POR ISSO ESSA FORÇA ESTRANHA

Com resistência comparável a do aço em muitas aplicações e a mais alta tecnologia da natureza, o bambu tem o poder não apenas de renovar a arquitetura e a engenharia civil — ele pode salvar o planeta do esgotamento

Museu Nômade, na Cidade do México, projetado pelo colombiano Simón Vélez | Foto Divulgação/Simón Vélez

A sombra do bambuzal
varre a escada sem
levantar poeira

Em sua forma original, vernacular, o haicai apócrifo atribuído a Matsuo Bashô (1644–1694), mestre maior do gênero japonês da brevidade e concisão, estaria escrito na vertical, com os ideogramas empilhados. Sua estrutura é rígida — estabelecida em 17 sílabas métricas — mas a flexibilidade desenvolvida com o tempo permite que ele se alongue um pouco mais ou um pouco menos nas traduções que o põem abaixo. Apesar dos versos curtos, seu alcance é extensivo e as possibilidades, elásticas. Como o bambu.

Na delicadeza de Bashô, sua força apenas se insinua — mas ela é concreta. “A resistência do bambu à tração é similar a do aço”, afirma o doutor em estruturas metálicas pelo Imperial College London, Khosrow Ghavami, 75 anos. Iraniano radicado no Brasil desde os anos 1970, Ghavami chegou ao departamento de engenharia civil e ambiental da PUC do Rio de Janeiro para promover os estudos em sua área de especialização. Até observar, em passeios pelo Jardim Botânico, que alguns indivíduos daquela gramínea “aqui considerada uma praga” cresciam até 60 cm de um dia para o outro. “‘Professor, nós o convidamos para propagar o conhecimento do aço e o senhor vem falar em substituí-lo por bambu?’”, lembra, gracejando com sarcasmo a resposta que vem repetindo desde então, nos 40 anos de pesquisas que o transformaram na principal referência do setor: “‘Qual é o problema?’”.

“O bambu é um material fantástico”, diz Ghavami, membro fundador e atual presidente do IC-NOCMAT, o comitê internacional de materiais e tecnologias não-convencionais, responsável pela disseminação da informação e troca de experiências no segmento. Engenheiro civil graduado em Moscou, ele defende que a força principal do bambu não é apenas estrutural. De acordo com dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o setor de construção é um dos mais devastadores e poluentes, consumindo aproximadamente 50% dos recursos naturais do planeta e de 25% a 40% de toda energia produzida, gerando de 30 a 50% de todos os resíduos sólidos e de 30 a 40% das emissões globais de gases do efeito estufa. “O bambu tem o poder de nos salvar”, diz o pesquisador senior do CNPq, com mais de 270 artigos publicados sobre o tema. “A produção de uma tonelada de aço geeera duas toneladas de CO2” — ele se demora na ênfase — “enquanto a produção da mesma quantidade de bambu absooorve duas toneladas de gás carbônico. Não é difícil imaginar por que tão pouco entusiasmo no financiamento das pesquisas”, provoca.

ORIGINÁRIO DA ÁSIA, O BAMBU EVOLUIU DE GRAMÍNEAS PRÉ-HISTÓRICAS de 30 a 40 milhões de anos atrás. O dicionário da prestigiosa Royal Horticulture Society, fundada no começo dos anos 1800 no Reino Unido, registra aproximadamente 1200 espécies, cerca de 200 delas no Brasil. Planta com a maior velocidade de crescimento, com recorde registrado no Guiness Book (91 centímetros em único dia), atinge sua altura e diâmetro máximos — até 40 metros e 20 centímetros, respectivamente — de três a quatro meses depois de brotar do solo, atingindo a maturidade entre três e cinco anos. Embora os colmos — as seções entre os nós — tenham vida útil entre 4 e 15 anos, suas touceiras podem atingir um século de vida, com brotações anuais. “Dependendo da necessidade energética, sua sofisticada rede de raízes e rizomas pode se espalhar horizontalmente, por debaixo da terra, ou virar broto e crescer para o alto, em busca da luz”, diz o arquiteto croata Marko Brajovic, 42 anos, autor do livro Bamboo Lab (2005), em que propõe estratégias de design e desenvolvimento de projetos tendo o bambu como fonte de inspiração. “É um material high-tech por natureza.”

Anfitetatro na PUC do Rio, projetado pela Bambutec | Foto Divulgação

Usado em moradias desde a antiguidade, principalmente na China, Japão e nas civilizações pré-colombianas nas Américas Central e do Sul, o bambu também esteve presente no nascimento de tecnologias que ajudaram a definir o mundo moderno. “O filamento da primeira lâmpada elétrica de Thomas Edison [no final do século 19] era de bambu carbonizado”, afirma o professor de desenho industrial da PUC carioca, Mario Seixas, 38 anos, um ex-colaborador de Ghavami, “como também era de bambu a estrutura do primeiro avião a alçar vôo por meios próprios [a seis metros do chão, em 1906], o 14-Bis de Santos Dumont”. Sócio da Bambutec, empresa especializada em estruturas temporárias para eventos, Seixas acredita que o bambu deve retomar em breve o protagonismo que já teve no passado como “material tecnológico” principalmente na construção civil. “Com o desmatamento e o esgotamento dos recursos naturais, ele tem se apresentado como solução para uma série de questões que a humanidade enfrenta hoje.”

A bicicleta de Flavio Deslandes, no acervo do Museu do Design da Dinamarca

Como a que já afligiu Flavio Deslandes, 42 anos, outro egresso das fileiras recrutadas por Ghavami na PUC do Rio. “Eu buscava uma ideia que unisse mercado e natureza”, lembra ele de seu trabalho de conclusão do curso de desenho industrial, em 1999. “Para mim não fazia sentido pensar em um produto para durar a vida toda, que depois de um tempo fosse virar lixo. Na universidade você tem espaço para isso.” Projetou então uma bicicleta de bambu que, depois de uma série de adaptações, foi incorporada em agosto passado ao acervo do Museu do Design da Dinamarca, em Copenhague, onde vive desde 2001. “Os curadores a escolherem por ilustrar as novas tendências de criação ligadas à sustentabilidade. No final de sua vida útil, grande parte do seu material é biodegradável.” Hoje consultor para o desenvolvimento de produtos de marcas como TrioBike, Velorbis e Biomega, para quem fez uma entrega recente de cem bicicletas, Deslandes produz a sua Bamboo Comfort uma a uma, sob encomenda — já foram mais de 300 pedidos. “Se eu for montar sozinho, pode levar de um a dois meses, mas posso treinar uma pequena equipe para trabalhar em um modelo mais simples e entregar 30, 40 bicicletas por dia. Esse tempo é um pouco relativo.”

Com a sua linha “build it yourself”, a Bamboobee promete a montagem em apenas três dias. Nascida via Kickstarter, em 2013, a empresa de Cingapura entrega desde outubro passado sua bike em pedaços em embalagem semelhante ao de uma pizza gigante. Ao preço de US$ 518, o kit traz todas as peças de bambu e metal, fora as rodas e pneus. “Vendemos em média 200 bicicletas por mês, a grande maioria para clientes nos Estados Unidos e Europa”, conta o co-fundador e gerente de negócios da marca, Sunny Chua. A garantia é de três meses para os componentes metálicos (freios, cabos, pedais, corrente etc.) e de três anos para o quadro de bambu, que tem suas peças beneficiadas na China e Indonésia. “Esse é o nosso maior problema, o controle de qualidade dos tubos, que podem variar muito em diâmetro e espessura”, diz Sunny. “Nossos preços estão na média de mercado para modelos similares. Seu custo só se torna mais elevado se você levar em consideração o tempo de produção.”

Montagem acelerada da bicicleta da Bamboobee

A PRINCIPAL FRAQUEZA DO BAMBU ESTÁ EM SUA VULNERABILIDADE. Do ponto de vista material, seu lenho é muito suscetível à ocorrência de fungos e bactérias. “Muita gente usa sem ter o conhecimento de corte e tratamento adequados e o bambu pode apodrecer com facilidade”, diz Ghavami, lembrando que também a madeira, o concreto e o aço exigem cuidados especiais. Em novembro, ele apresentará no encontro anual do IC-NOCMAT, no México, os avanços em suas pesquisas de enriquecimento dos colmos com nanopartículas de prata. “Estamos a caminho do bambu de ‘durabilidade infinita’, como muitas madeiras de lei”, diz o professor, defendendo a difusão e a sistematização do conhecimento popular paralelamente ao avanço dos estudos científicos.

Do ponto de vista conceitual, o bambu ainda não foi inteiramente aceito no restrito clube do “design industrial”. No último Salão Internacional do Móvel de Milão, em abril passado, com mais de 2 mil expositores, havia apenas duas peças fabricadas com o material em destaque no site do evento. “Eu mesmo bati de frente com muitos professores”, diz Mario Seixas, da Bambutec. “Muitos profissionais não se dão conta de que talvez o melhor desenho industrial, principalmente no mobiliário, tenha uma carga artesanal muito grande, ainda amplamente desprezada” — e o bambu sofre com essa miopia, enraizada na dominação dos laminados tradicionais, como o MDF. O ateliêr de Marko Brajovic tem trabalhado para mudar essa percepção. Em 2012, desenvolveu todo o mobiliário de um dos espaços de convivência da Escola São Paulo, dedicada à economia criativa, em laminado de bambu. Em parceria com o mesmo fabricante, a Tiva Design (tivadesign.com.br), também colocou no mercado o banquinho Peque. “Apesar de toda tradição e história”, diz Mario Seixas, “ainda há muito preconceito em relação ao bambu como um material, digamos, mais nobre.”

O banquinho Peque, de Marko Brajovic | Foto Divulgação

“Ele sempre foi considerado a madeira do pobre”, diz o colombiano Simón Vélez, 68 anos, um dos arquitetos mais proeminentes no uso do material em projetos grandiosos como o Museu Nômade, na Cidade do México, ou o Crosswaters Ecolodge, resort cinco estrelas em Guangdong, na China. A partir do conhecimento dos camponeses de sua região de origem, o rico Eixo Cafeeiro ao norte do país, Vélez desenvolveu a técnica de preenchimento dos colmos com argamassa de cimento nas pontas em que recebem as conexões de metal para junção. “A partir da descoberta de como fazer essas ligações, para melhor lidar com os esforços de tração, o bambu se transformou para mim no aço vegetal”, diz. Vélez lembra que após o forte terremoto que atingiu a Colômbia em janeiro de 1999, matando cerca de 1 mil pessoas, a maioria das casas que restou de pé fora erguida em bambu. “Ele é muito mais inteligente que as árvores”, provoca o arquiteto. “Ao contrário dos troncos de madeira, seus tubos tem as fibras mais resistentes na parte externa do perímetro, de onde realmente se exige eficiência estrutural. Tanto é assim que é ar o que há em seu interior. Por isso não tenho a menor dúvida em dizer — o bambu é um material da mais alta tecnologia da natureza.”


Reportagem publicada originalmente na edição 105 da Audi Magazine, de junho de 2017. Versão editada.