“Vivemos em uma sociedade injusta. Precisamos de um homem mais fraternal”

O movimento de ocupação das escolas públicas por estudantes contrários à reforma do ensino patrocinada pelo governo Temer renova o interesse pelo atualíssimo projeto de Oscar Niemeyer: “uma escola de humanidades para transformar os jovens em agentes da transformação social”

Niemeyer em seu escritório em Copacabana, no Rio de Janeiro | Fotos: Jorge Bispo

AS IDEIAS DE OSCAR NIEMEYER são como os vãos livres de sua arquitetura, natural e sinuosa, predicados que lhe valeram a síntese de um de seus primeiros mestres, o suíço Le Corbusier (1887–1965): “Oscar, você tem as montanhas do Rio em seus olhos”. Alguns deles, vãos de mais de 200 metros como o de um novo estádio municipal para o futebol carioca, o campo coberto de ponta a ponta, um dos 50 projetos a integrar a obra retrospectiva de seus últimos dez anos de criação, em preparação pela fundação que leva seu nome.

Sob abrigo do espaço aberto pela ousadia de suas ideias, em vãos ou não, há lugar para um mundo que ele pretende sempre melhor — seja o da arquitetura, de modo particular, para ele ameaçado pela crítica sem relevo de hoje em dia; seja o da porta para fora, de modo geral, cada vez mais injusto e menos cordial. “A arquitetura para mim é um pretexto, mas só ela não basta. Precisamos de uma transformação que promova relações sociais mais verdadeiras”, diz Oscar, descansando no colo as mãos com o polegar, o indicador e o dedo-médio em pinça, como se ainda segurassem o lápis com que desenha sem parar mesmo com a vista já cansada.

“Certa vez”, lembra o arquiteto Ciro Pirondi, amigo de Niemeyer há quase 40 anos, marquise que nos conduziu ao escritório do mestre, em Copacabana, “o vi desenhando, de pé como sempre, frente à prancheta, com um rolo de fita crepe à mão”. À medida que ia riscando o traço, o cobria com a fita rugosa, configurando a evolução do desenho. “Com a ponta dos dedos, ia tateando o resultado e reconfigurando a curvatura que imaginava estar fazendo”. Do desenho crepado, nasceu o projeto do Porto da Música, às margens do rio Paraná, complexo que entrelaça duas cúpulas, com um auditório coberto para 2 500 pessoas e espaço aberto para espetáculos com grandes platéias, de até 25 mil espectadores. Será a primeira obra de Niemeyer na Argentina. Não em Buenos Aires. Em Rosário, cidade escolhida a dedo pelo arquiteto por ser o berço de Ernesto Che Guevara.

A SITUAÇÃO EM QUE O ENCONTRAMOS para uma conversa sobre a sua “predisposição para o risco” – como define Jair Valera, o diretor geral de seus projetos – e “um desejo permanente pela mudança” – como atesta a neta Ana Lucia Niemeyer de Medeiros, diretora-executiva da Fundação Oscar Niemeyer – ajuda a compreender melhor o que ele entende por “a arquitetura como pretexto”.

Na véspera da entrevista inicialmente marcada para seu escritório no Posto 6, casualmente no único prédio da avenida Atlântica a se destacar do monótono paredão por um elemento curvo em sua fachada, Ana Lucia ligou ao amigo Ciro Pirondi para confirmar o encontro, mas remarcar o lugar: o semi-abandonado canteiro de obras do Caminho Niemeyer, em Niterói, complexo arquitetônico ao qual se integra o Museu de Arte Contemporânea (MAC) da cidade. Ao contrário do elegante prédio pousado em espelho d’água no Mirante da Boa Viagem desde 1991, nenhuma outra das 11 edificações programadas, algumas levantadas do chão num suspiro de concreto, foi adiante, os esqueletos paralisados há seis anos.

Cúpula da Fundação Oscar Niemeyer, em Niterói

Casualmente ou não, no momento em que o governo do Rio autorizou a liberação de US$ 187 milhões para projetos de turismo em todo o estado, incluindo uma linha de bonde que ligará o MAC ao Caminho Niemeyer, o arquiteto anunciou à prefeitura de Niterói que gostaria de estabelecer um posto avançado de seu escritório no lugar. E assim foi feito, com a instalação meio apressada, no dia 15 de abril passado, de uma estrutura mínima para que Niemeyer pudesse trabalhar ali, às quartas-feiras, na pequena cúpula onde no futuro funcionará o Memorial Roberto Silveira, em homenagem ao ex-governador fluminense.

Tendo a arquitetura como pretexto, e o prefeito Jorge Roberto Silveira ao seu lado, Niemeyer conversou com assessores e antigos parceiros no projeto interrompido pela falta de financiamento, trocou palavras com os poucos jornalistas presentes ao evento de última hora, gravou imagens para um canal de televisão e foi embora, cerca de uma hora depois. No dia seguinte, no site da prefeitura, Silveira declarava ser “uma honra para a cidade [de Niterói] ter este gênio aqui uma vez por semana” e aguardar “a Caixa Econômica Federal liberar a primeira parcela” dos R$ 10 milhões em que estão orçadas as obras para conclusão da nova sede da Fundação Oscar Niemeyer. Principal edificação do complexo, “a cúpula e seu anexo abrigarão o acervo pessoal do meu avô e sua escola de arquitetura e humanidades”, afirma Ana Lúcia. “Oscar tem uma visão política peculiar e muito lúcida. É um homem esperançoso, mas pessimista em relação ao ritmo das transformações sociais de que o mundo que ele pretende necessita.”

O RETRATO AUTOGRAFADO DE LUÍS CARLOS PRESTES no escritório onde nos recebeu após o ato de mobilização em Niterói personifica o que a neta descreve como “visão política peculiar e muito lúcida”. Para Niemeyer, filiado ao Partido Comunista Brasileiro do companheiro Prestes por 45 anos (1945–1990), a desigualdade social é a raiz da desorganização que sempre procurou combater tendo a arquitetura como pretexto. Por isso, sua preferência declarada pelos projetos públicos, onde sempre manifesta sua inclinação ideológica “na valorização de espaços coletivos e a insinuação do uso público de espaços privados”, escreve o arquiteto Ricardo Ohtake em Oscar Niemeyer, pequeno ensaio sobre o mestre. “Para isso estamos fazendo uma escola”, Niemeyer abre a conversa com a voz baixa, ainda firme, de olho em Pirondi, diretor fundador da Escola da Cidade, em São Paulo, “um modelo a ser seguido”, segundo ele. “O jovem precisa saber que a vida é injusta, que é preciso lutar. A gente quer um homem mais fraternal.”

Como o senhor vê a importância da inovação, da criatividade, na vida cotidiana?

Para isso estamos fazendo esta revista [ele tateia a mesa ao lado, à procura do “boneco” do quinto número de Nosso Caminho, em edição, todo rabiscado por ele. “Está aqui, Oscar”, entrega Jair]. A arquitetura é o pretexto, mas o objetivo é levar ao jovem eterno, aos jovens de um modo geral, a ideia de que é preciso refletir sobre o seu país. Os jovens têm que ler, e no Brasil leem pouco. Então o sujeito entra para a escola superior, ele quer ser um vencedor, só pensa na profissão. Sobre a vida, propriamente, que é mais importante que a arquitetura, ele não toma conhecimento. E sai para a vida como especialista, despreparado para o mundo perverso que o espera. [Niemeyer folheia revista] Tem uma parte de arquitetura, mas depois vêm os artigos sobre tudo – sobre filosofia, sobre literatura, sobre política. Nós queremos levar aos jovens uma ideia [mais completa] do mundo em que a gente está vivendo, e que é preciso modificar, não é? Essa revista é muito boa por causa disso.

Com o tempo, o ensino e a experiência podem ir afastando os jovens desta visão mais humanista, não?

Por isso tenho conversado com ele, que é muito esperto e inteligente [Niemeyer aponta para Ciro Pirondi, ruborizado. “Ele quer que eu me mude para o Rio para ajudar na implantação de sua escola”, Pirondi sorri, balançando a cabeça em negativa. “A menos que eu abra mão do meu quinto casamento…”] Por exemplo, aqui no escritório há cinco anos vem um sujeito falar sobre filosofia. Agora estamos conversando sobre o cosmos. Então, a gente sai da aula, às vezes, pequenino. Porque o universo é fantástico, não é? Então, o homem fica mais modesto, achando que as coisas não são tão importantes assim. De modo que esse é o nosso trabalho. A gente não quer muito. A gente quer que o sujeito olhe os outros com… [Hesita]

Como iguais.

Com interesse. Agora, nós estamos fazendo uma escola. Eu vim de lá, da obra, e já tenho dinheiro para ela. [Volta a apontar para Pirondi, que ruboriza mais uma vez]. Tenho recebido muita lição dele, que faz um trabalho fantástico em São Paulo. Queremos fazer uma escola do mesmo gênero. A arquitetura é o pretexto. A gente discute arquitetura, mas acho que a arquitetura não basta. Eu sou contra o Bauhaus [escola moderna alemã do início do século 20 “que pressupunha a indústria como processo de execução (dos projetos de objetos e de edificação) e como idéia (a fabricação em série)”, escreve Ricardo Ohtake em Oscar Niemeyer]. Era uma burrice danada, era uma merda [risos]. Nós queremos fazer uma arquitetura que crie espanto, que seja interessante. Arquitetura é invenção.

Como criar esta sensação essencial à boa arquitetura?

A gente quer uma arquitetura que marque, que seja diferente dentro do possível, sem mexer no programa, que se adapte ao ambiente. Isso tudo a gente respeita, mas às vezes a gente tira alguns apoios, não é? E a arquitetura se faz mais audaciosa, e os espaços, mais generosos. A gente está fazendo agora um estádio [projeto para o município do Rio, ainda sem plano de implantação]. São duas vigas de 200 metros, por cima tem um vidro, para protegê-lo da chuva e tudo, e por baixo há iluminação natural. O concreto é o grande generoso que permite todas as soluções. Então, acho que a cada arquiteto cabe achar a sua arquitetura, se possível. Eu gosto muito da arquitetura do Paulinho [Mendes da Rocha, ao lado de Niemeyer, o outro único brasileiro a merecer o prestigiado Prêmio Pritzker], que trabalha o aspecto da estrutura, para procurar o vão maior…

“É uma burrice danada tombar uma cidade. De modo que fiquei, assim, meio chateado. Se eles estão tão interessados na ideia de que Brasília deva ser tombada, que se fodam.”

A experiência não acaba nos afastando desta condição essencial, natural na juventude, de se espantar com o mundo?

O importante é o jovem ler – ler qualquer coisa. O sujeito acaba encontrando um caminho que ele queira. Eu não quero que o jovem seja um especialista na profissão. A gente quer um homem mais fraternal. Pensar que somos donos do mundo? Não somos nada!

O senhor pareceu manifestar um antigo gosto pelo risco ao propor o projeto da Praça da Soberania, no gramado central da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, idéia rejeitada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Brasília não tem uma praça que dê uma ideia da importância do país, da tendência de imaginação do povo brasileiro. Uma praça que você passe e não esqueça mais. É uma burrice danada tombar uma cidade [inteira]. No Brasil, se o Rio de Janeiro fosse tombado, o Pereira Passos [engenheiro responsável pela modernização da cidade em seu mandato como prefeito, entre 1902 e 1906] não poderia ter feito a avenida Rio Branco, que cortou o país de lado a lado. Me lembro quando Corbusier chegou aqui e viu essa solução do Passos, abrindo espaços, ele ficou espantado. Todas as cidades foram modificadas. Paris foi modificada pelo Haussmann [prefeito que promoveu um grande processo de renovação urbanística entre 1852 e 1870] ao criar aquelas avenidas enormes. Na Espanha, as cidades foram caminhando para o mar, que era a tendência natural. E todas as cidades, assim, sofreram modificações. De modo que fiquei, assim, meio chateado. Até fiz uma nota quando retirei o projeto [em fevereiro passado]. No meu texto, me permiti dizer que não concordava com eles. Se eles estão tão interessados na ideia de que Brasília deva ser tombada, que se fodam. [Risos]

"O reacionário é um pobre criativo, de mau gosto"

No livro retrospectivo dos últimos dez anos do seu trabalho, em preparação pela Fundação Oscar Niemeyer, a maioria dos projetos é de museus, teatros, parques. O senhor sempre preferiu os projetos públicos aos privados, não?

Tanto trabalho! [Risos.] Tem 50 projetos. Você imagina, 50 projetos? São teatros, bibliotecas, são coisas grandes, imensas. Eu me obrigo a chamar o homem do concreto, conversar com ele. A arquitetura depende disso, de promover espaços coletivos. Existe coisa pior do que fazer uma residência?

Por quê? É mais difícil?

Como é que você vai lidar com um casal reacionário? [Risos.] Eu prefiro fazer um museu a uma casa. O reacionário é um pobre criativo, de mau gosto. Uma vez, fiz uma casa para um cliente libidinoso. Eu fiz o quarto dele, a cama que continuava, aberto para uma piscinazinha que ele ficava vendo da cama [risos]. Podia ir da cama para a piscina, da piscina para a cama, sempre com seu drink vermelho, meio libidinoso. Ele adorou aquilo… [Risos]

O senhor não nega trabalho, não é?

Ajudo muita gente, porque o trabalho que eu faço, eu recebo só o projeto. O desenvolvimento, ou é o Jair quem faz, que tem um escritório ligado ao meu, ou alguma pessoa de fora, amigo e tal. De modo que eu só recebo o projeto. O resto, eu divido.

Como manter a simplicidade ao longo da vida?

Uma vez, um sujeito perguntou: “Oscar, e a vida?”. Eu disse: “A vida? Mulher do lado e seja o que Deus quiser!” [Risos.] A mulher é fundamental, como dizia Darcy Ribeiro. Agora, a vida depende da chance. Eu tive chance. Outras pessoas não têm. Tem colega meu que não tem trabalho. Isso me incomoda, não é? Eu me lembro do João Saldanha, que vinha muito aqui. Ele dizia sempre: “Eu não consigo seguir um caminho. Quero fazer uma coisa, o destino me leva para outro lado”. Enfim… De modo que o importante é a mulher do lado [risos]. E saber que nós não temos importância. Que o tempo é curto. Quando você sobrevive mais, você se despede demais das pessoas. A vida é uma merda [ele ri da blague], mas a gente tem de viver, não é? //


Um homem de concreto e cristal

Como nasceu minha amizade com Oscar Niemeyer
por Ciro Pirondi, arquiteto e diretor da Escola da Cidade, em São Paulo

O repórter, Niemeyer e Ciro Pirondi, no escritório do arquiteto

JÁ FORMADO EM 1981, ESTUDAVA UM POUCO MAIS na Escola Superior de Arquitetura de Barcelona. Tínhamos de apresentar no ano dois trabalhos de pesquisa. Escolhi um sobre o norte-americano Louis Kahn e outro sobre Oscar Niemeyer. Quando jovem, nos permitimos várias licenças poéticas, as quais jamais deveríamos abdicar durante a vida. Assim, ao terminar o trabalho, enviei a Niemeyer o texto básico sobre seus desenhos com o seguinte bilhete anexo: “Este é um breve texto de análise sobre o método gráfico de seu trabalho. Caso o senhor ache interessante, utilize-o como quiser. Caso contrário, encontre a lata de lixo mais próxima”.

Meses depois, recebi a revista Módulo, editada por ele, com meu texto publicado e a seguinte nota: “Quando regressar ao Brasil, venha me visitar. Abraço. Oscar Niemeyer”. E foi a primeira coisa que fiz ao voltar para o Brasil, em 1983. Iniciamos assim um convívio cultivado nesses anos todos, apesar da distância física.

O principal ensinamento dessa amizade são suas atitudes. Sua arquitetura generosa e bela é a expressão gráfica de sua visão do homem e do mundo. Toda vez, ao encontrá-lo, me surpreende seu vigor, seu ânimo com um novo projeto, fazendo questão de mostrá-lo e explicando as razões do partido arquitetônico. A liberdade e o rigor com a estrutura são a síntese de todos os seus desenhos. Quando diretor do Instituto de Arquitetos do Brasil, ele me chamou e pediu para fazer uma carta-resposta ao presidente da União Internacional dos Arquitetos, o qual havia escrito uma representação contra o projeto feito por Oscar na ilha de Gore, África. Fiz a carta e enviei para a análise dele antes de remetê-la ao presidente da UIA. Oscar me ligou, agradeceu, mas disse ser “frouxa” a carta, pois ela não expressava a indignação necessária contra aquele “reacionário filho da puta”. Imediatamente, após o puxão de orelha, refiz com vigor – e ele aprovou. Oscar é um homem de concreto e cristal.

Recentemente, jornalistas iniciavam uma gravação para a TV canadense. Após testar todo o equipamento, a repórter iniciou a conversa dizendo: “Aos 101 anos, o senhor…”. Ele interrompeu a gravação: “Começamos mal, pode desligar todos esses aparelhos aí. Essa história de 101 anos é tudo mentira. Tenho 65, vamos começar outra vez”. Algumas pessoas envelhecem por opção. Outras desistem, outros ainda jovens entristecem. Alguns, no entanto, acima da condição social, da cultura e do conhecimento parecem trazer “o norte” dentro de si. Têm a intuição do sentido da direção correta. Com isso, não dispersam energia, não se debatem em esforços desnecessários, pelo contrário, armazenam energia, estando num estado permanente de criação e juventude. Ele sempre diz que “envelhecer é uma merda”, mas a forma como ele o fez é um belo desenho a seguir. Oscar é um grande artista. Ser grande artista e popular é concessão dos deuses a poucos: “Você está vendo as colunas do Palácio da Alvorada desenhadas no para-lama daquele caminhão ali na frente? Nada me dá mais prazer do que vê-las ali”. As arquiteturas desenhadas por ele são de tal força que já fazem parte do imaginário do Brasil. Nós não seríamos o mesmo país sem elas. //


Reportagem publicada originalmente na edição 75 da Audi Magazine, em junho de 2009. Versão editada.

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