagem que fiz foi sobre filas. Algo como todas as filas que a gente entra, do nascimento até a morte. Quando me tornei repórter, acabava olhando para isso, para o que acontecia nos cantos. Então, primeiro foi algo intuitivo, depois comecei a elaborar o que fazia, pensar sobre como as pequenas coisas contam grandes histórias. E passei a chamar de “desacontecimentos”. Mesmo nos grandes acontecimentos, às vezes são pequenas coisas que desencadeiam cataclismas. Uma traição, uma inveja, um ressentimento, um amor. As coisas se decidem seguidamente num acontecimento banal, que na hora nem foi percebido.

O que a levou para a vida de escritora freelancer?

Eu tinha passado os últimos anos de redação escrevendo sobre o morrer, exatamente porque queria entender o viver. Ali ficou claro para mim que a coisa mais fundamental de uma vida era o tempo. E quis me reapropriar do meu tempo. Também achava que estava na hora de “quebrar” um pouco o jeito de escrever, produzindo outras possibilidades de deslocamento. É claro que eu tinha outros planos naquele momento. Pretendia me dedicar muito mais à ficção. Lancei meu primeiro (e até agora único) romance em 2011 [Uma Duas] e foi uma experiência fundamental. Mas depois o Brasil passou por tantas convulsões que não resisti ao chamado. E aconteceu Belo Monte, a maior violência que testemunhei acontecendo sem que nada conseguisse barrá-la. Como a gente sabe, a vida é imprevisto. E eu vivo a vida como movimento, mesmo. Detesto me sentir “estabelecida”.

__ELIANE ONTEM

O que a levou a revisitar a Coluna Prestes em O Avesso da Lenda (1994), o seu primeiro livro? O livro nasceu como extensão de seu trabalho à época no Zero Hora?

Eu tinha enorme curiosidade pela Coluna Prestes porque ela tinha passado pela minha região [a caravana liderada pelo futuro líder comunista Luiz Carlos Prestes percorreu o país de norte a sul, entre 1925 e 1927, pregando reformas políticas e sociais, como o voto secreto e o ensino público]. Eu achava uma aventura impressionante. Para mim era bastante mítico aquele grupo de homens por todo aquele tempo caminhando “para libertar” o Brasil. Só que eu sentia falta nos livros que lia da vida cotidiana, das pequenas e decisivas coisas. Afinal, como era o dia a dia dessa marcha tão difícil por tantas razões diferentes? Mesmo no diário de Lourenço Moreira Lima, cronista da Coluna Prestes, eu não encontrava o que procurava. Assim, era um sonho refazer a marcha para escutar quem ainda podia contar disso, fazer memória. E um dia tive a chance de falar com o então diretor de redação da Zero Hora, Augusto Nunes [colunista da Veja e apresentador do programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo], e ele disse: “vai”. E eu fui, morrendo de medo de não encontrar ninguém vivo ou que lembrasse. E fui cheia de mito. Mas, na reportagem, não há mitos. Heróis e vilões viram pessoas complexas ou não é reportagem. Descobri isso ali, ao começar a escutar as pessoas que viviam no caminho, as que não eram nem revoltosos nem governistas. Apenas estavam ali quando a Coluna passou. E as histórias que eu escutei eram muito diferentes do que tinha lido. Neste processo eu tive que me desconstruir também para ser capaz de escutar aquilo que me espantava. E só por isso consegui trazer uma narrativa que estava invisibilizada, a narrativa do que chamei de “o povo do caminho”. E que era mais uma colaboração para a compreensão de um episódio tão complexo da história do Brasil. Na época isso causou muita polêmica, porque era início dos anos 1990, época da redemocratização do país, e a Coluna Prestes era um mito de esquerda. Apanhei bastante. Mas a história estava contada. Depois escrevi o livro, que espero reeditar quando tiver espaço interno para revê-lo mais de duas décadas depois [esgotado, está fora de catálogo]. Foi também nesta reportagem que descobri que não havia um Brasil, mas vários. E decidi conhecer tantos quanto pudesse.

Como você começou a escrever? Foi o jornalismo que a transformou em escritora?

Eu escrevo desde criança. Escrevi minha primeira poesia ruim aos 9 anos, para não me atirar pela janela numa manhã de domingo. Acho que foram os dentes do domingo que fizeram de mim uma escritora. E o fato de que queria muito chamar a atenção do meu pai [Argemiro, morto em agosto passado], que estava sempre lendo livros e textos de outras pessoas e também de seus alunos — ele foi professor da escola pública estadual durante um período da vida, mas foi principalmente professor da Unijuí, universidade da qual foi um dos fundadores. Acho que queria que ele me lesse. E, claro, ainda bem, depois essa escrita ganhou muitos outros sentidos mais interessantes. E escrevi também, ainda menina, o que deveria ser um romance intitulado Autobiografia de uma barata. Eu tinha esmagado um filhote de barata com o pé e passei mal em seguida com a ideia de que tinha lhe roubado uma vida cheia de possibilidades. Aí resolvi escrever, imagino que para dar uma inscrição àquela vida que eu tinha exterminado — mas é claro que isso não era racionalizado dessa maneira naquele tempo. No meu primeiro “romance”, eu era uma vilã.

__ONTEM E HOJE

O que as colunas de hoje em El País e The Guardian guardam de O Avesso da Lenda?

Eu escrevo para o El País regularmente, a cada 15 dias. Para o Guardian, escrevi na época do impeachment. No Guardian havia um limite de espaço, e possivelmente por isso o estilo seja diferente. Era preciso contar muita coisa em pouco espaço para quem não estava tão habituado com o cotidiano do Brasil. No El País eu tenho total liberdade de tamanho e de tema, que é algo crucial para mim. Acho maravilhoso que a internet tenha permitido a volta dos textos de profundidade, que no impresso são limitados pelo papel e pelo encolhimento cada vez maior dos jornais.

Você está envolvida em algum outro projeto de longo prazo — um romance, um filme de ficção, um documentário?

Sim, muitos. Acabei de finalizar um documentário [Laerte-se, com a cartunista Laerte, em parceria com Lygia Barbosa da Silva]. Tenho um livro para escrever que será resultado de um trabalho de quase 16 anos de reportagem. E tenho o projeto que faço na Amazônia, acompanhando os atingidos por Belo Monte. E tenho outros projetos em curso. Sofro de excesso de desejos, por isso alguns dos meus projetos estão atrasados. Estou tentando mudar para um modo menos desejante, porque acabei ficando doente e preciso voltar a mergulhar numa coisa intensa de cada vez.

Publicado originalmente na edição digital da Revista Personnalité — revistapersonnalité.com.br — em abril de 2017. Versão editada.

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