LEONARDO PADURA: “Escrever uma novela é o reino da liberdade”

Tato Coutinho
Aug 25, 2017 · 8 min read
Jorge Perrugoría como o detetive Mario Conde em um dos episódios da série "Quatro Estações em Havana", do Netflix

Trabalhando na adaptação de O Homem que Amava os Cachorros, seu clássico romance histórico sobre a trajetória de Leon Trotsky no exílio, Leonardo Padura não esconde que escrever para o cinema não tem o mesmo brilho de escrever uma novela. “É uma escritura de serviço, e o autor deve entender sua missão”, define na entrevista concedida por e-mail, no final do ano passado, à época do relançamento da tetralogia Estações Havana pela editora Boitempo. As primeiras aventuras de seu detetive Mario Conde, escritas entre 1990 e 1998, chegavam numa caixinha às livrarias pouco depois da sua estreia na televisão em minissérie do Netflix. Com produção espanhola, lindamente gravada em Cuba, “foi um trabalho dificílimo. Não havíamos nos dado conta de que eram tão pouco cinematográficas”, exagera o havanês. Leia a seguir.


O que dá mais prazer a você: escrever para o cinema ou para as páginas de um livro?

Leonardo Padura — O exercício de escrever roteiros me dá muita satisfação, mas o que eu gosto mesmo é de escrever novelas. Quando você escreve para o cinema, deve seguir certos requisitos técnicos, deve saber que está escrevendo para que o texto seja visto e falado na tela e, sobretudo, que você não é o dono das grandes decisões, ainda que seja o principal responsável pela qualidade da história. Porque sem um bom roteiro, não há um bom filme, mas o destino final do roteiro está nas mãos dos produtores e do diretor. Escrever para o cinema é uma escritura de serviço e o autor deve entender sua missão, enquanto escrever uma novela é o reino da liberdade — e o escritor é o senhor deste reino.

As pessoas continuam a parar você na rua para perguntar sobre Mario Conde? Ele existe de verdade?

Mario Conde é um personagem de ficção que conseguiu uma identificação tão grande com o público que muitas pessoas o tomam, sim, por uma pessoa real, e isso é muito gratificante para um escritor. Dizem que Conde é o personagem mais representativo da literatura cubana contemporânea.

O que o detetive Mario Conde tem de você e o que Padura tem de Conde?

Leonardo Padura — Conde representa não só um personagem muito vívido, mas é também o retrato de uma geração de cubanos, a minha geração, que cresce e passa toda sua vida na Cuba revolucionária, com suas dores e glórias. Assim, Conde e eu começamos a nos parecer. Além do mais, crescemos no mesmo bairro, fomos às mesmas escolas, tivemos as mesmas experiências geracionais e… compartilhamos gostos importantes, como a paixão pelo beisebol e pela literatura, o culto à amizade, fumar cigarrilhas… Mas ele é um policial, toma muuuuuito mais rum que eu e não tem uma mulher como Lucía [López Coll, roteirista, a companheira de Padura], ainda que tenha Tamara que… às vezes se parece com Lucía.

O ator Jorge Perrugoría se assemelha ao detetive que você tinha na cabeça?

Ele é Mario Conde! Perrugoría captou a essência do personagem e a levou para a tela. Se fisicamente se parece ou não com Conde, realmente não sei dizer: se em minhas novelas descrevo quase todos os personagens em detalhes, com Conde o ponho apenas a falar e pensar. Sempre deixei que seu aspecto físico fosse uma criação do leitor.

Você e sua mulher assinam o roteiro. Foi difícil transpor Conde à tela?

Todo mundo, a começar por mim e Lucía, pensava que seria muito fácil levar à tela as primeiras novelas de Mario Conde. Mas, quando começamos a escrever, nos demos conta de que não são nada cinematográficas porque são muito verbais, têm pouca ação física e muita reflexão — tudo passa pela cabeça, pelos olhos, pela memória de Conde e… Isso tornou dificílimo o trabalho de escrever os roteiros — sobretudo o de Lucía, que assumiu o peso maior na adaptação — porque tivemos que fazer uma tradução da literatura para um texto que se pudesse visualizar, em que acontecessem mais coisas, houvesse um pouco mais de ação física. E tudo sem trair o espírito da novela, sem alterar a essência do seu argumento.

Há algum risco de Mario Conde se mudar para Miami em um futuro próximo? Até onde sua amargura pode levá-lo?

Nunca diga nunca. O futuro é impossível de prever… Mas creio que, agora, nem Mario Conde nem eu iremos a lugar algum. Viver a realidade cubana é algo que nos alimenta aos dois. Muitas vezes nos sentimos descontentes, inconformados, deslocados, defasados, mais é isso mesmo que nos motiva a seguir adiante, cada um de seu jeito: eu escrevendo e ele sendo o protagonista das minhas histórias sobre a realidade cubana, tão peculiar e complicada que se torna um grande assunto para escrever literatura. E o ambiente natural de Conde é Havana, com suas misérias físicas e humanas, com todo seu ruído e calor humano.

Pensando em personagens familiares e em adaptações para o cinema, o que você acha de Richard Burton no papel de Trotsky e de Alain Dellon no de Mercader em O Assassinato de Trotsky (1972), de Joseph Losey? Quando chegar a vez de O Homem que Amava os Cachorros, quem você gostaria de ver no papel dos dois e de Ivan, o protagonista?

Acho que o melhor nesse filme são as atuações. Burton é um Trotsky convincente e Dellon um Mercader possível, ainda que na época em que se fez o filme se conhecesse muito pouco sobre sua vida, muito menos do que agora. É interessante saber hoje que Dellon e Mercader se pareciam fisicamente. Nesse momento, estamos trabalhando na adaptação do livro para o cinema com nossos produtores franceses e espanhois, mas ainda há um longo caminho pela frente até começar a pensar em possíveis atores. Se não demorarmos demais, alguém como Vigo Mortensen daria um grande Trotsky. Creio que Javier Bardén poderia ter sido Mercader, mas já está muito mais velho que o jovem Mercader que assassina Trotsky com 25 anos de idade. E Ivan… Há muitos bons atores cubanos que poderiam fazê-lo. Talvez Mario Guerra, que faz o papel de Candito na série Quatro Estações em Havana.

Em uma palestra em São Paulo, no ano passado, você brincou que invejava o colega Paul Auster por ser entrevistado também sobre beisebol, jazz e cinema — enquanto você é sempre perseguido por perguntas sobre a situação política em Cuba. Vamos então falar de cinema.

Muito obrigado, eu adoro falar sobre cinema. Quase tanto quanto assistir a bons filmes… Quando eu e Lucía íamos ao cinema, sabíamos se um filme era realmente bom se, ao voltarmos para casa, conversávamos sobre ele. Se não dizíamos nada, é porque era ruim. Se falávamos pouco é porque era muito, muito ruim. Ir ao cinema, quando éramos mais jovens, podia ser o encerramento perfeito de uma boa noite de um grande dia. Agora assistimos aos filmes em casa, especialmente às séries de televisão. Éramos fanáticos por The Wire, Breaking Bad e Os Sopranos. A última que adoramos foi Narcos, com Wagner Moura como Pablo Escobar. Sempre estamos falando sobre elas.

Falando de jazz, o que mais deveríamos estar ouvindo além de Bola de Nieve, Gonzalo Rubalcaba e Roberto Fonseca?

Meus gostos musicais são muito ecléticos — jazz, bolero, salsa, o bom rock. Estou sempre ouvindo, aqui e ali, Beatles e Credence, como Conde e seus amigos. E também Rubén Blades, Willie Colón, Celia Cruz, os grandes da salsa. E os boleristas cubanos dos anos 50, em especial os do “feeling” como Cesar Portillo e Jose Antonio Méndez. Bola de Nieve, o tenho em um altar. Também adoro a cantora lírica Katherin Jenkins, tenho ouvido Adele. E sempre tenho espaço para as cantoras brasileiras, Maria Betania, Gal Costa, Simone… E a grande Elis Regina. Mas devo confessar que, enquanto escrevo ou leio, não ouço música e, assim, me sobra pouco tempo para fazê-lo.

Para encerrar, um exercício de futurismo, mesmo que você já tenha dito que, como escritor, tem o defeito da falta de imaginação. Como você imagina Havana daqui a dez anos? Sobreviverá à proximidade com Miami e à reaproximação entre Cuba e os Estados Unidos?

É impossível responder sobretudo agora em que a presdiência está nas mãos de Donald Trump, que pode ser imprevisível em suas decisões políticas… Quisera eu que as relações entre meu país e seu poderoso vizinho do norte fossem normais, mas enquanto existir e funcionar, como agora, a Lei do Embargo, não há normalidade possível. Se esta circunstância mudar, Cuba poderia mudar muito… ou não. Em todo caso, espero que Havana se torne uma cidade mais bela, mais limpa, melhor cuidada, sem perder seu estilo e a magia de sempre. Tem muita gente em Havana que vive em condições materiais difíceis, muitas construções em estado precário e é importante que isso mude para melhor. Oxalá! Então eu sonho — repito, sonho! — com uma Havana viva, mais bonita, mais habitável, mas igual. Tem coisas que precisam mudar mas outras que se devem preservar — nessa dialética deve estar o futuro de La Habana. Não mudá-la seria um desastre, como seria um desastre mudá-la demais. Eu adoro a minha cidade e por isso mesmo tenho o direito de, às vezes, detestá-la. Assim é o amor verdadeiro.


UM BRINDE À PADURA E À TROTSKY

Quando Leonardo Padura esteve em São Paulo para promover uma nova edição de O Homem que Amava os Cachorros, em 2015, fui ouvi-lo falar sobre literatura em uma noite no colégio Santa Cruz. Levei minha cópia do livro para ser autografada e uma pequena homenagem ao autor — a cerveja TROTSKY.

As amadas Trotsky e Marx — crias com a Tito Bier

A ideia havia nascido um ano antes, lembrança da aventura ao lado de Trotsky, nas páginas do livro, em seu atribulado exílio, desde a fuga da Sibéria ao violento encontro com a picareta no México — antecipado com brutalidade ainda antes de a novela começar. Como Padura não me saía da cabeça, encomendei aos companheiros Vini Marson e Claus Lehman uma cerveja vermelha para dar de presente aos amigos no meu aniversário, a TROTSKY. Na mão da Ciça Pinheiro, a melhor companheira de viagens, o rótulo ficou tão lindo e a cerveja dos meninos ficou tão boa que a turma começou a pedir mais — mas essa é uma outra história, a história da Tito Bier.

Gentilíssimo, Padura se divertiu com a homenagem e prometeu pôr para gelar, ainda que preferisse rum.


Parte da entrevista que você lê aqui — e só da entrevista — foi publicada na edição 179 da Revista Gol, em fevereiro de 2017. Versão editada

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Tato Coutinho

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Jornalista freelancer com passagens pela Editora Abril, TV Cultura e Trip Editora

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